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A história começa com Mitrídates VI, rei do Ponto, um reino na costa sul do Mar Negro, que governou entre 120 e 63 antes de Cristo. Ele vivia com medo de ser envenenado e, segundo os relatos antigos, tomava todo dia pequenas doses de venenos e antídotos para criar resistência.
Do medo do rei nasceu o mitridato (o antídoto batizado com o nome dele), uma pasta de muitos ingredientes. O naturalista romano Plínio, o Velho, na obra História Natural, do ano 77, contou 54 componentes na receita.
A víbora entra na receita
Cerca de um século depois de Mitrídates, Andrômaco, o Velho, médico pessoal do imperador Nero, reformou a fórmula. Ele acrescentou carne de víbora e chegou a uns 64 ingredientes, segundo a receita que o próprio Andrômaco escreveu em versos e dedicou ao imperador.
O preparo ganhou nome novo: theriaké, palavra grega para antídoto contra fera, formada a partir de thēr (bicho selvagem, venenoso). Do grego para o latim theriaca, do latim para o português teriaga, e da fala do povo para triaga.
A lógica da víbora seguia o raciocínio da época: se o veneno vinha da cobra, a cura também podia vir dela.
Galeno e o imperador
O médico Galeno de Pérgamo, o mais influente da Antiguidade, preparou a triaga para o imperador Marco Aurélio, que a tomava com regularidade. Galeno escreveu tratados inteiros sobre o antídoto, e a autoridade dele manteve a receita viva por mais de mil anos.
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O antídoto contra uma doença virou antídoto contra todas.
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Com o tempo, a triaga deixou de ser só remédio para veneno. Os médicos medievais e renascentistas passaram a receitá-la para peste, febre, epilepsia, problemas do coração e do estômago. Cada geração somava uma indicação, e nenhuma tirava.
A triaga de Veneza
Na Idade Moderna, Veneza virou a capital do preparo. A triaca veneziana era feita em público, em praça aberta, diante de médicos e autoridades da cidade, para provar ao comprador que a receita era honesta.
Os potes saíam de lá para o resto da Europa e para as colônias. A cerimônia pública era a garantia de qualidade da época: todo mundo via os ingredientes entrarem no tacho.
O preparo seguia um calendário. Os ingredientes eram pesados, moídos e misturados ao mel ao longo de dias, e a pasta descansava em potes lacrados antes de ir à venda. Quanto mais velha, mais valiosa era considerada.
Outras cidades fizeram triagas próprias, mas o nome de Veneza no rótulo continuou valendo como selo de origem por séculos.
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