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Perder o bonde: a frase que sobreviveu aos trilhos

O último bonde paulistano parou em 1968, mas o país inteiro ainda diz que perdeu o bonde quando chega tarde.

Bonde elétrico aberto parado no ponto, com passageiros pendurados no estribo lateral.

O bonde que não esperava ninguém

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Por que a gente diz que perdeu o bonde se quase nenhuma cidade brasileira tem bonde? Porque durante noventa anos ele foi o transporte que ditava o relógio do país, e a fala guardou o susto de ver o último carro sumir na curva.

A cena se repete sem trilho nenhum. Alguém descobre que o apartamento barato já foi alugado, que a vaga de emprego fechou na sexta, que a amiga de infância casou com outro. A frase sai pronta, com suspiro: perdi o bonde.

Na capital paulista, o último bonde de linha regular parou em março de 1968. A prefeitura de José Vicente de Faria Lima já apostava nos ônibus, nas avenidas largas e no metrô, cujas obras começaram em dezembro daquele ano.

No Rio de Janeiro, a desmontagem veio antes. As linhas do centro e da zona sul foram fechadas na década de 1960, e a cidade ficou só com o bondinho de Santa Teresa, que sai do Largo da Carioca e cruza os Arcos da Lapa por cima do antigo aqueduto colonial.

Quem nasceu depois disso nunca correu atrás de um bonde. Mesmo assim, aprende a expressão em casa, na escola e no escritório, e usa com a mesma pressa dos avós que pulavam no estribo (o degrau lateral onde se viajava pendurado) com o carro já andando.

A frase sobreviveu porque o bonde ensinava uma regra dura. Ele tinha horário, parava pouco e não esperava ninguém. Quem chegava ao ponto um minuto atrasado via a traseira do carro se afastar e ficava plantado na calçada até o próximo.

Esse castigo pequeno, repetido todo dia por milhões de passageiros, virou imagem. O veículo foi para o ferro-velho e para os museus; a sensação de chegar tarde continuou morando na boca de quem nunca pisou num estribo.

A primeira faixa mostra como a frase funciona hoje, do namoro ao mercado de trabalho, e as primas que o mesmo trilho deixou na língua.

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I  A frase de hoje

O carro que não volta

Perder o bonde, no português do Brasil, quer dizer deixar passar uma oportunidade por demora, distração ou excesso de cautela. A chance existia, estava parada na frente da pessoa, e partiu sem ela.

A expressão culpa o atraso, nunca o azar: quem perde o bonde teve a chance e demorou a subir.

O uso mais comum é o afetivo. Diz-se que perdeu o bonde quem hesitou demais para declarar interesse e viu a pessoa amada começar namoro com outro. A frase chega com tom de consolo e de bronca ao mesmo tempo.

No trabalho, ela fala de carreira e de mercado. A loja que ignorou as vendas pela internet perdeu o bonde; o profissional que se recusou a aprender a ferramenta nova também. Aqui o sentido pesa mais, porque o atraso tem custo e raramente tem volta fácil.

Existe ainda a versão coletiva, o bonde da história. Um país ou uma geração perde o bonde da história quando deixa passar uma virada econômica ou política que os vizinhos aproveitaram. A imagem se repete, só que o passageiro atrasado é um povo inteiro.

Os parentes da frase

O trilho deixou outras três expressões vivas no português falado:

• Pegar o bonde andando: chegar a uma conversa ou a um projeto já começado e tentar acompanhar sem ter visto o começo

• Pegar o bonde errado: escolher o caminho, o sócio ou a causa equivocada e só perceber o engano longe do ponto de partida

• Bonde, na gíria: grupo de amigos que anda sempre junto, uso que o funk carioca espalhou pelo país na década de 2000

A diferença entre perder o bonde e pegar o bonde andando está no relógio. No primeiro caso, a pessoa chegou tarde demais e ficou na calçada. No segundo, chegou tarde, mas ainda deu um salto e subiu, com o preço de não saber o que já tinha acontecido dentro do carro.

O salto tinha base real. Os bondes abertos, com bancos atravessados e sem portas, deixavam o passageiro subir e descer com o veículo em marcha lenta. Rapazes faziam disso esporte, e o condutor (o cobrador da passagem) equilibrava-se no estribo para recolher o dinheiro de quem ia pendurado pelo lado de fora.

A frase também tem limite de uso. Ninguém perde o bonde de algo que ainda pode acontecer na semana seguinte. Ela serve para o fato consumado: o prazo acabou, a vaga foi preenchida, o carro dobrou a esquina e o ponto ficou vazio.

 
 

II  De onde veio

Um título de dívida sobre trilhos

A palavra bonde nasceu de um papel financeiro. Em 1868, a Botanical Garden Rail Road Company, empresa do norte-americano Charles Greenough, inaugurou no Rio de Janeiro uma linha de carris (vagões sobre trilhos) puxados por burros, entre a Rua Gonçalves Dias e o Largo do Machado.

Na mesma época, o governo imperial vendia títulos da dívida pública que a população chamava de bonds, palavra inglesa para esse tipo de papel. A companhia vendia passagens em talões de bilhetes, e os bilhetes lembravam os títulos na aparência e no nome estrangeiro.

Os cariocas juntaram as duas ideias e passaram a chamar de bond o próprio veículo. A grafia foi se aportuguesando nos jornais até virar bonde, forma que se firmou na imprensa na virada para o século 20 e que só existe no português do Brasil. Em Portugal, o mesmo veículo se chama elétrico.

Os primeiros carros eram lentos e dependiam dos animais. Cada bonde levava uma parelha de burros, trocada em estações de muda espalhadas pelas linhas, e as ladeiras mais fortes exigiam reforço de tração ou passageiros descendo para aliviar o peso.

A virada veio com a eletricidade. Em 1892, a Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico pôs para rodar no Rio o primeiro bonde elétrico da América do Sul. Em maio de 1900, a São Paulo Tramway, Light and Power Company (a Light, empresa canadense de energia) abriu a primeira linha elétrica paulistana, entre o Largo de São Bento e a Barra Funda.

Daí em diante, o bonde desenhou as cidades. Bairros inteiros nasceram na ponta das linhas, e o horário dos carros marcava a hora de sair de casa, de chegar à fábrica e de voltar para o jantar.

A literatura registrou o bonde como paisagem de todo dia. Carlos Drummond de Andrade pôs o veículo num de seus poemas mais conhecidos:

"O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas."

Carlos Drummond de Andrade, Poema de sete faces, Alguma poesia, 1930

O verso mostra o carro lotado visto por quem ficou na calçada, olhando as pernas dos passageiros pela lateral aberta. Quem acaba de perder o bonde ocupa essa posição: parado, vendo a vida seguir em outro ritmo.

O bonde deu à língua a imagem exata da chance que passa: um veículo com horário, cheio, que não volta para buscar ninguém.

Do título de dívida ao ponto final

1. Em 1868, os carris de burro chegam ao Rio, e o povo empresta a palavra bond dos títulos da dívida

2. Em 1892, o Rio recebe o bonde elétrico, e a rede cresce na direção dos subúrbios

3. Em 1900, a Light eletrifica os trilhos paulistanos e amplia as linhas nas décadas seguintes

4. Nos anos 1950 e 1960, ônibus e automóveis tomam as ruas, e as prefeituras começam a desmontar as linhas

A expressão figurada ganha força nesse auge, quando o bonde era a forma mais comum de atravessar a cidade. O sentido nasceu colado ao literal: perder o carro das sete era chegar atrasado ao trabalho e ouvir a bronca do chefe.

 

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III  Carimbo de origem

Os trilhos que ficaram na fala

Carimbo: o último bonde paulistano de linha regular circulou em 27 de março de 1968, no trajeto entre a Vila Mariana e Santo Amaro, operado pela CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos). A companhia recolheu os carros, e boa parte dos trilhos foi arrancada ou coberta por asfalto.

Rota: no Rio, os bondes comuns saíram de cena na década de 1960, quando o governo do estado da Guanabara encerrou as últimas linhas. Ficou só a de Santa Teresa, defendida pelos moradores como transporte do bairro e marca da paisagem carioca.

Ressalva: o primeiro registro impresso de perder o bonde no sentido figurado segue sem data firme. Os dicionários de expressões populares tratam a locução como fala oral do século 20, sem apontar o jornal ou o livro mais antigo, porque a imprensa da época só transcrevia a gíria das ruas de vez em quando.

Santa Teresa também teve sua parada forçada. Em agosto de 2011, um bonde descarrilou numa curva da Rua Joaquim Murtinho e deixou seis vítimas fatais e dezenas de feridos. A linha foi fechada, passou por reforma completa e voltou a rodar em trechos em 2015, com carros novos que imitam o desenho dos antigos.

Hoje o bondinho amarelo leva moradores e turistas pelas ladeiras do bairro. Virou atração, fotografada em cima dos Arcos da Lapa, e deixou de ser o jeito comum de ir ao trabalho.

O trilho e a frase

O bonde de verdade era concreto e pontual: um carro com a placa da linha na frente, que passava no ponto em hora certa. Quem perdia sabia exatamente o que tinha perdido e quanto teria de esperar pelo próximo.

O bonde da frase é abstrato e às vezes passa uma vez só. Ninguém conhece o horário dele, ninguém lê a placa, e a pessoa só percebe que ele existia quando o carro já dobrou a esquina.

Perder o bonde sobreviveu ao próprio bonde porque a sensação de chegar tarde nunca saiu de circulação.

A língua guarda muitos casos assim. Ainda se fala em virar a página na tela do celular, sem papel algum, e em ficar a ver navios numa cidade sem porto. O objeto sai de cena, e a imagem continua trabalhando.

Amanhã: abraço de tamanduá, o gesto de carinho que no Brasil virou aviso de traição.

"Qual bonde você viu passar sem subir, e o que faria diferente se ele parasse de novo no seu ponto?"

 
 
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BDa palavra inglesa bond, usada pros títulos da dívida pública que os bilhetes lembravam
CDa abreviação criada pela Light quando eletrificou os trilhos paulistanos em 1900
DDo francês bonde, trazido pelos engenheiros que projetaram os primeiros carris

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