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Carimbo: miséricorde (misericórdia), nome francês do punhal, em textos da Baixa Idade Média.
Rota: do latim misericordia (piedade) pro francês, e da lâmina pro tiro dos pelotões.
Ressalva: a primeira ocorrência escrita de tiro de misericórdia em português não foi localizada.
A palavra misericórdia vem do latim misericordia, junção de miser (infeliz) e cor, cordis (coração). Quem tem misericórdia põe o coração no infeliz. O sentido religioso, a compaixão de Deus pelo pecador, dominou a palavra durante a Idade Média inteira.
No português, a palavra virou nome de instituição. A Santa Casa da Misericórdia, irmandade de caridade, nasceu em Lisboa em 1498, por iniciativa da rainha Leonor, e se espalhou pelo império português, inclusive pelo Brasil.
O tiro do oficial
A passagem da lâmina pro tiro aconteceu nos pelotões de fuzilamento. A execução por fuzilamento se firmou nos exércitos europeus entre os séculos XVIII e XIX como pena militar. Os atiradores disparavam juntos, e nem sempre a descarga bastava.
O costume previa então um último gesto: o oficial que comandava o pelotão caminhava até o condenado e disparava com a pistola na cabeça. O francês chamou esse disparo de coup de grâce; o português preferiu o vocabulário da piedade e falou em tiro de misericórdia.
O fuzilamento de Maximiliano, imperador do México, em Querétaro, em junho de 1867, ficou conhecido justamente por esse detalhe. Depois da descarga, ele ainda se mexia, e um soldado precisou dar o tiro final.
O episódio chegou à Europa por relatos e por pinturas. Édouard Manet pintou A Execução do Imperador Maximiliano entre 1867 e 1869, em várias versões, e pôs à direita do pelotão um soldado que arma o fuzil pro disparo final.
No Brasil, a pena de fuzilamento existe só pra crime militar em tempo de guerra declarada, prevista na Constituição de 1988 e no Código Penal Militar. Nunca foi aplicada sob a Constituição atual.
Por aqui, a expressão migrou do quartel pro jornal. Hoje aparece mais em manchete de economia e de esporte do que em notícia de guerra, sinal de que o sentido figurado venceu o literal.
Os punhais que sobreviveram estão em museus de armas. A Wallace Collection, em Londres, e o Metropolitan Museum of Art, em Nova York, guardam exemplares de lâmina estreita do fim da Idade Média, vários deles adagas de rondel (de guarda em forma de disco), o modelo mais comum entre os cavaleiros.
“Qual projeto seu espera um tiro de misericórdia que ninguém tem coragem de dar?”
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