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Navegar é preciso, a ordem de Pompeu

Pompeu mandou a frota de trigo zarpar com vento contra, e a frase que Plutarco guardou ganhou em português o sentido de exato.

Navios romanos carregados de trigo deixam o porto sob um céu de tempestade.

A frota de trigo deixa o porto na tempestade

▼
 

Navegar é preciso quer dizer que navegar é exato? Na origem, não: preciso ali quer dizer necessário, e a frase saiu da boca do general romano Cneu Pompeu Magno, diante de uma frota de trigo que os pilotos não queriam tirar do porto.

Imagine um porto da rota do grão, numa costa do Mediterrâneo. Os porões estão cheios de sacos de trigo, as velas seguem amarradas e os cascos rangem contra o cais a cada onda que entra. Marinheiros enrolam cordas no convés e olham para o mesmo ponto do horizonte.

O vento sopra forte do mar. Os pilotos, os homens que conduzem o leme, olham o céu fechado e balançam a cabeça. Nenhum deles quer soltar a âncora com aquele tempo, e esperar a calmaria parece a escolha sensata. Um navio carregado afunda depressa, e o mar raramente devolve a tripulação.

Pompeu discorda. Sobe a bordo antes de todos, sem esperar que alguém o acompanhe, manda levantar âncora e resume a ordem numa frase de duas metades: navegar é necessário, viver não é.

A frota parte. A frase atravessa mais de dois mil anos, passa por três línguas e chega ao português, onde ganha uma dúvida que o general nunca teve: preciso, para nós, também quer dizer exato.

Hoje a frase circula em discurso de formatura, em nome de barco e em legenda de foto de veleiro, com cara de convite à aventura, e muita gente a repete sem saber quem a disse nem para quem.

Pompeu não falava de aventura. Falava de uma cidade sem pão, de mercados vazios e de uma tripulação que, naquele dia, valia menos do que a carga que levava.

A faixa I mostra o que navegar é preciso quer dizer no português de hoje, por que as duas leituras de preciso convivem na mesma frase e como usá-la inteira sem trair a ordem do general.

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I  A frase de hoje

O barco sai com vento contra

Navegar é preciso se diz quando uma tarefa não pode esperar a condição ideal. O risco existe, mas ficar parado custa mais, e quem usa a frase está dizendo que há trabalhos maiores do que o conforto de quem os faz.

A forma completa tem duas metades, navegar é preciso e viver não é preciso. A segunda é a que pesa. Ela põe a missão acima da segurança de quem a cumpre: o navio tem que chegar, ainda que o marinheiro não volte.

A frase vale para escolha consciente. Quem a diz sabe do risco, mede o custo e embarca assim mesmo; quem embarca sem olhar o céu está sendo imprudente, e a frase não o defende.

Navegar é preciso põe a viagem acima do viajante.

As duas leituras de preciso

O português dá à frase um segundo fundo. Preciso quer dizer necessário, como em é preciso pagar a conta, e também exato, como em uma balança precisa. A mesma palavra carrega os dois sentidos, e a frase aceita os dois.

Na leitura de necessário, a frase é a ordem do general: navegar é obrigatório, viver não é. Na leitura de exato, ela vira reflexão sobre a vida. A navegação é arte de medida, com carta náutica, bússola e estrela, e a vida não tem instrumento que a meça.

Quem fala a frase costuma escolher uma das leituras sem perceber, e quem ouve pode entender a outra. Os dois saem da conversa com uma frase correta na cabeça, cada um com a sua.

O tom da frase

Navegar é preciso tem tom de convocação. Serve ao mestre de obras que manda concretar a laje antes da chuva, à equipe que entrega o projeto no prazo com o que tem e a quem troca de cidade sem emprego garantido.

A frase também serve à ironia. Dita diante de um sofá numa tarde de domingo, ela zomba de quem transforma uma ida à padaria em expedição.

Como usar a frase sem trair o general

Três cuidados mantêm a frase no lugar certo:

1. Diga a frase inteira quando a tarefa cobrar um preço de quem a cumpre; sozinha, a primeira metade soa como convite à aventura.

2. Separe as duas metades com vírgula ou ponto e vírgula, navegar é preciso; viver não é preciso, para o leitor perceber a oposição entre elas.

3. Reserve a frase para risco real e escolhido; para a fila do banco ou a reunião de segunda-feira, ela soa como bravata.

O terceiro cuidado é o que mais escapa. A frase nasceu de uma ordem dada com vento contra, e usada para um incômodo pequeno perde a tempestade que lhe dá sentido.

 
 

II  De onde veio

O pão de Roma no porão

Cneu Pompeu Magno nasceu em 106 a.C. e fez fama na guerra. Em 67 a.C., limpou o Mediterrâneo dos piratas que atacavam os navios de grão, e Roma começou a vê-lo como o homem capaz de abrir o mar.

Dez anos depois, em 57 a.C., faltou trigo em Roma. O preço do grão subiu e a multidão tomou as ruas. A cidade comia o trigo que chegava por mar da Sicília, da Sardenha e da África, e qualquer atraso dos navios virava fila na porta das padarias.

O encargo do trigo

O orador Marco Túlio Cícero, recém-chegado do exílio, propôs no Senado entregar o problema a Pompeu. Os cônsules, os dois magistrados que chefiavam a República, redigiram a lei, e Pompeu recebeu a cura annonae (o encargo do abastecimento de grão da cidade) por cinco anos, com autoridade sobre portos e mercados de todo o território romano.

Pompeu pediu quinze legados, auxiliares de confiança com poder delegado, e pôs Cícero no topo da lista. O próprio Cícero contou a nomeação ao amigo Ático: “Pompeu pede quinze legados, me nomeia o primeiro e diz que serei para ele um segundo eu em tudo” (Cícero, Cartas a Ático, livro 4, 57 a.C.).

Com o encargo na mão, Pompeu espalhou agentes pelos portos e foi pessoalmente à Sicília, à Sardenha e à África juntar trigo. Foi num desses embarques, com os porões cheios e Roma esperando, que o vento apertou.

O mar tinha calendário

O escritor militar Vegécio, séculos depois de Pompeu, registrou no tratado Epitoma rei militaris (resumo da arte militar) a regra herdada dos antigos: mar seguro de 27 de maio a 14 de setembro, mar duvidoso de 14 de setembro a 11 de novembro e mar fechado de 11 de novembro a 10 de março.

Plutarco não diz em que porto nem em que mês a frota estava. Diz só que o vento era violento e que os pilotos hesitavam. No grego dele, a frase do general ficou assim: plein anánke, zên ouk anánke (navegar, necessidade; viver, necessidade nenhuma).

Em que língua Pompeu deu a ordem ficou sem registro. Plutarco escreveu em grego, e a tripulação de um navio de grão no Mediterrâneo podia falar latim, grego ou as duas línguas.

A frase pôs o pão de Roma acima da vida da tripulação.

O que a viagem rendeu

A aposta deu certo. Plutarco conta que, com esse zelo e alguma sorte, Pompeu encheu os mercados de trigo e o mar de navios, a ponto de a sobra abastecer também os povos de fora, como uma fonte que transborda (Plutarco, Vida de Pompeu, capítulo 50, começo do século II).

Plutarco nasceu em Queroneia, na Grécia, e escreveu as Vidas Paralelas mais de um século e meio depois do embarque. Ele não estava no porto: trabalhou sobre relatos de historiadores anteriores e não diz de qual deles tirou a frase.

Pompeu seguiu na política até a guerra civil contra Júlio César. Perdeu a batalha de Farsália em 48 a.C. e fugiu por mar para o Egito. No mesmo ano, foi morto a punhaladas no barco que o levava à praia de Pelúsio.

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III  Carimbo de origem

Do grego ao fado

Expressão: navegar é preciso

Sentido: o risco é necessário

Autor da ordem: Pompeu

Fonte: Plutarco, Vida de Pompeu

Língua original: grego

Encargo do trigo: 57 a.C.

Carga: trigo para Roma

Plutarco deu à frase autor e cena, mas a forma que chegou ao português passou antes por outra língua.

Do grego ao latim

A versão latina, navigare necesse est, vivere non est necesse (navegar é necessário, viver não é necessário), não aparece em nenhum autor romano. É tradução posterior do grego de Plutarco, e ninguém identificou quem a escreveu primeiro, porque a frase correu em várias traduções antes de ganhar registro com data.

Em latim, necesse só quer dizer necessário. A palavra não fala de medida nem de exatidão. No grego também não: anánke é a força que obriga, e os gregos davam o mesmo nome à deusa do destino inevitável.

Onde nasceu o segundo sentido

O português herdou preciso do latim praecisus, que quer dizer cortado rente, aparado. O que foi cortado rente não tem sobra, e daí veio o sentido de exato, o mesmo do francês précis (exato).

O sentido de necessário se firmou no português e no espanhol, onde es preciso equivale ao nosso é preciso. O caminho entre os dois sentidos tem uma explicação provável: o que foi cortado rente ficou determinado, sem margem, e o que está determinado não se pode dispensar. O passo a passo dessa mudança não ficou documentado em texto com data.

Quando a frase do general chegou ao português, a tradução escolheu preciso no sentido de necessário, e a palavra trouxe junto o sentido de exato. A segunda leitura não tem dono: ela nasceu da própria palavra, e nenhum registro aponta quem a notou primeiro.

Pessoa e Caetano

Fernando Pessoa usou a frase num texto em prosa sem data e a atribuiu aos navegadores antigos. Logo em seguida, reescreveu a ordem para a própria vida: “Viver não é necessário; o que é necessário é criar.” Na reescrita, ele trocou preciso por necessário, sinal de que leu a frase como Pompeu a disse.

Caetano Veloso gravou Os Argonautas, um fado sobre um barco e um coração que não aguenta a tormenta, e pôs no refrão a frase inteira: “Navegar é preciso, viver não é preciso” (Caetano Veloso, Os Argonautas, 1969). Na canção, as duas leituras de preciso soam juntas, e cada ouvinte escolhe a sua.

Por causa dos dois, muita gente credita a frase a Pessoa ou a Caetano. O carimbo é mais antigo: um general romano, um porto sem nome e um escritor grego que anotou a ordem um século e meio depois.

A frota de Pompeu levava trigo. O português guardou a ordem e ganhou de brinde uma pergunta sobre a vida que o general nunca fez.

“Qual viagem sua não pode mais esperar o tempo bom?”

 
 
 

Quiz da edição

No ano 57 a.C., faltou trigo em Roma. Quem propôs no Senado que o abastecimento de grão da cidade fosse confiado a Pompeu?

AJúlio César
BMarco Catão
CMarco Túlio Cícero
DVegécio

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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