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Roleta-russa: o jogo que saiu de uma revista de 1937

Em janeiro de 1937, Georges Surdez publicou o conto Russian Roulette. Antes dele, nenhum registro do jogo entre oficiais russos.

Revólver com o tambor aberto ao lado de um exemplar da revista Collier's de 1937.

O revólver e a Collier's de janeiro de 1937

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De onde vem a roleta-russa, o jogo de girar o tambor do revólver e apertar o gatilho contra a própria cabeça? De um conto de revista americana publicado em janeiro de 1937, e não de um quartel do tsar.

O conto se chama Russian Roulette (roleta russa, em inglês) e saiu na Collier's, uma das revistas semanais mais lidas dos Estados Unidos na época, vendida em banca ao lado de jornais e almanaques. O autor era Georges Surdez, escritor nascido na Suíça que vivia de vender histórias de aventura às revistas americanas.

A especialidade de Surdez era a Legião Estrangeira francesa, a tropa de voluntários de vários países que a França mandava pro norte da África. Os contos dele tinham quartel, deserto, sargento veterano e muita conversa de cantina.

Em Russian Roulette, um desses sargentos conta ao narrador uma lembrança da Primeira Guerra. Diz que, servindo ao lado do exército russo na Romênia, por volta de 1917, viu oficiais sacarem o revólver no meio da noite, girarem o tambor e encostarem o cano na têmpora.

Ninguém tinha descrito a cena em papel antes de Surdez. O Oxford English Dictionary, que data cada palavra do inglês pela ocorrência impressa mais antiga, registra o conto da Collier's como o primeiro uso da expressão. Memórias de guerra e relatos de oficiais russos anteriores a 1937 não trazem o jogo.

O nome pegou rápido porque juntava duas imagens que o leitor americano já conhecia: a roleta dos cassinos de Monte Carlo, girando até parar numa casa ao acaso, e a fama de bravata dos oficiais do tsar, alimentada pelos romances russos do século 19.

Em português, a expressão chegou como tradução direta e ganhou hífen no dicionário: roleta-russa. Hoje nomeia qualquer aposta em que o risco é grave, a chance de dar errado é real e quem joga escolhe entrar mesmo assim.

Mais abaixo, o que a frase quer dizer na conversa de hoje, o que havia de real no mito do oficial russo e o carimbo que fixa a data de nascimento da expressão.

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I  A frase de hoje

Apostar o que não se pode perder

Roleta-russa, na fala de hoje, é qualquer decisão em que alguém aceita um risco grave por um ganho pequeno, contando com a sorte pra sair ileso. A palavra carrega a ideia de que o perigo está escondido entre opções que parecem iguais.

Na roleta-russa, a escolha ruim acontece antes de o tambor girar.

O uso mais comum aparece na saúde. Tomar remédio sem receita, dirigir depois de beber, adiar o exame que o médico pediu: quem quer assustar o teimoso fala em roleta-russa pra dizer que o problema pode não vir hoje, mas vem.

No dinheiro, a frase cobre a aposta concentrada. Quem põe a reserva inteira numa ação só, num bilhete de loteria ou na promessa de um amigo está brincando de roleta-russa com o próprio orçamento.

O tom é sempre de alerta. Ninguém usa a expressão pra elogiar coragem: quem diz que alguém joga roleta-russa avisa que a pessoa confundiu ousadia com descuido.

Como a frase aparece na conversa

A expressão aceita poucos arranjos, e cada um aponta pra um tipo de risco:

• Brincar de roleta-russa: o uso mais frequente, pra quem se expõe a perigo grave por hábito ou teimosia

• Virar uma roleta-russa: pra situação que saiu do controle e ficou imprevisível, como um cruzamento sem semáforo ou uma obra sem engenheiro

• Roleta-russa com a vida dos outros: pra quem cria o risco e deixa outra pessoa pagar, como o motorista que fura o sinal com criança no banco de trás

A forma com os outros é a mais pesada. Nela, a crítica deixa a imprudência de lado e mira a injustiça: quem gira o tambor não é quem leva o tiro.

Nos brinquedos e nas festas, a expressão ganhou versões leves. Jogos de mesa com um boneco que salta de um barril de plástico, ou o desafio de escolher às cegas uma pimenta no meio de balas, emprestam o nome sem o perigo.

O parente mais próximo no português é brincar com fogo, que fala de risco sem a parte do acaso. Na roleta-russa, o acaso manda: a pessoa sabe que a bala existe e só não sabe em que giro ela aparece.

 
 

II  De onde veio

O oficial russo que ninguém achou

Georges Surdez montou o conto Russian Roulette em cima de um relato de cantina. Na história, o sargento da Legião diz ao narrador que viu o jogo entre oficiais russos na frente romena da Primeira Guerra, quando a Romênia lutava ao lado da Rússia contra a Alemanha e a Áustria-Hungria.

Pela versão do sargento, o oficial tirava um cartucho do tambor, girava, fechava e apertava o gatilho. O jogo do conto é o inverso do que o cinema consagrou: em vez de uma bala entre câmaras vazias, uma câmara vazia entre balas.

A pergunta que abre a cena ficou famosa nos estudos sobre a expressão:

“Você já ouviu falar da roleta russa?”

Georges Surdez, Russian Roulette, Collier's, 1937

O que havia antes de 1937

A literatura russa tinha uma cena parecida, quase um século antes. Em O Herói do Nosso Tempo, romance de Mikhail Lermontov publicado em 1840, o capítulo O Fatalista mostra o tenente Vulich apostando com o protagonista, Pechorin, que o destino de cada homem já está escrito.

Vulich pega uma pistola na parede, sem saber se está carregada, encosta na testa e aperta o gatilho. A arma falha. Em seguida ele mira um quepe pendurado, dispara e a bala sai. Na mesma noite, Vulich cai na rua sob o sabre de um cossaco bêbado.

A cena de Lermontov é uma aposta sobre o destino, sem tambor e sem giro. A pistola de um tiro só não oferece a conta de probabilidade que dá graça à roleta: ali, ou a arma tem pólvora, ou não tem.

O revólver também desmente o detalhe. A arma padrão do exército russo em 1917 era o Nagant M1895, de sete câmaras. A chance de uma em seis, repetida em filmes e conversas, vem dos revólveres americanos de seis tiros, e não do equipamento do tsar.

O filme de Cimino repetiu o salto do conto. A cena dos prisioneiros obrigados a jogar pelos guardas vietnamitas foi criticada por jornalistas que cobriram a guerra, porque nenhum caso desse tipo tinha sido documentado. Mesmo assim, o roteiro fixou a versão moderna: uma bala, o tambor girando e a mesa de apostas em volta.

Do conto à tela

1. 1840: Lermontov publica O Herói do Nosso Tempo, com a aposta de Vulich

2. Janeiro de 1937: a Collier's publica Russian Roulette, de Georges Surdez

3. 1978: o filme O Franco Atirador (The Deer Hunter), de Michael Cimino, põe o jogo em prisioneiros americanos no Vietnã

4. 1979: o filme ganha o Oscar de melhor filme, e a cena do revólver vira a imagem mundial da expressão

 

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III  Carimbo de origem

Collier's, 30 de janeiro de 1937

Carimbo: a expressão nasce em inglês, como Russian roulette, no conto de Georges Surdez publicado na edição de 30 de janeiro de 1937 da revista Collier's.

Rota: do conto americano pros jornais de língua inglesa, que repetiram o termo nas décadas seguintes; daí pros dicionários; e do inglês pro português como tradução direta, roleta-russa, com hífen.

Ressalva: não há registro do jogo entre oficiais russos antes do conto, e a primeira ocorrência escrita de roleta-russa em português não foi localizada.

O Oxford English Dictionary trata o conto de Surdez como a abonação (o exemplo datado que comprova o uso) mais antiga da expressão. Nenhuma fonte russa anterior a 1937 descreve o jogo com esse nome ou com outro.

Surdez nunca explicou de onde tirou a cena. Não se sabe se ouviu a história de algum legionário ou se a inventou, porque nenhuma carta ou entrevista dele sobre o conto foi localizada. Ele seguiu escrevendo para revistas de aventura até 1949.

Por que o mito colou

A primeira metade da expressão vem do cassino. Roleta é o francês roulette (rodinha), nome do jogo de mesa que se popularizou na França do século 18 e chegou a Monte Carlo no século 19.

A segunda metade vem da fama do oficialato russo. Aleksandr Púchkin e o próprio Lermontov, os dois maiores poetas russos da primeira metade do século 19, caíram em duelos, em 1837 e 1841. O leitor americano de 1937 já esperava de um militar russo de romance uma bravata sem freio.

Surdez juntou as duas imagens, e o resultado soou tão verossímil que virou história aceita. Por décadas, livros e reportagens repetiram que oficiais do tsar jogavam roleta-russa, citando como fonte, sem saber, um conto de ficção.

O erro tem explicação simples. O conto saiu numa revista de grande circulação, com narrador em primeira pessoa e cenário de guerra real, e ganhou cara de reportagem. Quem o leu em 1937 não tinha como conferir o que acontecia nos quartéis da Romênia vinte anos antes.

O português herdou a frase pronta e a desligou da Rússia. Quem diz que fulano está jogando roleta-russa com a saúde não pensa em oficial nem em Romênia: pensa no giro do tambor e na aposta que não deveria ter feito.

“Qual roleta-russa você já jogou achando que era só um atalho?”

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, qual era o revólver padrão do exército russo em 1917, época do relato que inspirou o conto?

AColt de seis tiros
BNagant M1895, de sete câmaras
CSmith & Wesson de seis tiros
DMauser C96

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