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Pede pra sair: a fala que chegou antes do filme

Tropa de Elite vazou em DVD pirata antes da estreia de outubro de 2007, e o grito do capitão Nascimento já corria o país.

Capitão de farda preta gritando diante de recrutas exaustos num pátio de treinamento.

O grito do treino virou frase de escritório

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Por que tanta gente manda o colega reclamão pedir pra sair? Porque em 2007 um capitão de farda preta gritou a frase para recrutas exaustos, e o Brasil decorou o grito antes mesmo de o filme entrar em cartaz.

O capitão é Roberto Nascimento, vivido por Wagner Moura em Tropa de Elite, longa de José Padilha sobre o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais, a tropa de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro). No treinamento, os candidatos apanham de sol, de fome e de sono, e o instrutor oferece a saída em voz alta.

O filme estreou no circuito comercial em 12 de outubro de 2007. Só que, semanas antes, uma cópia sem acabamento final escapou da produção e caiu nas bancas de camelô do Rio, de São Paulo e de dezenas de outras cidades, gravada em DVD e vendida a poucos reais.

A pirataria correu mais rápido que qualquer distribuidora. O disco passava de mão em mão, era copiado de novo no computador de casa e chegava a escritórios, quartéis e salas de aula. Quando os cartazes apareceram nos cinemas, as falas já eram piada interna no país inteiro.

Houve sessões de estreia em que a plateia repetia as falas junto com o capitão, como quem canta em show de banda conhecida. Parte do público pagava ingresso para rever na tela grande o que já tinha assistido na sala de casa, em imagem tremida e som abafado.

O caso virou lição de mercado às avessas. A cópia ilegal fez propaganda de graça, e o filme ainda assim encheu salas. A frase escolhida pelo povo foi a mais curta do roteiro, a que cabia em qualquer discussão de trabalho, de academia ou de família.

Logo abaixo, o que a frase quer dizer quando sai da farda, quem a usa e por que ela ofende menos do que parece.

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I  A frase de hoje

O convite que ninguém aceita

Pede pra sair, no português falado no Brasil, é o convite irônico para a pessoa desistir daquilo de que está reclamando. A frase vem do capitão Roberto Nascimento, de Tropa de Elite, filme de José Padilha lançado em 2007. Quem ouve acabou de mostrar cansaço, medo ou manha, e o outro responde oferecendo a porta.

A frase oferece a saída para lembrar que ninguém está preso: quem fica escolheu ficar e perdeu o direito de gemer.

O uso mais comum é a brincadeira entre colegas. O estagiário suspira diante da planilha, o amigo reclama da subida da trilha, o irmão resmunga da louça, e alguém solta o grito com voz grossa, imitando o capitão. A roda ri, e a reclamação acaba ali.

Na academia e no esporte, a frase ganhou tom de incentivo. Professores de treino funcional e de corrida usam o bordão nos últimos minutos da aula, quando o aluno pensa em largar. A ameaça funciona ao contrário: ninguém quer ser o primeiro a aceitar a oferta.

Existe ainda o uso sério, e ele pesa. Dito por chefe a funcionário, fora do tom de piada, o bordão vira recado de que a empresa não vai mudar e que a porta está aberta. Nesse registro, a graça some e sobra a pressão.

As primas que o filme deixou

O mesmo universo espalhou outros bordões pelo país:

• Missão dada é missão cumprida: tarefa recebida tem de ser entregue sem desculpa, dito hoje por gerente de projeto e por mãe de adolescente

• Caveira: apelido do policial formado no curso do BOPE, por causa do símbolo do batalhão, uma faca cravada num crânio, que virou elogio para quem aguenta pressão

• Osso duro de roer: verso da música Tropa de Elite, da banda Tihuana, lançada em 2000 e usada na trilha do filme, que passou a descrever qualquer adversário teimoso

A diferença entre pede pra sair e as primas está no alvo. As outras falam de dever e de resistência; o grito do capitão mira o momento exato da fraqueza, o segundo em que a pessoa pensa em desistir e deixa a queixa escapar.

A frase também tem limite. Ninguém a usa com quem está doente, de luto ou em crise verdadeira: ali, oferecer a porta soa como crueldade. Ela serve para a reclamação pequena, dita por quem sabe que vai continuar.

 
 

II  De onde veio

Um curso onde desistir era rito

A frase nasceu num quartel real, anos antes do cinema. O Curso de Operações Especiais do BOPE, conhecido como COEsp, forma os policiais da tropa com semanas de privação de sono, fome, frio e humilhação calculada, e os instrutores repetem aos candidatos que qualquer um pode desistir a hora que quiser.

Desistir, no curso, é um ato em voz alta. O candidato declara que sai e deixa o treino, sem nova chance naquela turma. O grito do instrutor funciona como tentação permanente: a porta fica aberta o tempo todo, e quem continua prova que escolheu continuar.

O roteiro partiu de um livro. Em 2006, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública, publicou Elite da Tropa com dois policiais que tinham passado pelo batalhão, André Batista e Rodrigo Pimentel. O texto misturava relato e ficção sobre a rotina do BOPE.

José Padilha, que já tinha dirigido o documentário Ônibus 174 em 2002, escreveu o roteiro com Bráulio Mantovani, roteirista de Cidade de Deus, e com o próprio Rodrigo Pimentel, ex-capitão do batalhão. Os atores passaram por um treino inspirado no curso, conduzido por ex-integrantes da tropa.

Em agosto de 2007, com o filme ainda em finalização, uma cópia de trabalho saiu da produção. A Polícia Civil do Rio investigou o caso e chegou a funcionários de uma empresa contratada para legendar o filme. Quando os produtores souberam, a cópia já estava nas bancas de camelô.

A produtora adiantou a estreia e manteve o lançamento, apostando que a sala de cinema oferecia algo que o disco pirata não tinha: som, tela grande e a montagem final, com cenas diferentes da versão vazada.

Entre as falas que o público decorou, uma resume a ética que o capitão cobra dos recrutas:

"Missão dada é missão cumprida."

Capitão Nascimento (Wagner Moura), Tropa de Elite, direção de José Padilha, 2007

A fala explica por que pedir pra sair soa como vergonha dentro da tropa. Quem sai deixa a missão pela metade, e o curso inteiro é montado para que o candidato sinta o peso dessa escolha.

O cinema herdou o grito do quartel; o DVD pirata levou o grito do cinema para a rua antes da hora.

Do quartel ao camelô

1. Em 2006, o livro Elite da Tropa conta a rotina do BOPE e do curso de formação

2. Em agosto de 2007, a cópia de trabalho do filme vaza e ganha as bancas de DVD pirata

3. Em 12 de outubro de 2007, Tropa de Elite estreia nos cinemas com as falas já conhecidas

4. Em fevereiro de 2008, o filme recebe o Urso de Ouro, prêmio principal do Festival de Berlim

A premiação em Berlim fechou o ciclo com ironia. Um filme que boa parte do país já tinha visto em disco ilegal ganhou o prêmio máximo de um dos festivais mais antigos da Europa, e o bordão ganhou fôlego novo nas manchetes.

 

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III  Carimbo de origem

O grito que saiu da farda

Carimbo: Tropa de Elite estreou nos cinemas brasileiros em 12 de outubro de 2007, depois de exibido no Festival do Rio em setembro daquele ano. A frase entrou no vocabulário nacional no intervalo de semanas entre o vazamento e a estreia.

Rota: do quartel para o livro de 2006, do livro para o roteiro, do roteiro para a cópia vazada e da cópia para as ruas. Em 2010, Tropa de Elite 2 levou o capitão Nascimento de volta às telas, agora contra as milícias, e manteve o bordão vivo para uma nova geração de espectadores.

Ressalva: ninguém sabe quando o grito começou a ser usado nos cursos militares brasileiros. A expressão circula em treinos de forças especiais há décadas, mas não existe registro escrito que aponte o primeiro instrutor ou a primeira turma, porque o jargão de quartel passa de boca em boca e raramente vai para o papel.

O vazamento deixou outra conta sem fechamento público: quantas cópias piratas circularam. Nenhum levantamento com autor e método conhecidos chegou a um total confiável, e por essa razão qualquer número que aparece em conversa sobre o caso é chute.

O quartel e a sala de reunião

No quartel, pedir pra sair tem consequência concreta. O candidato deixa o curso, perde a vaga e volta para a unidade de origem. A oferta é real e existe para separar quem aguenta de quem não aguenta.

Na sala de reunião, a oferta vira teatro. Ninguém espera que o colega saia de fato; o grito serve para rir do cansaço e seguir trabalhando. O sentido suavizou quando a frase trocou a farda pela conversa.

Pede pra sair ficou porque transforma a vontade de desistir em piada, e a piada ajuda a ficar.

A língua do país guarda outras falas de palco e de tela com destino parecido. Chicó, personagem de O Auto da Compadecida, peça de Ariano Suassuna de 1955, deixou o não sei, só sei que foi assim, que o filme de Guel Arraes devolveu às ruas em 2000.

A tela empresta a fala, e o povo decide quanto tempo ela fica. Tropa de Elite deu ao país um grito de quartel, e o país transformou o grito em senha de resistência bem-humorada.

"Qual foi a última vez que você quis pedir pra sair, e o que te fez ficar?"

 
 
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Em fevereiro de 2008, Tropa de Elite recebeu um prêmio importante num festival internacional. Qual foi?

APalma de Ouro, do Festival de Cannes
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