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A cena da intro tinha corporação conhecida: a Guarda Real da Polícia de Lisboa, criada em 1801 pelo príncipe regente dom João, futuro dom João VI, para patrulhar a capital à noite. Até então, a ronda das ruas cabia a milícias de bairro, mal armadas e mal pagas.
Quem organizou a nova tropa foi um oficial francês emigrado, o conde de Novion, contratado pela coroa portuguesa. Ele montou companhias de infantaria e cavalaria, com farda própria, quartel fixo e rondas em horário certo.
A senha da noite
O serviço de sentinela seguia a praxe militar da época, o costume escrito e oral dos quartéis. A senha era uma palavra comum, sorteada pelo comando e passada de boca em boca aos postos ao cair da tarde. Ninguém a anotava em papel, para não cair em mão errada.
Junto com a senha havia a contrassenha, a resposta que só a ronda conhecia. A sentinela dizia uma palavra, o cabo respondia a outra, e os dois sabiam que estavam do mesmo lado. Errar a contrassenha deixava o próprio cabo sob a mira, e o rito valia para oficial e paisano sem distinção.
Por que três vezes
O brado repetido tinha razão prática. De noite, com vento do rio e sem luz na rua, a primeira pergunta podia não chegar ao ouvido de quem passava. A segunda descartava o engano. A terceira já falava com quem escolhia o silêncio.
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O terceiro brado não perguntava mais nada: avisava.
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O rito servia também à justiça. Um tiro sem os brados podia levar a sentinela ao conselho de guerra, o tribunal militar. Com os brados dados, a responsabilidade passava para quem não respondeu.
A travessia de 1808
Em novembro de 1807, com as tropas de Napoleão às portas de Lisboa, a família real embarcou para o Brasil. No Rio de Janeiro, em 1809, nasceu a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia, irmã carioca da lisboeta e semente da atual Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.
Com a tropa vieram as fardas, os toques de corneta e o “Quem vem lá?”. O brado das guaritas cariocas passou a fazer parte da noite da cidade, ouvido por escravizados, marinheiros e boêmios que voltavam tarde para casa.
A Guarda Real de Lisboa durou até 1834, quando a vitória liberal na guerra civil portuguesa a extinguiu. A do Rio sobreviveu à Independência e mudou de nome várias vezes, sem nunca abandonar a ronda.
O treino de guarda dos quartéis brasileiros manteve a mesma sequência ensinada em Lisboa: mandar parar, pedir identificação e só então agir. O fuzil ficou mais moderno, e a ordem dos passos continuou igual.
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