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A palavra bonde nasceu de um papel financeiro. Em 1868, a Botanical Garden Rail Road Company, empresa do norte-americano Charles Greenough, inaugurou no Rio de Janeiro uma linha de carris (vagões sobre trilhos) puxados por burros, entre a Rua Gonçalves Dias e o Largo do Machado.
Na mesma época, o governo imperial vendia títulos da dívida pública que a população chamava de bonds, palavra inglesa para esse tipo de papel. A companhia vendia passagens em talões de bilhetes, e os bilhetes lembravam os títulos na aparência e no nome estrangeiro.
Os cariocas juntaram as duas ideias e passaram a chamar de bond o próprio veículo. A grafia foi se aportuguesando nos jornais até virar bonde, forma que se firmou na imprensa na virada para o século 20 e que só existe no português do Brasil. Em Portugal, o mesmo veículo se chama elétrico.
Os primeiros carros eram lentos e dependiam dos animais. Cada bonde levava uma parelha de burros, trocada em estações de muda espalhadas pelas linhas, e as ladeiras mais fortes exigiam reforço de tração ou passageiros descendo para aliviar o peso.
A virada veio com a eletricidade. Em 1892, a Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico pôs para rodar no Rio o primeiro bonde elétrico da América do Sul. Em maio de 1900, a São Paulo Tramway, Light and Power Company (a Light, empresa canadense de energia) abriu a primeira linha elétrica paulistana, entre o Largo de São Bento e a Barra Funda.
Daí em diante, o bonde desenhou as cidades. Bairros inteiros nasceram na ponta das linhas, e o horário dos carros marcava a hora de sair de casa, de chegar à fábrica e de voltar para o jantar.
A literatura registrou o bonde como paisagem de todo dia. Carlos Drummond de Andrade pôs o veículo num de seus poemas mais conhecidos:
"O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas." Carlos Drummond de Andrade, Poema de sete faces, Alguma poesia, 1930 |
O verso mostra o carro lotado visto por quem ficou na calçada, olhando as pernas dos passageiros pela lateral aberta. Quem acaba de perder o bonde ocupa essa posição: parado, vendo a vida seguir em outro ritmo.
O bonde deu à língua a imagem exata da chance que passa: um veículo com horário, cheio, que não volta para buscar ninguém. |
Do título de dívida ao ponto final
1. Em 1868, os carris de burro chegam ao Rio, e o povo empresta a palavra bond dos títulos da dívida
2. Em 1892, o Rio recebe o bonde elétrico, e a rede cresce na direção dos subúrbios
3. Em 1900, a Light eletrifica os trilhos paulistanos e amplia as linhas nas décadas seguintes
4. Nos anos 1950 e 1960, ônibus e automóveis tomam as ruas, e as prefeituras começam a desmontar as linhas
A expressão figurada ganha força nesse auge, quando o bonde era a forma mais comum de atravessar a cidade. O sentido nasceu colado ao literal: perder o carro das sete era chegar atrasado ao trabalho e ouvir a bronca do chefe.
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