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Síndrome de Estocolmo: os 6 dias no cofre de um banco sueco

Em agosto de 1973, quatro reféns saíram de um banco de Estocolmo defendendo os assaltantes, e um psiquiatra da polícia batizou a reação.

Porta de cofre de banco entreaberta numa sala de concreto, com luz amarela vindo de dentro.

O cofre do Kreditbanken, em Norrmalmstorg

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Por que a pessoa que defende quem a maltrata ganhou o rótulo de uma capital sueca? Porque foi em Estocolmo, em agosto de 1973, que quatro reféns saíram de um assalto do lado dos assaltantes, e um psiquiatra da polícia batizou a reação na frente dos jornalistas.

Na manhã de 23 de agosto de 1973, Jan-Erik Olsson entrou no Kreditbanken, agência bancária da praça Norrmalmstorg, no centro da cidade, com uma submetralhadora escondida sob o casaco. Disparou contra o teto e gritou em inglês, imitando sotaque americano, que a festa estava só começando.

Olsson tinha 32 anos e estava em liberdade condicional. Fez quatro funcionários de reféns: Birgitta Lundblad, Elisabeth Oldgren, Kristin Enmark e Sven Säfström. Exigiu dinheiro, um carro de fuga e a soltura de Clark Olofsson, assaltante conhecido que cumpria pena numa prisão sueca.

O governo cedeu na parte de Olofsson. Ele chegou ao banco escoltado pela polícia, e os dois criminosos se trancaram com os quatro reféns no cofre, uma sala de concreto no subsolo da agência.

A praça Norrmalmstorg fica a poucos quarteirões do Palácio Real e da sede do governo. Em poucas horas, a polícia isolou a área, e centenas de curiosos se juntaram atrás das barreiras pra assistir ao cerco.

Durante seis dias, a Suécia acompanhou o cerco pela televisão. Foi um dos primeiros sequestros transmitidos ao vivo no país, com câmeras apontadas pra fachada e repórteres ligando pro telefone do banco atrás de uma entrevista.

A surpresa do caso não veio dos assaltantes. Veio dos reféns, que passaram a temer a polícia, a desconfiar do governo e a falar dos captores com carinho, como quem fala de colegas de trabalho.

Mais abaixo, o que a expressão quer dizer na conversa de hoje, o que aconteceu dentro do cofre até a rendição e quem pôs o nome no laço, com que base e sob quais críticas.

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I  A frase de hoje

Quando a vítima defende quem a prende

Síndrome de Estocolmo, na fala de hoje, descreve a vítima que cria afeto, gratidão ou lealdade por quem a prende, ameaça ou maltrata. A expressão aponta um paradoxo: a pessoa protege justamente quem lhe faz mal.

Na síndrome de Estocolmo, o medo vira apego pra tornar o cativeiro suportável.

O uso mais sério aparece nos casos de violência doméstica. Quando a mulher agredida retira a queixa e volta pra casa do agressor, parentes e vizinhos costumam usar a expressão pra explicar a escolha.

Ela também surge nas notícias de sequestro, de seita e de abuso contra criança, sempre que a vítima protege quem a feriu ou se recusa a depor contra ele.

Como a frase aparece na conversa

A expressão circula em três arranjos principais, cada um com um peso diferente:

• Ter síndrome de Estocolmo: o diagnóstico de conversa, dito sobre alguém que defende o agressor

• Síndrome de Estocolmo corporativa: pro funcionário que elogia o chefe que o humilha e a empresa que o explora

• Síndrome de Estocolmo na brincadeira: pra quem ama o professor carrasco, o time que só perde ou a série ruim que não larga

Outras línguas copiaram o rótulo ao pé da letra: syndrome de Stockholm em francês, Stockholm-Syndrom em alemão, síndrome de Estocolmo em espanhol. Em todas, a cidade ocupa o lugar da praça onde o assalto aconteceu.

O uso leve é o mais frequente. O torcedor que sofre com o clube há vinte anos e jura que não troca de time costuma ouvir dos amigos que tem síndrome de Estocolmo.

Na psicologia, a expressão é tratada com cautela. Ela não consta no DSM-5 (o manual de diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, de 2013) nem na CID-11 (a classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde). Os especialistas preferem falar em vínculo traumático, o apego criado por ciclos de medo e alívio.

O mecanismo descrito tem quatro peças: a vítima sente que a vida depende do captor, recebe dele pequenas gentilezas, fica isolada de outras vozes e não vê saída. Nessas condições, agradar quem manda vira estratégia de sobrevivência.

O parente mais próximo no português é gostar de apanhar, expressão mais cruel e mais antiga, que joga a culpa na vítima. A síndrome de Estocolmo tenta o caminho contrário: descreve uma reação ao cativeiro, sem chamar a vítima de cúmplice.

 
 

II  De onde veio

Seis dias no cofre do Kreditbanken

Jan-Erik Olsson e Clark Olofsson passaram seis dias, de 23 a 28 de agosto de 1973, trancados no cofre do Kreditbanken com Birgitta Lundblad, Elisabeth Oldgren, Kristin Enmark e Sven Säfström. O cerco durou cerca de 131 horas.

Dentro da sala, a convivência ganhou rotina. Olofsson emprestou o casaco a Kristin Enmark quando ela tremeu de frio. Olsson deixou Elisabeth Oldgren, que sofria de claustrofobia, sair do cofre presa a uma corda pra andar pelo saguão.

Sven Säfström contou depois que Olsson prometeu atirar só na perna dele, caso a polícia precisasse de uma demonstração de força. Säfström disse que sentiu gratidão pela promessa.

Do lado de fora, a polícia cortou a comida em alguns momentos, perfurou o teto do cofre e posicionou atiradores. Pros reféns, quem ameaçava a vida deles era a polícia, e não os dois homens armados ao lado.

O telefonema ao primeiro-ministro

No segundo dia, Kristin Enmark, então com 23 anos, conseguiu falar por telefone com o primeiro-ministro Olof Palme. Pediu que ele deixasse os reféns saírem no carro com os assaltantes e explicou por quê:

“Confio totalmente no Clark e no assaltante. Tenho medo é de que a polícia ataque e cause a nossa morte.”

Kristin Enmark, telefonema a Olof Palme, 1973

Palme recusou. O governo sueco não deixaria criminosos saírem com reféns, e Enmark disse ao primeiro-ministro que estava decepcionada com ele.

Na noite de 28 de agosto, a polícia jogou gás lacrimogêneo pelos furos do teto. Os assaltantes se renderam em cerca de meia hora. Os reféns se recusaram a sair antes deles, com medo de que a polícia atirasse nos dois ao ver a porta aberta.

Ninguém saiu ferido. Na saída, segundo os relatos da época, reféns abraçaram os captores e se despediram deles, e nas entrevistas seguintes defenderam os dois.

Olsson foi condenado a dez anos de prisão. A condenação de Olofsson foi anulada em segunda instância: ele alegou que tinha ido ao banco pra acalmar o assaltante e proteger os reféns, e os próprios reféns confirmaram a versão.

O cerco voltou às telas décadas depois. O filme Stockholm, de 2018, dirigido por Robert Budreau e estrelado por Ethan Hawke, recontou a história com nomes trocados, e a Netflix lançou em 2022 a série Clark, sobre a vida de Olofsson.

 

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III  Carimbo de origem

Nils Bejerot e o nome dado à imprensa

Carimbo: Norrmalmstorgssyndromet (síndrome de Norrmalmstorg) é o termo que Nils Bejerot, psiquiatra e consultor da polícia, usou diante da imprensa sueca em 1973.

Rota: do sueco Norrmalmstorgssyndromet pro inglês Stockholm syndrome, na imprensa internacional; do inglês pro português como síndrome de Estocolmo.

Ressalva: a data exata da primeira impressão do termo e a primeira ocorrência escrita em português não foram localizadas.

Nils Bejerot assessorava a polícia de Estocolmo durante o cerco. Ao ver os reféns defendendo os captores, explicou a reação aos jornalistas pelo lugar do crime: a praça Norrmalmstorg.

Bejerot era conhecido na Suécia pelas pesquisas sobre dependência de drogas e pela defesa de uma política dura contra o consumo, linha que o país adotou nas décadas seguintes.

Fora da Suécia, a palavra era quase impronunciável. A imprensa estrangeira trocou a praça pela cidade, e o rótulo que pegou foi Stockholm syndrome.

O caso que espalhou o termo

A expressão ganhou o mundo em 1974, com o sequestro de Patty Hearst, neta do magnata da imprensa William Randolph Hearst, pelo Exército Simbionês de Libertação, grupo armado da Califórnia. Dois meses depois, ela apareceu nas câmeras de segurança de um banco de São Francisco, de arma na mão, ajudando os sequestradores num assalto.

No julgamento, em 1976, a defesa alegou coação e citou a reação dos reféns suecos. O júri não aceitou, e Hearst foi condenada. O presidente Jimmy Carter comutou a pena em 1979.

Na mesma década, o psiquiatra americano Frank Ochberg, que assessorava o FBI e a Scotland Yard, ajudou a transformar o caso sueco em material de treino pra negociadores de reféns. O nome sueco entrou nos cursos de polícia dos Estados Unidos e da Europa.

A refém que contestou o rótulo

A crítica mais dura veio da própria Kristin Enmark. Em 2015, ela publicou na Suécia o livro Jag blev Norrmalmstorgssyndromet (eu virei a síndrome de Norrmalmstorg), em que conta que Bejerot nunca conversou com ela antes de dar o diagnóstico.

Enmark sustenta que confiar nos assaltantes foi uma escolha racional: a polícia ameaçava invadir, e os captores eram quem estava ao lado dela na sala. Pra ela, o rótulo serviu pra desqualificar as críticas que os reféns fizeram ao trabalho da polícia.

O termo sobreviveu à contestação. Uma praça de Estocolmo emprestou o nome à cidade inteira, e a cidade emprestou o nome a todo afeto que nasce do medo.

“Que lealdade sua começou como medo?”

 
 

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Durante o cerco de 1973, qual refém telefonou direto ao primeiro-ministro Olof Palme pedindo pra sair do banco no carro com os assaltantes?

ABirgitta Lundblad
BElisabeth Oldgren
CKristin Enmark
DSven Säfström

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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