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O registro mais antigo conhecido da cena está na Historia del Mondo Nuovo, de Girolamo Benzoni, impressa em Veneza em 1565. Benzoni era um viajante milanês que passou catorze anos nas Américas e voltou para escrever o que viu e o que ouviu.
A data importa. Cristóvão Colombo morreu em Valladolid em 1506, e o livro que traz o ovo saiu cinquenta e nove anos depois, tempo suficiente para que ninguém que estivesse à mesa continuasse vivo para confirmar.
Benzoni não cita fonte. Conta o episódio como coisa sabida, sem nome de anfitrião, sem data do jantar, sem testemunha, e o próprio texto sugere que ele reproduz uma história em circulação, não um documento.
O silêncio anterior é o problema maior. Bartolomé de las Casas, que teve acesso aos papéis do navegador, e Fernando Colombo, que escreveu a biografia do próprio pai, não mencionam o ovo em lugar nenhum.
Duas testemunhas com motivo de sobra para registrar uma cena tão favorável ao homem e nenhuma delas registra. Para uma anedota que supostamente teria corrido a corte espanhola, o vazio é difícil de explicar.
A complicação seguinte vem de outro lado da Itália. Em 1550, quinze anos antes de Benzoni, Giorgio Vasari publicou as Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos, e ali a mesma saída já aparece.
Na versão de Vasari, o personagem é Filippo Brunelleschi, e o assunto é a cúpula de Santa Maria del Fiore, em Florença. Os responsáveis pela obra exigiam que ele revelasse o método antes de receber a encomenda.
"Disse que quem conseguisse fazer um ovo ficar de pé sobre um mármore chato deveria fazer a cúpula." Giorgio Vasari · Le Vite de' più eccellenti pittori, scultori e architettori · Florença, 1550 |
A lógica do arquiteto era outra, e mais afiada. Ele não queria provar engenhosidade, queria evitar que copiassem seu projeto: se contasse o método, qualquer um construiria a cúpula, exatamente como qualquer um coloca o ovo em pé depois de ver o truque.
A ordem dos fatos, em texto impresso, fica assim:
1436: conclusão da cúpula de Brunelleschi em Florença
1506: morte de Cristóvão Colombo em Valladolid
1550: Vasari publica a cena do ovo com Brunelleschi
1565: Benzoni publica a mesma cena com o navegador
Depois: o nome do navegador vence e batiza a expressão
A cena tem mais idade impressa ligada a um arquiteto florentino que a um navegador genovês, e mesmo assim é o navegador que ficou com o nome dela.
O motivo da troca de dono provavelmente é de alcance. A descoberta das Américas era o assunto europeu do século, e uma anedota grudada nesse nome viajava mais longe que a mesma anedota grudada numa obra de arquitetura.
A frase sobreviveu às duas versões. Quando o público esqueceu tanto o jantar quanto a cúpula, o ovo em pé já andava sozinho na língua, disponível para qualquer solução simples demais para ser admitida.
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