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Edward Hunter não era um repórter neutro. Durante a Segunda Guerra ele tinha trabalhado no OSS (Escritório de Serviços Estratégicos), o serviço de espionagem americano que deu origem à CIA, na área de propaganda.
A reportagem de setembro de 1950 descrevia as chamadas universidades revolucionárias, onde professores, funcionários e estudantes chineses passavam meses em aulas de doutrina, sessões de crítica em grupo e redação de confissões sobre o próprio passado.
O título do jornal já trazia a palavra nova entre aspas, como quem apresenta um termo estrangeiro:
“'Brain-Washing' Tactics Force Chinese Into Ranks of Communist Party” Edward Hunter, Miami Daily News, 1950 |
Em português, algo como táticas de lavagem cerebral forçam chineses a entrar no Partido Comunista.
A guerra que deu escala à palavra
Hunter ampliou a reportagem num livro, Brain-Washing in Red China (lavagem cerebral na China vermelha), lançado em 1951. O título levou o termo das páginas de um jornal regional pras livrarias do país inteiro.
A Guerra da Coreia fez o resto. Pilotos americanos capturados apareceram em gravações confessando que os Estados Unidos tinham usado armas biológicas, acusação que eles próprios desmentiram ao voltar pra casa.
Quando a troca de prisioneiros terminou, em 1953, 21 soldados americanos se recusaram a voltar e escolheram ficar na China. Pra imprensa dos Estados Unidos, só uma explicação servia: tinham sofrido lavagem cerebral.
O governo comprou a ideia. Em abril de 1953, Allen Dulles, diretor da CIA, falou numa palestra sobre uma guerra pela mente. No mesmo mês, aprovou o MKUltra, programa secreto que testou drogas como o LSD em cidadãos americanos, muitos sem saber, em busca de uma técnica de controle mental.
Hunter seguiu no assunto até o fim da década. Em 1956 publicou Brainwashing: The Story of Men Who Defied It (lavagem cerebral, a história dos homens que a enfrentaram), e em 1958 depôs no Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Deputados, repetindo que a China tinha uma técnica pronta de conversão em massa.
Da reportagem ao cinema
1. Setembro de 1950: o Miami Daily News publica a reportagem de Edward Hunter
2. 1951: sai o livro Brain-Washing in Red China
3. Abril de 1953: Allen Dulles aprova o MKUltra na CIA
4. 1959: Richard Condon lança o romance Sob o Domínio do Mal
5. 1962: o filme de John Frankenheimer leva a história às telas
No romance e no filme, um sargento americano capturado na Coreia volta pra casa programado pra cumprir uma ordem sem lembrar dela. A ficção fixou a versão mais assustadora da expressão: a do hipnotizado que obedece a um comando secreto.
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