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Agente Secreto X-9, o herói de 1934 virou delator

Uma tira policial americana chegou aos jornais brasileiros nos anos 1930, e o número do agente acabou na boca de quem entrega o outro.

Tira de jornal dos anos 1930 com um agente de chapéu e sobretudo numa rua noturna.

O agente X-9 na tira de jornal de 1934

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Por que o dedo-duro tem número, e logo X-9? Porque o número era de um personagem: o Agente Secreto X-9, herói de uma tira de jornal americana de 1934 que o leitor brasileiro acompanhou na mesma década.

Imagine uma banca de jornal numa manhã de domingo, nos anos 1930. O menino junta as moedas e leva para casa o caderno de quadrinhos, impresso em papel barato, com cheiro de tinta ainda fresca.

Entre as histórias de aventura no espaço e de selva aparece uma diferente. Não tem nave nem leão. Tem um homem de chapéu e sobretudo, cidade grande à noite, gângster de terno e tiroteio em beco molhado.

O homem não tem rosto conhecido nem nome de batismo na página. Tem um código: X-9. Trabalha para o governo, infiltrado entre os bandidos, e vive de descobrir quem manda no crime e passar a informação adiante.

Na tira, ele é o mocinho. A polícia depende dele, e o leitor torce para que ninguém do bando perceba quem ele é. Cada semana termina com o disfarce por um fio.

O desenho tem traço elegante, sombra pesada e mulheres de vestido longo. O texto vem curto e seco, frase de romance policial. Quem assina são dois americanos: um escritor famoso por histórias de detetive e um desenhista jovem que ainda ia ficar mais famoso.

O menino da banca não pensa nos autores. Pensa no agente que finge ser bandido e entrega o bando no último quadro.

Anos depois, numa esquina, numa cela ou numa roda de conversa, alguém aponta para um sujeito e diz baixinho que ele é X-9. A fala não elogia ninguém. Quer dizer que aquele homem conta à polícia o que viu entre os seus.

O herói da tira e o delator da esquina fazem o mesmo trabalho: estão dentro do grupo e levam a informação para fora. A diferença é de que lado está quem conta a história.

A faixa I mostra como o código do agente virou insulto no português falado.

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I  A frase de hoje

O número do delator

Chamar alguém de X-9 é acusar essa pessoa de entregar os outros. O X-9 é o informante, o que vê o erro do colega, do vizinho ou do companheiro de cela e leva a notícia para a polícia, para o chefe ou para quem pode punir.

O X-9 é quem está dentro do grupo e trabalha para fora dele.

A palavra tem parentes antigos no português. Dedo-duro é o que aponta com o dedo esticado. Alcaguete, palavra que veio do árabe pelo espanhol, é o informante pago. Caguete e cagueta são formas curtas da mesma palavra, mais comuns na fala de rua.

X-9 entrou nesse grupo com uma vantagem: soa como código, e código dá à acusação um ar de espionagem. Quem diz X-9 sugere que o delator tem contato, função e talvez recompensa.

Onde a palavra aparece

Na escola, é o colega que conta à professora quem colou na prova. A turma inteira sabe quem foi, e o apelido acompanha o aluno até a formatura.

No trabalho, é quem repassa ao gerente a conversa do café. Ninguém precisa provar nada: basta a reunião seguinte trazer um assunto que só cinco pessoas sabiam.

No presídio e no crime, a palavra pesa mais. Ali, ser chamado de X-9 é acusação grave, porque o grupo pune quem coopera com a polícia. A gíria nasceu leve nas histórias em quadrinhos e endureceu nas cadeias.

No futebol de várzea e na política, aparece como brincadeira ou como golpe. O jogador que conta ao técnico do outro time a escalação vira X-9. O assessor que vaza documento para a imprensa também.

O tom da palavra

X-9 nunca é elogio. Mesmo quando a informação entregue era correta e útil, a palavra condena o gesto de contar, não o erro contado.

Esse tom inverte a tira original. No jornal, o agente infiltrado era o herói e o bando era o vilão. Na fala brasileira, o ponto de vista passou para dentro do bando, e quem conta tornou-se o traidor.

Como reagir ao ser chamado de X-9

Quem recebe o apelido costuma seguir três caminhos:

1. Separar o fato do apelido: dizer em voz clara o que contou, a quem e por quê.

2. Avaliar se a informação protegia alguém, como colega em risco ou cliente enganado.

3. Aceitar o custo social quando a denúncia era necessária, sem fingir que não houve.

O terceiro caminho é o mais raro. O próprio agente da tira vivia nele: sabia que, descoberto, perderia a confiança de todos em volta.

 
 

II  De onde veio

A tira de Hammett e Raymond

O Agente Secreto X-9, Secret Agent X-9 no original, estreou nos jornais americanos em janeiro de 1934, distribuído pela King Features Syndicate, a agência que vendia tiras prontas para centenas de jornais ao mesmo tempo.

O roteiro era de Dashiell Hammett, autor de O Falcão Maltês, de 1930, e um dos criadores do romance policial noir (sombrio, de crime urbano e personagens ambíguos). Antes de escrever, Hammett tinha trabalhado como detetive da agência Pinkerton.

O desenho era de Alex Raymond, então com 24 anos. No mesmo mês, ele estreava também Flash Gordon e Jim das Selvas, duas tiras que o tornariam um dos desenhistas mais copiados do século.

Um agente sem nome

O personagem não tinha nome fixo. X-9 era o número de agente do governo federal, e nas primeiras histórias ele usava nomes falsos conforme o disfarce. Só décadas depois, nos anos 1960, a tira deu a ele um nome civil: Phil Corrigan.

A ideia combinava com o momento. Os Estados Unidos viviam a era dos gângsteres da Lei Seca e do FBI de J. Edgar Hoover, e o público queria histórias de policiais infiltrados no crime organizado.

Hammett ficou pouco tempo. Deixou o roteiro em 1935, e Raymond saiu logo depois para cuidar só de Flash Gordon. A tira seguiu com outros autores e durou até 1996, rebatizada Secret Agent Corrigan na fase final. Foram mais de seis décadas de jornal.

A luta do agente infiltrado é a confiança de quem não sabe quem ele é.

A chegada ao Brasil

As tiras da King Features chegavam aos jornais brasileiros pouco tempo depois de sair nos americanos. Em março de 1934, o jornalista Adolfo Aizen lançou o Suplemento Juvenil, caderno de quadrinhos encartado no jornal A Nação, que trouxe ao leitor brasileiro Flash Gordon, Jim das Selvas e as histórias do agente X-9.

Os quadrinhos americanos dominaram as bancas brasileiras na década. O Globo Juvenil, de Roberto Marinho, entrou na disputa em 1937 com o mesmo tipo de material, e os heróis estrangeiros viraram assunto de criança e de adulto.

O X-9 chegou com o número em destaque, porque era assim que a tira o apresentava, no título e nos balões. Para o leitor brasileiro, o personagem era o X-9, e o número ficou mais forte que qualquer nome.

 

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III  Carimbo de origem

Do herói ao apelido

Palavra: X-9

Sentido: delator, informante

Origem: tira de jornal

Estreia nos EUA: janeiro de 1934

Autores: Hammett e Raymond

No Brasil: década de 1930

A tira explica o número, mas não explica sozinha a troca de herói para traidor. Para essa parte, a pista está em quem passou a usar a palavra.

O X-9 dos quadrinhos era espião do governo dentro do crime. Para a polícia e para o leitor, um herói. Para o bando, o pior inimigo possível: alguém que comia na mesma mesa e depois contava tudo ao delegado.

Quando a gíria pegou no Brasil, ela pegou do lado do bando. Nas ruas, nas cadeias e nos morros, quem precisava de uma palavra para o infiltrado era justamente quem tinha medo dele. O número do herói virou o rótulo do inimigo.

O que os registros guardam

Nenhum dicionário marca o ano exato em que X-9 apareceu na fala com o sentido de delator. A gíria nasceu oral, e a fala de rua raramente deixa documento no dia em que surge.

O que existe são os registros posteriores. Dicionários de referência, como o Houaiss, registram X-9 como informante da polícia, gíria do português do Brasil, e apontam o personagem dos quadrinhos como fonte do número.

Na imprensa, a palavra aparece em reportagens policiais a partir da metade do século 20, já com o sentido fixado. O caminho exato entre a banca de 1934 e a página policial ficou sem documento conhecido, e a explicação aceita pelos dicionaristas é a do personagem.

O que sobrou

Fora do Brasil, X-9 nunca virou sinônimo de delator. Nos Estados Unidos, a tira é lembrada como obra de Hammett e Raymond, e só. O sentido de informante é invenção do português brasileiro.

O nome sobreviveu também em lugares inesperados. Escolas de samba de Santos e de São Paulo usam X-9 no nome, e a palavra segue viva em letra de funk, de rap e de samba, quase sempre como acusação.

Hammett e Raymond criaram um herói que fingia ser bandido. O Brasil guardou o número e mudou o lado da história.

“Quando alguém conta o que viu, você chama de coragem ou de X-9?”

 
 
 

Quiz da edição

Em que ano a tira Agente Secreto X-9 estreou nos jornais americanos?

A1930
B1934
C1935
D1937

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