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Quinta-coluna: a tropa que já estava dentro de Madri

Em 1936, um general anunciou 4 colunas contra Madri e uma quinta escondida nas casas. A frase virou nome de traidor no mundo todo.

Rua de Madri em 1936 com barricadas de sacos de areia e janelas fechadas nos prédios, soldados ao fundo.

Madri sitiada no outono de 1936

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De onde vem chamar de quinta-coluna quem trai o próprio grupo por dentro? Vem de uma conta militar feita em voz alta, no outono de 1936, sobre a cidade de Madri. Quatro colunas de soldados marchavam pela estrada, e a quinta, segundo quem fez a conta, já estava lá dentro.

A Espanha vivia o terceiro mês da Guerra Civil Espanhola. Em julho, parte do exército tinha se levantado contra o governo da Segunda República, e o país rachou em dois. De um lado, os republicanos, que controlavam a capital. Do outro, os nacionalistas, os militares rebeldes que avançavam do sul e do norte.

Em outubro, as tropas rebeldes chegaram perto o bastante pra ver os telhados de Madri. Um dos chefes do levante, o general Emilio Mola Vidal, comandava o Exército do Norte e tinha gosto por declarações diante de jornalistas estrangeiros.

Foi numa dessas conversas que ele descreveu o cerco como uma soma. Quatro colunas vinham pela estrada rumo à capital. A quinta, disse o general, esperava a hora de agir escondida nas casas, nos escritórios e nas igrejas da própria cidade: simpatizantes que sairiam às ruas quando o ataque começasse.

A frase caiu em Madri feito uma bomba sem explosão. De repente, qualquer vizinho podia ser soldado inimigo. O zelador, o padeiro, o funcionário do ministério. O governo republicano e as milícias passaram a caçar a coluna invisível de porta em porta.

A cidade resistiu ao ataque de novembro, e a conta do general falhou no campo de batalha. Madri só caiu em março de 1939, quase no fim da guerra. A palavra, porém, venceu a batalha que o exército perdeu: saiu da Espanha, cruzou o oceano e chegou ao português.

Logo abaixo, o que a expressão quer dizer na conversa brasileira, a história do general que fez a conta e o caminho que levou a palavra de Madri até um teatro da Broadway e às ruas do Brasil em guerra.

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I  A frase de hoje

O inimigo que mora na casa

Quinta-coluna, no português do Brasil, é quem trabalha pro adversário enquanto finge fazer parte do próprio grupo. O dicionário registra o termo como substantivo de dois gêneros: o quinta-coluna, a quinta-coluna, e no plural os quintas-colunas.

Quinta-coluna nomeia o perigo que já passou pela porta, aquele que ninguém precisou arrombar.

Na fala de hoje, a palavra aparece em três cenários. Na política, serve pro deputado que vota contra o próprio partido. No futebol, pro jogador acusado de facilitar a vida do rival. No escritório, pro colega que leva a conversa da reunião direto pra concorrência.

A carga é pesada. Chamar alguém de quinta-coluna vai além de chamar de adversário: é acusar de traição e de disfarce. O adversário declarado luta de frente, e o quinta-coluna sorri na mesa e trabalha por baixo dela.

A palavra, então, costuma vir acompanhada de desconfiança sem prova. Quem grita quinta-coluna raramente mostra o documento. A acusação basta pra isolar o acusado, e boa parte da força do termo mora nessa facilidade.

Parentes da palavra

O português tem outros nomes pro traidor, cada um com a sua origem:

• Judas: o apóstolo que entregou Jesus por trinta moedas de prata, segundo os Evangelhos, virou sinônimo de amigo desleal

• Cavalo de Troia: o cavalo de madeira da Ilíada e da Eneida, oferecido como presente aos troianos com soldados gregos escondidos na barriga

• Calabar: Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho de Pernambuco que passou pro lado holandês em 1632 e foi executado pelos portugueses em 1635

Os três contam a traição como ato de uma pessoa ou de um truque só. Quinta-coluna acrescenta a ideia de rede: um grupo inteiro, organizado, que se mistura à população e espera o sinal.

É essa ideia de rede que explica a vida longa da expressão. Um traidor se descobre e se afasta. Uma coluna escondida obriga a desconfiar de todo mundo, e a desconfiança dura mais que qualquer guerra.

 
 

II  De onde veio

O general que contou até cinco

Emilio Mola Vidal nasceu em 1887, em Placetas, Cuba, quando a ilha ainda era colônia espanhola. Fez carreira no exército da Espanha, lutou na guerra do Marrocos e chegou a diretor-geral de Segurança, o chefe da polícia do país, em 1930.

Em 1936, estava em Pamplona, no norte, e virou o principal articulador do golpe contra a República. Os outros chefes o chamavam de El Director (o diretor, em espanhol), porque era ele quem assinava as instruções secretas do levante.

O golpe de 17 e 18 de julho não tomou o país inteiro, como os rebeldes esperavam. Madri, Barcelona e Valência ficaram com o governo. Começou uma guerra longa, e Mola passou a comandar as tropas do norte, enquanto o general Francisco Franco subia do sul com o exército da África.

No começo de outubro, as colunas rebeldes convergiam pra capital. A declaração sobre a quinta coluna saiu nesse momento, e a data exata ainda é debatida pelos historiadores. A versão mais repetida diz que Mola falou a jornalistas estrangeiros; outras apontam um discurso no rádio.

A imprensa republicana tratou a frase como ameaça. A Pasionaria, apelido da deputada comunista Dolores Ibárruri, usou o termo em discursos pra convocar Madri a vigiar os próprios vizinhos. O inimigo interno ganhou um número e um nome.

Como a palavra se espalhou

1. Outubro de 1936: o general Mola fala em quatro colunas marchando sobre Madri e uma quinta dentro da cidade

2. Fim de 1936: a imprensa republicana e os discursos no rádio repetem o termo pra pedir vigilância

3. 1937: correspondentes estrangeiros hospedados em Madri mandam a expressão pros jornais de Londres e Nova York

4. 1938: Ernest Hemingway publica a peça The Fifth Column (A Quinta Coluna)

5. 1940: a Segunda Guerra leva o termo pra Inglaterra, pros Estados Unidos e pro Brasil

Mola nunca viu Madri cair. Em 3 de junho de 1937, o avião que o levava bateu num morro perto de Alcocero, na província de Burgos. O general tinha 49 anos. A cidade que ele queria tomar resistiu mais quase dois anos.

A quinta coluna do general nunca tomou a cidade, mas ocupou o dicionário de meio mundo.

A caça ao inimigo interno deixou marca trágica. Em novembro de 1936, com o cerco apertando, milhares de presos acusados de simpatia pelos rebeldes foram tirados das cadeias de Madri e fuzilados em Paracuellos de Jarama, nos arredores da capital, um dos episódios mais estudados da guerra.

 

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III  Carimbo de origem

Do Hotel Florida à Broadway

Carimbo: o termo nasce em espanhol, quinta columna, em outubro de 1936, na boca do general Emilio Mola, durante o cerco de Madri na Guerra Civil Espanhola.

Rota: de Madri pros jornais estrangeiros, dos jornais pra peça de Hemingway, da peça pra Segunda Guerra e da guerra pro português do Brasil, onde virou palavra de dicionário.

Ressalva: as palavras exatas de Mola não sobreviveram em gravação nem em texto assinado por ele. O que se tem são relatos de jornalistas e de discursos republicanos, e a data e o formato da declaração seguem em disputa.

Ernest Hemingway chegou a Madri em 1937 como correspondente da agência North American Newspaper Alliance. Hospedou-se no Hotel Florida, na Praça do Callao, um prédio que levava tiro de artilharia quase todo dia.

Ali, entre um bombardeio e outro, escreveu a única peça de teatro completa da carreira. The Fifth Column conta a história de Philip Rawlings, um americano que se passa por jornalista boêmio em Madri enquanto trabalha pra contraespionagem republicana, caçando justamente os quintas-colunas.

A peça saiu em livro em 1938, no volume The Fifth Column and the First Forty-Nine Stories (A Quinta Coluna e os Primeiros 49 Contos), editado pela Scribner em Nova York. No prefácio, o autor conta que o hotel foi atingido mais de trinta vezes enquanto ele escrevia.

"Enquanto eu a escrevia, o Hotel Florida, onde vivíamos e trabalhávamos, foi atingido por mais de trinta projéteis de artilharia altamente explosivos."

Ernest Hemingway, prefácio de The Fifth Column and the First Forty-Nine Stories, 1938

A palavra chega ao Brasil

Em 1940, a peça estreou na Broadway, adaptada por Benjamin Glazer e montada pela companhia Theatre Guild. No mesmo ano, a Alemanha invadiu a Noruega com ajuda de colaboradores locais, e o termo explodiu nos jornais do mundo.

No Brasil, a palavra ganhou força em 1942, quando o país declarou guerra à Alemanha e à Itália, depois que submarinos alemães afundaram navios mercantes brasileiros no litoral. Imigrantes alemães, italianos e japoneses passaram a ser vigiados como possíveis quintas-colunas, e lojas de comerciantes estrangeiros foram depredadas em várias capitais.

Nos Estados Unidos, o presidente Franklin Roosevelt usou a expressão num discurso de rádio em maio de 1940, pedindo vigilância contra sabotadores. Na Inglaterra, o governo de Winston Churchill prendeu milhares de estrangeiros com base no mesmo medo. A palavra criada pra uma cidade sitiada passou a servir a países inteiros.

O primeiro registro impresso da palavra em português não foi identificado com segurança. A hipótese mais aceita é que ela entrou pelas agências de notícias entre 1936 e 1940, traduzida direto do espanhol.

"Quem você já chamou de quinta-coluna, e tinha prova do que dizia?"

 
 
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