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Macau começou como ancoradouro tolerado. Em 1557 as autoridades chinesas aceitaram a presença fixa dos portugueses na península, mediante foro pago, e o povoado virou a única porta europeia aberta no litoral do império.
A porta valia pouco por si só. O que a transformou em máquina de dinheiro foi a lei chinesa que proibia o comércio com o Japão, resposta da corte Ming a décadas de ataques de piratas na costa, muitos deles com base nas ilhas japonesas.
A proibição não apagou a demanda. A China queria prata para pagar impostos e mover a economia interna, e o Japão tinha acabado de abrir minas que jorravam metal.
A mais famosa dessas minas ficava em Iwami, na costa oeste japonesa, e sozinha respondia por uma fatia enorme da prata que circulava no mundo naquele século. O Japão tinha metal e queria seda, a China tinha seda e queria metal, e nenhum dos dois podia procurar o outro.
Portugal vendeu a travessia. A Coroa criava uma viagem por ano, concedia ou leiloava o direito de fazê-la a um capitão-mor, e esse homem organizava o navio, a carga e a repartição dos lucros com os mercadores de Macau.
O navio ficou conhecido como nau do trato, e no Japão como navio negro. Saía de Macau com a monção de verão, chegava a Nagasaki em poucas semanas e depois esperava meses no porto até o vento virar para a volta.
"A grande nau de Amacau era o elo comercial mais valioso do Estado da Índia." Charles Ralph Boxer · The Great Ship from Amacon · Lisboa, 1959 |
A margem vinha da diferença de preço entre as duas pontas. A seda crua comprada nas feiras de Cantão podia ser vendida em Nagasaki por várias vezes o valor pago, e a prata trazida de volta comprava na China muito mais do que compraria em casa.
O ganho acontecia duas vezes na mesma viagem, uma na ida e outra na volta, e por isso a conta impressionava tanto quem ficava em terra ouvindo falar dela.
O percurso do negócio cabe em cinco linhas:
Saída: Macau, com a monção do sul, o porão cheio de seda crua
Chegada: Nagasaki, onde a seda era paga em prata em barra
Espera: meses no porto japonês, aguardando o vento de retorno
Volta: Macau e depois Goa, com a prata que comprava seda de novo
Frequência: uma viagem por ano, com direito concedido pela Coroa
Nenhuma parte do negócio dependia de esconder informação. Dependia de ser o único autorizado a estar nos dois portos, e essa exclusividade durou quase um século.
O fim veio pela mesma via política que criou o negócio. Em 1639 o Japão fechou os portos aos portugueses, o comércio da seda passou a holandeses e chineses, e a rota da nau desapareceu do mapa.
A frase sobreviveu à rota. Quando os navios pararam de sair, o dito já estava solto na língua, e passou a nomear qualquer ganho que lembrasse de longe aquela margem.
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