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O elogio sincero de um exilado que o Brasil transformou em sarcasmo

Stefan Zweig terminou Brasil, país do futuro em Petrópolis, em 1941, e o país acrescentou ao título três palavras que ele nunca escreveu.

Casa simples na serra de Petrópolis, com escrivaninha junto à janela.

A casa de Petrópolis onde o livro foi terminado

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Por que "país do futuro" virou piada na boca do brasileiro, se o livro que espalhou a frase era um elogio honesto? Porque o país acrescentou ao título um rabo que o autor jamais escreveu: e sempre será.

O autor foi Stefan Zweig, escritor austríaco nascido em Viena, judeu, com a obra banida pelo regime nazista e um passaporte que virou papel sem valor. Ele desembarcou no Brasil pela segunda vez em 1940, alugou uma casa modesta em Petrópolis, na serra fluminense, e ali terminou Brasilien: Ein Land der Zukunft (em português, Brasil: uma terra do futuro), publicado em 1941.

O livro é entusiasmado da primeira à última página. Zweig descreve um território continental, uma mistura de povos que convivia sem as leis de segregação que ele tinha visto funcionando na Europa e nos Estados Unidos, cidades crescendo depressa, terra e comida em abundância enquanto o continente onde ele nasceu se despedaçava na guerra. O elogio tem a temperatura de quem encontrou abrigo.

A frase que sobrou do livro perdeu essa temperatura. Quando um brasileiro diz hoje que o Brasil é o país do futuro, ele está dizendo que o presente não chegou, que a promessa foi feita por gente demais e que ninguém marcou dia para cumprir. O elogio de um estrangeiro agradecido virou o jeito mais curto de reclamar de obra parada, de plano anunciado com fanfarra e de campanha que promete o que a anterior já tinha prometido.

Repare que ninguém precisa dizer a piada inteira. Basta começar a frase num tom mais lento, e quem escuta completa sozinho o acréscimo que o livro nunca teve.

A faixa a seguir abre pela frase em uso, mostra o que três palavrinhas no fim fizeram com o elogio original e por que o sarcasmo serve tanto para obra de infraestrutura quanto para discurso de posse.

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I  A Frase de Hoje

O acréscimo de três palavras que virou o elogio do avesso

Na boca de hoje, a frase é um adiamento. Ela diz que a promessa foi feita, que o prazo nunca apareceu e que quem esperava já aprendeu a esperar sentado, sem nenhuma expectativa de resposta.

O elogio virou sarcasmo por acréscimo, nunca por tradução errada. O que Zweig escreveu era uma aposta; o que o brasileiro repete é uma condenação, e a mudança inteira cabe em três palavras finais.

O primeiro mecanismo está no tempo verbal. Futuro é promessa sem vencimento. Uma obra prometida para dezembro pode ser cobrada em janeiro, com data e protocolo; uma obra prometida para o futuro nunca atrasa, porque o prazo se muda sozinho toda vez que alguém pergunta.

O segundo mecanismo está em quem elogiou. O brasileiro escuta elogio de estrangeiro com uma orelha desconfiada, e a desconfiança tem história: o visitante vê a paisagem, a festa, a hospitalidade, e volta para casa antes de precisar resolver qualquer problema daqui. O elogio de fora soa como retrato de quem passou o verão.

O terceiro mecanismo é o mais útil de notar. A mesma frase serve aos dois lados de qualquer discussão. Quem governa usa como promessa sincera, com gráfico e projeção; quem critica usa como piada pronta, sem precisar refutar gráfico nenhum. Poucas expressões brasileiras conseguem trabalhar para o acusador e para o acusado com as mesmas palavras.

Onde a frase aparece hoje

O leitor reconhece o uso pelo assunto, e os assuntos se repetem com uma regularidade quase cômica.

• A obra que não termina: ferrovia anunciada por um governo, retomada pelo seguinte, paralisada pelo terceiro, e a placa continua no acostamento prometendo entrega

• O plano econômico com nome bonito: o pacote que vai destravar o crescimento, sempre apresentado como virada definitiva, sempre sucedido por outro pacote com a mesma missão

• A comparação com o exterior: o brasileiro que volta de viagem descrevendo aeroporto, metrô e calçada, e encerra o relato com a frase, que aqui funciona como suspiro

Existem parentes próximos no vocabulário nacional. "O Brasil não é para principiantes", atribuída ao compositor Antônio Carlos Jobim, descreve a mesma sensação de país que exige do morador uma paciência fora do comum. "O Brasil não é um país sério", repetida como se fosse do general francês Charles de Gaulle na época da disputa pesqueira com a França nos anos 1960, nunca foi localizada em discurso ou documento assinado por ele.

A frase de Zweig venceu as concorrentes por uma razão simples. Ela é gentil na superfície, cabe em manchete, dispensa explicação e permite ao brasileiro criticar o próprio país citando um elogio, o que retira da crítica qualquer aparência de queixa gratuita.

 
 

II  De Onde Veio

Viena, Londres, Petrópolis: a rota que terminou na serra

Stefan Zweig nasceu em Viena em 1881 e foi um dos autores mais traduzidos da Europa nas décadas de 1920 e 1930, conhecido pelas biografias de Maria Antonieta e de Joseph Fouché e pelas novelas curtas que escrevia entre um livro grande e outro.

A vida dele desmontou em etapas. Os livros dele foram banidos e queimados pelo regime nazista por ser judeu, a casa em Salzburgo foi revistada pela polícia austríaca em 1934, e ele saiu para Londres naquele ano. Depois da anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, ficou sem país e passou a viajar com documento de apátrida, condição de quem perdeu a nacionalidade sem ganhar outra. A cidadania britânica saiu em 1940.

O Brasil entrou na vida dele antes da fuga definitiva. Zweig veio ao Rio de Janeiro em 1936, convidado, e foi recebido com uma calorosa atenção de público que ele registrou como surpresa em cartas e textos. Voltou em 1940 e, no ano seguinte, alugou uma casa pequena na rua Gonçalves Dias, em Petrópolis, cidade da serra fluminense a menos de duas horas do Rio.

O livro que saiu dali é um retrato organizado em blocos: a história da colonização, a economia do café e do açúcar, e capítulos dedicados a cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e as cidades históricas mineiras. A edição alemã e a tradução brasileira chegaram às livrarias em 1941, e a edição americana levou o título Brazil: Land of the Future, o mesmo elogio em inglês.

"Saúdo todos os meus amigos. Que eles ainda vejam a aurora depois da longa noite. Eu, impaciente demais, parto antes deles."

Stefan Zweig, Declaração, Petrópolis, 1942

O livro também rendeu ao autor a acusação que o persegue até hoje. Críticos brasileiros e exilados europeus disseram que Zweig tinha escrito uma peça de propaganda para o Estado Novo, o regime autoritário de Getúlio Vargas, e apontaram o silêncio do texto sobre censura, prisão política e desigualdade. Ele negou, e a discussão nunca foi encerrada: o livro descreve com generosidade o país que o acolheu e passa longe do governo que estava no poder.

A obra terminou publicada como elogio e recebida como propaganda por parte dos leitores brasileiros, e as duas leituras convivem nas edições que circulam até hoje.

Como o elogio virou bordão

1. o título entra no vocabulário jornalístico brasileiro logo depois do lançamento, usado sem ironia nenhuma em manchete e em discurso oficial

2. governos sucessivos adotam a fórmula em propaganda de desenvolvimento, associando o país ao que ainda vai acontecer

3. décadas de promessa não cumprida esvaziam o elogio, e o público começa a repetir o título com sobrancelha levantada

4. alguém acrescenta "e sempre será" no fim, e o acréscimo se espalha sem nome, sem autor e sem registro de estreia

5. a versão sarcástica passa a valer mais que o livro, a ponto de muita gente repetir a frase sem saber que existe um volume de quase quatrocentas páginas por trás dela

A ironia do percurso é que Zweig escreveu contra essa leitura. Para um homem que tinha perdido casa, idioma e país, um lugar com futuro pela frente era elogio grande.

 

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III  Carimbo de Origem

Petrópolis, 1941, e o rabo que o Brasil acrescentou

Carimbo: Brasilien: Ein Land der Zukunft, de Stefan Zweig, escrito em Petrópolis e publicado em 1941, com edição brasileira em português lançada no mesmo ano sob o título Brasil, país do futuro.

Rota: do título do livro para a manchete de jornal, da manchete para o discurso oficial de desenvolvimento, e dali para a piada corrente, já com o acréscimo que inverte o sentido.

Ressalva: não existe registro datado da primeira vez que alguém completou a frase com "e sempre será". O acréscimo circula sem autor identificado, e as atribuições a figuras estrangeiras que aparecem em textos de internet não se sustentam em documento, discurso publicado ou entrevista localizável.

O que se afirma com segurança é o núcleo: o autor, o ano, o lugar onde o livro foi escrito e o sentido original, elogioso e agradecido.

O que não se sabe merece ser dito com todas as letras. Ninguém fixou a primeira ocorrência impressa da versão sarcástica, as buscas em acervos de jornais digitalizados não devolvem uma estreia limpa, e é provável que o acréscimo tenha nascido na fala antes de aparecer em qualquer página, o que torna a datação improvável mesmo com novo levantamento.

A casa da rua Gonçalves Dias continua de pé e virou museu, a Casa Stefan Zweig, aberta à visitação em 2012. Foi ali que ele escreveu também a novela Xadrez e a autobiografia O Mundo de Ontem, ambas publicadas em 1942. Ele e a mulher, Lotte, foram encontrados sem vida na casa em fevereiro de 1942, poucos meses depois de o livro sobre o Brasil chegar às livrarias, e a carta de despedida agradece ao país que o recebeu.

As duas leituras do mesmo título

A leitura resignada é a mais comum. Nela a frase serve de encolher de ombros, funciona como piada de fim de conversa e trata o adiamento como característica fixa do país, algo que independe de decisão humana.

A leitura afiada é menos confortável. Nela a frase vira pergunta com endereço: quem prometeu, em que data, com qual orçamento e o que aconteceu com o dinheiro, perguntas que a piada dissolve justamente por ser engraçada.

A força da frase está em resumir décadas de promessa em cinco palavras. A fraqueza está em deixar o brasileiro satisfeito com o resumo, sem nunca cobrar a assinatura de quem prometeu.

Zweig escreveu o elogio olhando pela janela de uma casa alugada na serra, longe de tudo que tinha perdido. O país que ele elogiou pegou a frase, acrescentou o sarcasmo e passou a usá-la contra si mesmo, num gesto que diz bastante sobre o humor daqui e sobre a paciência que ele exige.

Amanhã: a expressão para inglês ver, e os navios britânicos que patrulhavam a costa brasileira no século 19.

"Que promessa você já ouviu adiada para o futuro a vida inteira?"

 
 
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