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Georges Surdez montou o conto Russian Roulette em cima de um relato de cantina. Na história, o sargento da Legião diz ao narrador que viu o jogo entre oficiais russos na frente romena da Primeira Guerra, quando a Romênia lutava ao lado da Rússia contra a Alemanha e a Áustria-Hungria.
Pela versão do sargento, o oficial tirava um cartucho do tambor, girava, fechava e apertava o gatilho. O jogo do conto é o inverso do que o cinema consagrou: em vez de uma bala entre câmaras vazias, uma câmara vazia entre balas.
A pergunta que abre a cena ficou famosa nos estudos sobre a expressão:
“Você já ouviu falar da roleta russa?” Georges Surdez, Russian Roulette, Collier's, 1937 |
O que havia antes de 1937
A literatura russa tinha uma cena parecida, quase um século antes. Em O Herói do Nosso Tempo, romance de Mikhail Lermontov publicado em 1840, o capítulo O Fatalista mostra o tenente Vulich apostando com o protagonista, Pechorin, que o destino de cada homem já está escrito.
Vulich pega uma pistola na parede, sem saber se está carregada, encosta na testa e aperta o gatilho. A arma falha. Em seguida ele mira um quepe pendurado, dispara e a bala sai. Na mesma noite, Vulich cai na rua sob o sabre de um cossaco bêbado.
A cena de Lermontov é uma aposta sobre o destino, sem tambor e sem giro. A pistola de um tiro só não oferece a conta de probabilidade que dá graça à roleta: ali, ou a arma tem pólvora, ou não tem.
O revólver também desmente o detalhe. A arma padrão do exército russo em 1917 era o Nagant M1895, de sete câmaras. A chance de uma em seis, repetida em filmes e conversas, vem dos revólveres americanos de seis tiros, e não do equipamento do tsar.
O filme de Cimino repetiu o salto do conto. A cena dos prisioneiros obrigados a jogar pelos guardas vietnamitas foi criticada por jornalistas que cobriram a guerra, porque nenhum caso desse tipo tinha sido documentado. Mesmo assim, o roteiro fixou a versão moderna: uma bala, o tambor girando e a mesa de apostas em volta.
Do conto à tela
1. 1840: Lermontov publica O Herói do Nosso Tempo, com a aposta de Vulich
2. Janeiro de 1937: a Collier's publica Russian Roulette, de Georges Surdez
3. 1978: o filme O Franco Atirador (The Deer Hunter), de Michael Cimino, põe o jogo em prisioneiros americanos no Vietnã
4. 1979: o filme ganha o Oscar de melhor filme, e a cena do revólver vira a imagem mundial da expressão
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