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Roberto DaMatta nasceu em Niterói em 1936, formou-se em antropologia e passou décadas estudando rituais brasileiros, do carnaval à parada militar. O capítulo sobre a fórmula está em Carnavais, Malandros e Heróis, de 1979, e é ali que ela deixa de ser anedota e vira objeto de análise.
O argumento se apoia numa distinção que o autor repete o livro inteiro: indivíduo e pessoa. Indivíduo, no vocabulário dele, é o sujeito anônimo e igual perante a lei, aquele que tira senha e espera. Pessoa é o sujeito definido pelas relações que tem, o nó de parentescos, amizades e cargos que o singulariza.
O país funciona com as duas categorias ativas. A lei escrita fala com indivíduos e trata todos do mesmo jeito; a vida cotidiana trabalha com pessoas e distribui tratamento conforme a rede de cada um.
"Você sabe com quem está falando?" Roberto DaMatta, título do capítulo em Carnavais, Malandros e Heróis, 1979 |
A fórmula é o que o autor chama de rito de separação: a cerimônia que arranca alguém da massa igual e o recoloca no mundo hierárquico, onde o tratamento varia conforme a posição. Ela aparece quando a regra universal alcança quem se considera acima dela.
Daí a observação mais dura do capítulo. A frase é um sintoma de sistema, não um defeito de caráter: um país plenamente igualitário na prática não precisaria dela, e um país declaradamente hierárquico também não, porque a hierarquia já estaria escrita no procedimento.
A fórmula só existe porque o Brasil escreveu leis iguais para todos e manteve uma vida social que distribui tratamento por relação. Ela é a ponte de emergência entre as duas. |
A conversa em que o capítulo entrou
1. Gilberto Freyre publica Casa-Grande & Senzala em 1933 e coloca a casa, a família e a relação pessoal no centro da explicação do Brasil
2. Sérgio Buarque de Holanda publica Raízes do Brasil em 1936 e descreve o homem cordial, aquele que trata a esfera pública com a intimidade da esfera privada
3. DaMatta chega em 1979 com Carnavais, Malandros e Heróis e troca o retrato histórico pela análise de rituais observáveis, entre eles a fórmula de balcão
4. o livro ganha tradução para o inglês em 1991, pela University of Notre Dame Press, com o capítulo mantido como peça central do argumento
5. a expressão sai do meio acadêmico e volta ao uso comum já carregada de análise, hoje dita com a ironia de quem conhece o diagnóstico
A força do capítulo está na escolha do material. Enquanto os ensaios anteriores buscavam explicação na colônia e no engenho, DaMatta foi olhar o que acontece numa fila de banco, numa blitz e num guichê de repartição, cenas que qualquer leitor já viveu.
O efeito na língua foi imediato. A pergunta continua sendo feita, mas quem a escuta hoje tem um nome para o que está acontecendo, e nomear o rito enfraquece o rito.
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