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A Espanha de 1492 fechou uma porta e abriu um problema. O decreto de expulsão deu à comunidade judaica do reino o prazo de meses para converter-se ou deixar Castela e Aragão, e milhares escolheram o batismo, ficaram e passaram a viver sob suspeita permanente.
O nome que a sociedade deu a esse grupo foi converso, ou cristão-novo. A designação separava o batizado de ontem do cristão de linhagem antiga, e essa separação atravessou tudo: casamento, ofício, cargo público e o interesse constante dos tribunais de fé.
A acusação central contra o converso era a de fingimento. Dizia-se que o batismo era de fachada, que a casa continuava guardando o calendário e os preceitos antigos, e que o compromisso original com a lei recebida no Sinai nunca tinha sido desfeito de verdade.
O termo que circulava nessa acusação era pacto. Pacto era palavra de contrato religioso, aliança entre um povo e uma lei, e a rua ouvia o vocabulário de longe, sem o contexto que o explicava, com o ouvido treinado apenas para desconfiar.
"Pagar el pato: pagar la pena de la culpa que otro cometió; frase muy usada de la gente vulgar." Verbete pato · Sebastián de Covarrubias, Tesoro de la lengua castellana o española · Espanha, 1611 |
A deformação foi fonética e conveniente. Pacto e pato são separados por uma consoante em castelhano, e a fala popular fez a troca com a naturalidade com que sempre transforma termo erudito em palavra de todo dia, com a diferença de que aqui a troca virou arma.
O trocadilho fazia trabalho duplo. Quem gritava a frase acusava alguém de manter o pacto antigo e ao mesmo tempo se protegia dizendo que só falava de uma ave, e a vítima ficava sem como responder a uma denúncia que ninguém assumia ter feito.
A construção da frase, na leitura mais difundida, seguiu esta ordem:
1. o decreto de 1492 cria a figura do converso, batizado sob suspeita
2. a acusação de fé fingida gira em torno do pacto antigo com a lei recebida
3. a rua ouve pacto e devolve pato, uma consoante adiante
4. a zombaria vira frase feita e circula sem precisar da acusação explícita
5. os impressos do século de ouro registram a expressão já com o sentido de pagar por culpa alheia
A frase nasceu como acusação disfarçada de piada. O disfarce é a peça que a fez durar, porque permitiu que ela continuasse sendo dita depois que a acusação original perdeu qualquer sentido.
Cervantes está entre os autores que a fixaram na página. A expressão aparece na literatura castelhana do período com o sentido que reconhecemos hoje, o de pagar pena por culpa de outro, sem nenhum vestígio da origem religiosa no uso corrente.
A entrada no português foi por vizinhança e por imprensa. Castelhano e português trocaram fórmulas populares durante séculos, e a frase chegou já pronta, com o significado de arcar sozinho, sem trazer junto a memória do converso nem do trocadilho que a gerou.
Sobrou apenas a geometria. Alguém decide, alguém escapa, alguém paga, e o pato continua sendo a figura escolhida para o lugar de quem fica com a conta na mão sem ter assinado nada.
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