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Lavar as mãos: a bacia que só Mateus pôs no capítulo 27

Pôncio Pilatos pediu água diante da multidão e se disse inocente. Marcos, Lucas e João contam o julgamento sem esse gesto.

Mãos sob um fio de água sobre uma bacia de bronze, em luz de lamparina.

A bacia de Pilatos, em Mateus 27

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Por que lavar as mãos virou o jeito de dizer que alguém se livrou de uma responsabilidade? Porque um governador romano pediu uma bacia de água diante de uma multidão em Jerusalém e declarou, com as mãos molhadas, que não tinha culpa do que ia autorizar em seguida.

O governador era Pôncio Pilatos, prefeito da Judeia, a província romana que ia de Cesareia, no litoral, até Jerusalém. A cena aparece num único livro: o Evangelho de Mateus, no capítulo 27, versículo 24.

Os quatro evangelhos contam o julgamento de Jesus diante de Pilatos. Marcos, Lucas e João descrevem o interrogatório, a multidão, a troca com o preso Barrabás e a sentença. Nenhum dos três menciona água, bacia ou mãos.

Lucas chega perto. No relato dele, Pilatos declara três vezes que não encontra culpa no acusado e ainda o despacha pra Herodes Antipas, o governante da Galileia, que estava em Jerusalém pra Páscoa. A declaração existe, o gesto não.

Mateus junta as duas peças. Pilatos percebe que nada adianta e que o tumulto cresce, pede água, lava as mãos à vista do povo e diz que é inocente do sangue daquele justo. A multidão responde assumindo a culpa pra si e pros próprios filhos.

O evangelista tinha motivo pra escolher esse gesto. Os leitores dele, judeus que seguiam Jesus, conheciam de cor um rito da Lei de Moisés em que anciãos lavavam as mãos pra se declarar livres de um sangue derramado.

O público de Mateus via a cena com esse rito na cabeça. Quando o governador estrangeiro pega a água, o leitor reconhece a fórmula dos anciãos de Israel, e reconhece também que ela está sendo usada por quem tinha nas mãos a ordem de soltar o preso. A bacia proclama inocência e a sentença diz o contrário.

Mais abaixo, o que a expressão quer dizer na conversa de hoje, de onde Mateus tirou a bacia e o que se sabe do governador que a pediu.

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I  A frase de hoje

A conta que fica sem dono

Lavar as mãos, no português de hoje, quer dizer recusar a responsabilidade por uma situação, em geral uma que a pessoa poderia ter evitado. Quem lava as mãos sai de cena e deixa o resultado pros outros.

Lavar as mãos é assistir à decisão e jurar que não fez parte dela.

A expressão tem duas formas comuns: lavar as mãos e lavar as mãos como Pilatos. A segunda deixa explícita a origem e carrega mais crítica, porque lembra que o gesto não salvou ninguém.

Como a frase aparece na conversa

A frase circula em três terrenos principais:

• No trabalho: pro chefe que aprova o projeto e some quando ele dá errado

• Na política: pro governo que transfere a decisão impopular pra outra esfera e diz que não tinha poder

• Na família: pro parente que vê a briga começar e decide que não é problema dele

O tom quase sempre é de acusação. Raramente alguém diz que lavou as mãos com orgulho; a frase descreve o outro, e descreve mal.

O verbo também aceita complemento. Quem lava as mãos de um assunto abandona aquele tema específico: lavar as mãos do processo, do conflito, da obra atrasada. A construção existe no português do Brasil e no de Portugal.

Existe um uso neutro, mais raro. Quem avisa, insiste, perde a discussão e se retira pode dizer que lavou as mãos no sentido de ter feito a parte que cabia. Mesmo aí, a frase guarda um fundo amargo.

Outras línguas seguiram o mesmo caminho: to wash one's hands of em inglês, se laver les mains em francês, lavarsene le mani em italiano, lavarse las manos em espanhol. Todas saem do mesmo versículo, lido em latim por séculos nas igrejas da Europa.

O verso latino é da Vulgata (a tradução da Bíblia feita por Jerônimo nos últimos anos do século IV): innocens ego sum a sanguine iusti huius (sou inocente do sangue deste justo).

A expressão tem um detalhe que o uso cotidiano esqueceu. No texto de Mateus, o gesto não funciona: Pilatos lava as mãos e entrega o preso mesmo assim. A frase nasceu como retrato de uma desculpa que não convence.

 
 

II  De onde veio

A bacia que veio de um rito

O Evangelho de Mateus foi escrito, segundo a datação mais aceita entre os estudiosos, entre os anos 80 e 90, cerca de meio século após a crucificação. O autor usou o Evangelho de Marcos como base e acrescentou episódios que só ele conta.

A bacia de Pilatos é um desses acréscimos. Outro, no mesmo capítulo, é o sonho da mulher do governador, que manda recado durante o julgamento pedindo que ele não se envolva com aquele justo.

O gesto tem raiz conhecida no Antigo Testamento. O livro do Deuteronômio, no capítulo 21, prescreve o que fazer quando um corpo é encontrado no campo e ninguém sabe quem matou.

Os anciãos da cidade mais próxima levavam uma novilha até um vale com água corrente, sacrificavam o animal e lavavam as mãos sobre ele. Depois, diziam em voz firme a fórmula prevista pela lei:

“As nossas mãos não derramaram este sangue, e os nossos olhos não o viram.”

Deuteronômio 21:7, tradução de João Ferreira de Almeida, 1681

A água como declaração

Os Salmos repetem a imagem. No Salmo 26, o orador diz que lava as mãos na inocência antes de se aproximar do altar. Pra um leitor judeu do século I, mãos lavadas em público eram um juramento sem palavras.

A cena funciona tão bem no texto de Mateus. Um governador pagão faz o rito dos anciãos de Israel, com a fórmula quase igual, e o leitor percebe na hora o tamanho da contradição: ele tinha o poder de soltar o preso. No rito do Deuteronômio, os anciãos lavam as mãos porque não sabem quem matou; Pilatos lava sabendo exatamente quem vai assinar a ordem.

Os historiadores discutem se a cena aconteceu. Um prefeito romano tinha pouca razão pra imitar um costume judaico, e nenhuma fonte romana registra o julgamento. Muitos estudiosos leem a bacia como construção teológica do evangelista; outros lembram que lavar as mãos também era gesto conhecido entre gregos e romanos.

A questão segue em aberto porque só existe um relato, e ele foi escrito décadas depois por quem tinha interesse em contar a história de certo jeito. O que se sabe com segurança é que o gesto entrou no texto e, dali, na língua.

A frase da multidão no versículo seguinte teve vida longa e trágica. Durante séculos, foi usada como justificativa para perseguir judeus. Em 1965, o Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate, afirmou que a morte de Jesus não pode ser imputada aos judeus em geral.

 

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III  Carimbo de origem

O prefeito que a pedra confirmou

Carimbo: Mateus 27:24, no grego do Novo Testamento, enipsato tas cheiras (lavou as mãos), por volta dos anos 80 a 90.

Rota: do grego pro latim da Vulgata e dali pro português das primeiras Bíblias.

Ressalva: a primeira ocorrência escrita de lavar as mãos em português no sentido figurado não foi localizada.

Pôncio Pilatos foi prefeito da Judeia entre os anos 26 e 36, segundo a cronologia que os historiadores montam a partir do historiador judeu Flávio Josefo. É o romano daquele cargo sobre quem mais se escreveu na Antiguidade.

Por muito tempo, os céticos lembravam que o nome dele aparecia quase só em textos cristãos e em Josefo. Em 1961, uma equipe de arqueólogos italianos liderada por Antonio Frova encontrou em Cesareia uma pedra com a inscrição do nome e do cargo.

A pedra de Cesareia

A Pedra de Pilatos, como ficou conhecida, tinha sido reaproveitada como degrau num teatro. O texto latino, parcialmente apagado, cita um edifício dedicado ao imperador Tibério e dá a Pilatos o título de praefectus Iudaeae (prefeito da Judeia). Hoje está no Museu de Israel, em Jerusalém.

Os autores judeus da época pintam um governador duro. Fílon de Alexandria, filósofo que escreveu por volta do ano 41, acusa Pilatos de violência, execuções sem julgamento e desprezo pelos costumes locais. Josefo conta que ele levou à noite estandartes com a imagem do imperador pra dentro de Jerusalém e provocou um protesto de cinco dias.

A queda veio em 36. Pilatos mandou tropas contra uma multidão de samaritanos reunida no monte Gerizim, e o governador da Síria, Vitélio, o destituiu e mandou pra Roma prestar contas ao imperador.

O fim dele não é conhecido. Josefo para a história na viagem pra Roma, e nenhuma fonte da época diz o que aconteceu depois. O historiador cristão Eusébio de Cesareia, escrevendo no século IV, afirma que Pilatos tirou a própria vida, mas sem citar fonte, e os estudiosos tratam a versão como lenda.

As lendas foram muitas e contraditórias. Na Europa medieval, contavam que o corpo dele não afundava em rio nenhum; na Igreja Ortodoxa Etíope, Pilatos e a mulher são venerados como santos, por terem tentado salvar o acusado.

A presença mais duradoura dele está no Credo, a oração que milhões de cristãos recitam todo domingo: padeceu sob Pôncio Pilatos. É o único nome de autoridade da oração, preso pra sempre ao julgamento que ele quis largar na bacia.

“Qual decisão você deixou na bacia esperando que ninguém visse?”

 
 
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Qual dos quatro evangelhos traz a cena de Pilatos lavando as mãos diante da multidão?

AMarcos
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