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A lista de God nasceu numa terapia. Em 1970, John Lennon e Yoko Ono passaram meses em sessões com o psicólogo americano Arthur Janov, primeiro em Londres e depois em Los Angeles.
Janov tinha acabado de publicar o livro The Primal Scream (o grito primal), em 1970. A tese: dores da infância ficam guardadas no corpo e só se soltam quando o paciente as revive, muitas vezes aos gritos.
Lennon tinha material de sobra. O pai, Alfred, sumiu quando ele era pequeno. A mãe, Julia, entregou a criação dele à irmã Mimi e foi atropelada na frente da casa da irmã em 1958, quando o filho tinha 17 anos.
Do divã ao estúdio
As sessões viraram canções. Mother (mãe), que abre o disco, termina com Lennon gritando pelos pais. God, perto do fim, faz o movimento oposto: no lugar do grito, a recusa calma de tudo em que ele tinha se apoiado.
A primeira linha da letra define Deus como um conceito pelo qual medimos a nossa dor. Lennon repetiu a ideia em entrevistas: a fé em ídolos, gurus e bandas seria um jeito de terceirizar o sofrimento.
A lista inteira
A sequência das negações inclui a magia, o I Ching (o livro chinês de adivinhação), a Bíblia, o tarô, Hitler, Jesus, Kennedy, Buda, o mantra, a Gita (o livro sagrado hindu), a ioga, os reis, Elvis Presley e Zimmerman.
Zimmerman é Bob Dylan. Robert Allen Zimmerman era o nome de batismo do cantor, e Lennon escolheu o sobrenome civil pra tirar dele a aura do personagem. Era um ídolo e um amigo, tratado pelo registro de cartório.
O que ele explicou depois
Em dezembro de 1970, Lennon deu uma entrevista longa ao editor Jann Wenner, da revista Rolling Stone, publicada em 1971 e reunida depois no livro Lennon Remembers (Lennon se lembra). Ali ele comentou a própria frase:
“O sonho acabou. Está tudo igual, só que eu tenho 30 anos e muita gente tem cabelo comprido.”
O sonho, pra Lennon, era a crença de que uma banda e uma década mudariam o mundo sozinhas. |
As gravações aconteceram nos estúdios de Abbey Road, em Londres, o mesmo endereço onde os Beatles tinham gravado quase toda a obra. Lennon pediu um som cru, sem orquestra e sem efeitos, pra que nada ficasse entre a voz e o ouvinte.
O disco foi produzido por Lennon, Yoko Ono e Phil Spector, com Ringo Starr na bateria e Klaus Voormann no baixo. Ringo, ex-companheiro de banda, toca na faixa em que Lennon declara não acreditar nos Beatles.
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