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Cneu Pompeu Magno nasceu em 106 a.C. e fez fama na guerra. Em 67 a.C., limpou o Mediterrâneo dos piratas que atacavam os navios de grão, e Roma começou a vê-lo como o homem capaz de abrir o mar.
Dez anos depois, em 57 a.C., faltou trigo em Roma. O preço do grão subiu e a multidão tomou as ruas. A cidade comia o trigo que chegava por mar da Sicília, da Sardenha e da África, e qualquer atraso dos navios virava fila na porta das padarias.
O encargo do trigo
O orador Marco Túlio Cícero, recém-chegado do exílio, propôs no Senado entregar o problema a Pompeu. Os cônsules, os dois magistrados que chefiavam a República, redigiram a lei, e Pompeu recebeu a cura annonae (o encargo do abastecimento de grão da cidade) por cinco anos, com autoridade sobre portos e mercados de todo o território romano.
Pompeu pediu quinze legados, auxiliares de confiança com poder delegado, e pôs Cícero no topo da lista. O próprio Cícero contou a nomeação ao amigo Ático: “Pompeu pede quinze legados, me nomeia o primeiro e diz que serei para ele um segundo eu em tudo” (Cícero, Cartas a Ático, livro 4, 57 a.C.).
Com o encargo na mão, Pompeu espalhou agentes pelos portos e foi pessoalmente à Sicília, à Sardenha e à África juntar trigo. Foi num desses embarques, com os porões cheios e Roma esperando, que o vento apertou.
O mar tinha calendário
O escritor militar Vegécio, séculos depois de Pompeu, registrou no tratado Epitoma rei militaris (resumo da arte militar) a regra herdada dos antigos: mar seguro de 27 de maio a 14 de setembro, mar duvidoso de 14 de setembro a 11 de novembro e mar fechado de 11 de novembro a 10 de março.
Plutarco não diz em que porto nem em que mês a frota estava. Diz só que o vento era violento e que os pilotos hesitavam. No grego dele, a frase do general ficou assim: plein anánke, zên ouk anánke (navegar, necessidade; viver, necessidade nenhuma).
Em que língua Pompeu deu a ordem ficou sem registro. Plutarco escreveu em grego, e a tripulação de um navio de grão no Mediterrâneo podia falar latim, grego ou as duas línguas.
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A frase pôs o pão de Roma acima da vida da tripulação.
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O que a viagem rendeu
A aposta deu certo. Plutarco conta que, com esse zelo e alguma sorte, Pompeu encheu os mercados de trigo e o mar de navios, a ponto de a sobra abastecer também os povos de fora, como uma fonte que transborda (Plutarco, Vida de Pompeu, capítulo 50, começo do século II).
Plutarco nasceu em Queroneia, na Grécia, e escreveu as Vidas Paralelas mais de um século e meio depois do embarque. Ele não estava no porto: trabalhou sobre relatos de historiadores anteriores e não diz de qual deles tirou a frase.
Pompeu seguiu na política até a guerra civil contra Júlio César. Perdeu a batalha de Farsália em 48 a.C. e fugiu por mar para o Egito. No mesmo ano, foi morto a punhaladas no barco que o levava à praia de Pelúsio.
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