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Triaga, o remédio para todos os males

O pote do boticário prometia curar qualquer mal, e a língua guardou o nome para a cura boa demais.

Pote de faiança azul com a palavra TRIAGA na prateleira de uma botica colonial.

O pote de triaga no alto da botica

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De onde vem a ideia de um remédio para todos os males? De um pote de boticário chamado triaga, que prometia curar de picada de cobra a dor de barriga e, por prometer tudo, terminou desacreditado.

Imagine uma botica (a farmácia da época) em Salvador, na primeira metade do século XVIII. O balcão é de madeira escura, e as prateleiras guardam potes de faiança pintados de azul, cada um com o nome do conteúdo escrito à mão.

O pote mais caro fica no alto, longe do alcance das crianças. Na faixa pintada, uma palavra só: TRIAGA.

Entra um homem com o braço inchado. Foi picado por uma jararaca no caminho da roça. O boticário, o farmacêutico daquele tempo, raspa uma porção de pasta escura do pote, dissolve em vinho e manda beber.

Uma hora depois entra uma mãe com o filho ardendo em febre. O boticário abre o mesmo pote. Mais tarde chega um senhor com cólica, e depois uma moça com tosse. A colher desce no mesmo lugar todas as vezes.

Dentro do pote há uma mistura de dezenas de ingredientes: mel, ópio, canela, mirra, açafrão, raízes, resinas e, nas receitas mais antigas, carne seca de víbora. A pasta levava meses para ficar pronta e precisava descansar anos antes de ir ao balcão.

Ninguém naquela botica achava estranho um único preparo atender a picada, febre, cólica e tosse. Pelo contrário: quanto mais ingredientes, mais confiança o remédio inspirava. A receita vinha de médicos famosos da Antiguidade e tinha atravessado quase dois mil anos de farmácia.

O cliente pagava caro e saía satisfeito. Se melhorava, a triaga levava o crédito. Se piorava, faltara dose, ou a doença era forte demais para qualquer remédio.

A primeira faixa mostra o que a palavra passou a dizer quando saiu do pote e entrou na conversa.

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I  A frase de hoje

O pote bom para tudo

Chamar alguma solução de triaga, ou de remédio para todos os males, é desconfiar dela. A frase descreve a promessa grande demais: o plano, o produto ou o conselho que diz resolver qualquer problema de uma vez.

Quando um remédio cura tudo, ninguém consegue provar o que ele cura.

O nome antigo sobrevive nos dicionários de português como triaga ou teriaga, e o sentido figurado ficou com a expressão inteira. Hoje quase ninguém diz triaga em voz alta, mas todo mundo entende o tom de quem fala em remédio para todos os males: é ironia.

Onde a frase aparece

No trabalho, chega com o sistema novo da empresa. A diretoria apresenta o programa como a solução para os atrasos, a comunicação e o estoque, e o funcionário antigo comenta baixinho que já viu três remédios para todos os males passarem por ali.

Na política, aparece no plano econômico anunciado em rede nacional, que promete derrubar a inflação, gerar emprego e equilibrar as contas no mesmo pacote.

Em casa, mora no chá da vizinha, aquele que serve para gripe, insônia, gastrite e mau-olhado. A avó oferece, a neta aceita por educação.

Na internet, é o curso de três semanas que promete dinheiro, saúde e paz de espírito, tudo pelo mesmo preço.

Os parentes da triaga

O português tem outras palavras para a cura universal, cada uma com origem própria:

• Panaceia: nome da deusa grega da cura

• Elixir: do árabe al-iksir, pó mágico

• Óleo de cobra: tônico vendido em feira

• Triaga: o antídoto de dezenas de itens

A panaceia é a mais antiga e a mais abstrata: Panákeia, em grego, quer dizer “a que cura tudo”. O elixir veio dos alquimistas. O óleo de cobra é tradução do inglês snake oil (óleo de cobra), o frasco que charlatães vendiam no Velho Oeste americano.

A triaga é a única que existiu de fato em todas as farmácias, com receita escrita, preço tabelado e fiscal de olho no preparo.

O tom da frase

Quem usa a expressão quase sempre está avisando. A pessoa não nega que o remédio funcione um pouco; ela nega que funcione para tudo. Uma promessa ampla demais deixa de ser conferida, e a dúvida mora justamente na amplitude.

O teste é fácil de aplicar: pergunte qual problema a solução resolve primeiro. Se a resposta for todos, o ouvinte tem motivo para desconfiar.

 
 

II  De onde veio

Do rei do Ponto ao médico de Nero

A história começa com Mitrídates VI, rei do Ponto, um reino na costa sul do Mar Negro, que governou entre 120 e 63 antes de Cristo. Ele vivia com medo de ser envenenado e, segundo os relatos antigos, tomava todo dia pequenas doses de venenos e antídotos para criar resistência.

Do medo do rei nasceu o mitridato (o antídoto batizado com o nome dele), uma pasta de muitos ingredientes. O naturalista romano Plínio, o Velho, na obra História Natural, do ano 77, contou 54 componentes na receita.

A víbora entra na receita

Cerca de um século depois de Mitrídates, Andrômaco, o Velho, médico pessoal do imperador Nero, reformou a fórmula. Ele acrescentou carne de víbora e chegou a uns 64 ingredientes, segundo a receita que o próprio Andrômaco escreveu em versos e dedicou ao imperador.

O preparo ganhou nome novo: theriaké, palavra grega para antídoto contra fera, formada a partir de thēr (bicho selvagem, venenoso). Do grego para o latim theriaca, do latim para o português teriaga, e da fala do povo para triaga.

A lógica da víbora seguia o raciocínio da época: se o veneno vinha da cobra, a cura também podia vir dela.

Galeno e o imperador

O médico Galeno de Pérgamo, o mais influente da Antiguidade, preparou a triaga para o imperador Marco Aurélio, que a tomava com regularidade. Galeno escreveu tratados inteiros sobre o antídoto, e a autoridade dele manteve a receita viva por mais de mil anos.

O antídoto contra uma doença virou antídoto contra todas.

Com o tempo, a triaga deixou de ser só remédio para veneno. Os médicos medievais e renascentistas passaram a receitá-la para peste, febre, epilepsia, problemas do coração e do estômago. Cada geração somava uma indicação, e nenhuma tirava.

A triaga de Veneza

Na Idade Moderna, Veneza virou a capital do preparo. A triaca veneziana era feita em público, em praça aberta, diante de médicos e autoridades da cidade, para provar ao comprador que a receita era honesta.

Os potes saíam de lá para o resto da Europa e para as colônias. A cerimônia pública era a garantia de qualidade da época: todo mundo via os ingredientes entrarem no tacho.

O preparo seguia um calendário. Os ingredientes eram pesados, moídos e misturados ao mel ao longo de dias, e a pasta descansava em potes lacrados antes de ir à venda. Quanto mais velha, mais valiosa era considerada.

Outras cidades fizeram triagas próprias, mas o nome de Veneza no rótulo continuou valendo como selo de origem por séculos.

 

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III  Carimbo de origem

Do balcão ao descrédito

Expressão: triaga

Sentido: cura prometida para tudo

Origem: theriaké, antídoto grego

Receita: Andrômaco, século I

A triaga atravessou o Atlântico com os portugueses. No Brasil colonial, os jesuítas do Colégio da Bahia, em Salvador, criaram a triaga brasílica, uma versão com plantas da terra no lugar de parte dos ingredientes asiáticos, caros e difíceis de conseguir.

As plantas da terra entraram pelo conhecimento indígena, que os missionários aprenderam nas aldeias e anotaram nos seus cadernos de receitas.

A fórmula era guardada em segredo e vendida com lucro para fora da colônia. O preparo dependia dos padres, e a produção perdeu os fabricantes quando o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal e das colônias, em 1759.

A dúvida sem resposta

Não se sabe em que ano triaga passou a ser usada em português para falar de qualquer solução milagrosa, fora da farmácia. O primeiro registro escrito desse sentido figurado não foi identificado, e cravar uma data seria inventar.

Em inglês, a mesma palavra seguiu outro caminho. Theriac virou treacle, e como o remédio era tomado misturado a xarope, o nome passou ao próprio melaço: no inglês britânico de hoje, treacle é o melado de cana, sem nenhuma promessa de cura.

O fim do pote

A triaga perdeu a autoridade aos poucos, em três passos:

1. Em 1745, o médico inglês William Heberden publicou o ensaio Antitheriaka, contra o mitridato e a triaga.

2. Em 1759, a expulsão dos jesuítas tirou a triaga brasílica dos seus fabricantes.

3. Em 1884, a farmacopeia oficial da França retirou a triaga da lista de preparos.

O argumento de Heberden era simples: ninguém conseguia dizer qual dos ingredientes fazia efeito, e a maioria deles não fazia nenhum. O ópio da mistura aliviava a dor e acalmava o doente, e o resto ficava com a fama.

A crítica demorou a pegar. Boticários continuaram vendendo triaga por muitas décadas depois do ensaio, porque o cliente pedia e o pote estava na prateleira.

O que sobrou

Os potes de faiança com a palavra TRIAGA hoje estão em museus de farmácia, vazios. A receita saiu do balcão, mas a desconfiança ficou na língua: sempre que alguém oferece um remédio para todos os males, o ouvinte atento pergunta qual mal, exatamente, ele resolve.

“Qual remédio para todos os males você ainda guarda no armário?”

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quem acrescentou carne de víbora à receita da triaga e elevou o número de ingredientes para cerca de 64?

AMitrídates VI, rei do Ponto
BAndrômaco, o Velho, médico de Nero
CGaleno de Pérgamo
DPlínio, o Velho

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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