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O texto que originou a expressão está na Ética a Nicômaco, tratado que Aristóteles escreveu em Atenas no século quatro antes de Cristo e dedicou ao filho, Nicômaco. O trecho fica no Livro I, na passagem catalogada pelos editores como 1098a.
O assunto do capítulo é a definição de felicidade, que em grego aparece como eudaimonia. Aristóteles estava rejeitando a ideia de que a vida boa seja uma soma de prazeres ou uma sucessão de bons momentos.
A tese dele é que a felicidade é uma atividade da alma conforme a virtude, exercida ao longo de uma vida completa. Faltava uma imagem que fizesse a última parte, a da vida completa, ficar óbvia para quem estivesse ouvindo a aula.
Foi aí que o provérbio do campo entrou no tratado de filosofia:
"Pois uma andorinha não faz primavera, nem tampouco um só dia; e assim também um dia, ou um curto espaço de tempo, não faz um homem feliz e venturoso." Aristóteles · Ética a Nicômaco, Livro I, 1098a · século quatro antes de Cristo |
A construção grega é curta e direta, mia chelidon ear ou poiei, e cada palavra dela tem peso na história posterior da frase. Chelidon é a andorinha e ear é a primavera, sem ambiguidade nenhuma no vocabulário da época.
Os pontos do percurso que interessam a esta história cabem em cinco linhas:
Obra de origem: Ética a Nicômaco, Livro I, trecho 1098a
Autor: Aristóteles, em Atenas, século quatro antes de Cristo
Estação no original grego: ear, primavera
Versão latina consagrada: una hirundo non facit ver, também primavera
Registro que espalhou a frase: Adágios, de Erasmo de Roterdã, 1500
O latim manteve a estação sem mexer em nada. Ver significa primavera em latim clássico, e a fórmula una hirundo non facit ver circulou por escolas e sermões da Idade Média nessa forma.
A frase virou provérbio europeu de circulação ampla com Erasmo de Roterdã. A coletânea de Adágios, publicada em 1500 e reeditada durante todo o século dezesseis, reunia máximas greco-latinas com comentário, e serviu de fonte para escritores de meia dúzia de línguas.
Do latim para o português, a estação escorregou. E o motivo do escorregão está dentro da própria palavra verão, não na cabeça de quem traduziu.
Verão vem do latim veranum tempus, expressão formada justamente sobre ver, a primavera. Veranum tempus era o tempo primaveril, e a construção chegou ao português antigo ainda com esse sentido.
O que aconteceu depois foi um deslize gradual de significado, do tipo que acontece em língua viva sem ninguém decidir. Verão foi cobrindo a estação seguinte, empurrou primavera para o lugar que a palavra ocupa hoje e ficou com o calor cheio.
A andorinha nunca mudou de estação. Foi a palavra que mudou de estação debaixo dela, levando junto uma frase de vinte e quatro séculos.
O espanhol fez a mesma viagem, com verano no mesmo posto. O francês e o italiano preservaram a primavera porque nenhuma das duas línguas usou o descendente de ver para nomear o calor.
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