|
|
Maria vai com as outras nasceu num passeio da corte no Rio
Depois de 1808, dona Maria I era levada a passear cercada pelas damas da corte e seguia o passo delas sem escolher o caminho.
|
A rainha a passeio, cercada pelas damas da corte
|
| ▼ |
| |
|
No fim da tarde, uma carruagem saía do Convento do Carmo, no centro do Rio de Janeiro, e pegava a rua estreita que levava ao Paço. Dentro dela ia dona Maria I, rainha de Portugal, e ao redor iam as damas da corte.
A rainha não despachava havia dezesseis anos. Desde 1792, os negócios do reino corriam pela mão do filho, dom João, e o que restou dela foi o título, o tratamento de majestade e o lugar de honra em cada cortejo.
O passeio era prescrição de médico e rotina de casa. Alguém decidia a hora de sair, alguém decidia a rua, alguém decidia quando a comitiva voltava, e nenhuma dessas decisões passava pela pessoa que dava nome ao cortejo.
A corte tinha atravessado o Atlântico no fim de 1807, fugindo do exército francês que avançava sobre Lisboa. A esquadra saiu do Tejo em novembro, passou pela Bahia e ancorou na baía de Guanabara em março de 1808, com algo entre dez e quinze mil pessoas a bordo.
De uma hora para outra, uma cidade colonial de rua estreita e casa baixa virou sede do império português. Ministros, criados, capelães, damas e cavalariços passaram a circular no mesmo espaço que os moradores da rua Direita.
O carioca, então, viu de perto uma cena que se repetia. A rainha ia à missa, ia ao passeio, ia ao cortejo, sempre cercada pelo mesmo grupo, sempre no passo do grupo, nunca à frente dele.
Quem assistia da calçada resumia a cena numa frase de duas partes. Lá ia Maria, e Maria ia com as outras, porque o destino do passeio nunca era escolha dela.
O que sobrou para o português foi o carimbo de quem acompanha a fila sem perguntar para onde ela vai. Não é o carimbo de quem obedece por medo, nem de quem concorda por convicção, é o de quem entra no passo porque o passo já estava dado.
Duzentos anos depois, a frase continua sendo dita em roda de amigo, em reunião de trabalho e em conversa de família, sempre com a mesma pitada de desconfiança.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Frase de Hoje
Quem entra na fila sem perguntar o destino
|
|
Cinco palavras que nasceram de um passeio sem escolha.
A mesa inteira pediu o mesmo prato, e o último a pedir olhou o cardápio por três segundos, fechou e repetiu o pedido dos outros. Do outro lado da mesa, alguém riu e disse a frase: Maria vai com as outras.
A frase não acusa a escolha de errada. Ela acusa a ausência de escolha, o momento em que a pessoa adota a decisão do grupo sem passar pelo trabalho de ter uma.
Três peças precisam estar em cena antes que a expressão caiba. Primeiro, um grupo que já se moveu. Segundo, alguém que se move depois, no mesmo sentido. Terceiro, uma testemunha que percebeu a ordem dos acontecimentos.
Falta uma peça e a frase perde a graça. Duas pessoas que chegam à mesma conclusão ao mesmo tempo não são Maria vai com as outras, são duas pessoas que concordaram.
A expressão também não serve para quem obedece. Soldado que cumpre ordem, funcionário que segue norma e motorista que para no sinal vermelho fazem o que se espera deles, e ninguém chama nada disso de seguir a fila.
|
A frase mede uma distância curta e específica: a que separa concordar de simplesmente ir junto. Quem concorda tem um motivo pronto. Quem vai junto tem o grupo.
|
As vizinhas de sentido mostram o tamanho da diferença. Puxa-saco descreve interesse, o sujeito segue alguém para ganhar alguma coisa, e a expressão de hoje não fala em ganho nenhum.
Cabresto é a coleira, o comando de fora com dono conhecido. Maria vai com as outras não tem dono, tem correnteza, e a pessoa entra nela sozinha.
O gênero está no nome e no uso. A expressão nasceu apontando uma mulher e hoje é dita sobre qualquer pessoa, mas o feminino ficou congelado na forma, o que faz o homem que segue a fila ser chamado pelo nome de uma rainha portuguesa.
Repare também no lugar de quem fala. Ninguém aplica a frase a si mesmo sem ironia, porque admitir que se entrou na fila sem perguntar o destino é entregar a decisão que se tomou sem tomar.
Hoje a cena tem endereços novos e o mesmo desenho. É a votação em que a mão sobe depois das outras, a compra feita porque três conhecidos compraram, a opinião repetida em voz alta antes de ser conferida.
Cinco palavras bastam porque a imagem é reconhecível na hora: um grupo que anda junto e alguém no meio dele que não escolheu o caminho.
|
|
|
|
|
II De Onde Veio
A corte que desembarcou no Rio em 1808
|
|
Maria Francisca Isabel Josefa Antônia Gertrudes Rita Joana assumiu o trono português em 1777 e governou por quinze anos, com decisões próprias e pulso conhecido. A ruptura veio em 1792, quando ela deixou de despachar e a regência passou de fato para o príncipe dom João.
O arranjo foi oficializado por decreto em 1799. Dom João passou a assinar em nome dela, os documentos continuaram saindo com o nome da rainha e a corte manteve todos os rituais devidos à pessoa que já não decidia nada.
Em novembro de 1807, com as tropas de Napoleão a poucos dias de Lisboa, a corte embarcou. A travessia levou a família real, a burocracia do reino, o tesouro e a biblioteca para o outro lado do Atlântico, e a esquadra ancorou no Rio de Janeiro em março de 1808.
A rainha foi instalada no Convento do Carmo, colado ao Paço, no centro da cidade. Ali ela viveu os últimos oito anos, cercada por damas de companhia, camaristas e criadas encarregadas de acompanhar cada saída.
O protocolo exigia a presença dela. Missa, procissão, aniversário de príncipe, chegada de embaixador, tudo pedia a rainha no lugar de honra, e o lugar de honra era ocupado por quem não tinha voz na decisão que levou a corte até ali.
O passeio de fim de tarde entrou nessa rotina. A comitiva saía a pé ou de carruagem pelas ruas do centro e pelo Campo de Santana, e a rua colonial era estreita o bastante para o carioca comum ver tudo de perto.
O detalhe que a rua registrou foi a formação. As damas iam ao redor, decidiam o trajeto, decidiam o ritmo, e a rainha ia no meio delas, sem apontar nenhuma direção.
Nenhum leitor de rua precisava saber de decreto de regência para entender a cena. Bastava ver quem apontava o caminho e quem seguia.
A ironia estava no papel de cada um. A cidade inteira devia obediência formal àquela mulher, e a mulher seguia o passo do próprio séquito.
O nome ajudou a frase a pegar. Maria era o nome mais comum entre as portuguesas e as brasileiras do período, o que permitiu que a rainha específica virasse a mulher qualquer da frase.
O ápice do paradoxo tem data e papel timbrado. Em 16 de dezembro de 1815, uma carta de lei assinada em nome da rainha elevou o Brasil à condição de reino, no ato jurídico mais importante daquela década.
|
"O Estado do Brazil seja elevado á dignidade, preeminencia e denominação de Reino do Brazil."
Carta de Lei · 16 de dezembro de 1815
|
Repare no que a lei faz e no que a lei esconde. O nome no alto do documento é o da rainha, a decisão é do filho, e o país inteiro passou a se chamar reino por uma assinatura que não decidia.
Um ano depois, em 1816, o reinado se encerrou no mesmo convento e dom João foi aclamado rei. A cena do passeio parou, a frase ficou, e ninguém precisou de dicionário para continuar usando.
|
|
|