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O crocodilo chorão saiu de um livro de viagens do século 14

Um relato assinado por Jean de Mandeville pôs o réptil chorando sobre a presa, e a fala brasileira herdou o nome do choro fingido.

Crocodilo desenhado num bestiário medieval, de boca aberta sobre um homem caído, com gotas no olho do animal.

O réptil chorão do bestiário medieval

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Crocodilo chora mesmo enquanto se alimenta? Chora, e a lágrima não tem nada de arrependimento: é ar empurrado pelos seios da face contra o canal lacrimal enquanto o animal trabalha a mandíbula. Quem mediu a cena foi o zoólogo Kent Vliet, da Universidade da Flórida, com Malcolm Shaner, em estudo publicado na revista Physiological and Biochemical Zoology em 2007: filmados comendo em terra firme, sete dos sete crocodilianos observados lacrimejaram durante a refeição.

A explicação fisiológica chegou seiscentos e cinquenta anos depois da frase. Lágrimas de crocodilo já circulava em português muito antes de alguém apontar uma câmera para a boca de um jacaré, e circulava dizendo o oposto do que a biologia diz: que o bicho chorava de pena da vítima que estava devorando.

O crédito pela cena cabe a um livro de viagens em francês, escrito por volta de 1357 e assinado por um cavaleiro que se apresentava como Jean de Mandeville, de Saint Albans. O relato descreve a ilha de Silha, o nome medieval do Ceilão, atual Sri Lanka, e conta que ali vivem serpentes de água que agarram o homem, o devoram e choram enquanto fazem a refeição. O livro foi o maior sucesso de leitura da Europa antes da imprensa, com mais de duzentos e cinquenta manuscritos sobreviventes em dez línguas, e levou a imagem do réptil chorão da Ásia imaginada para a praça de qualquer cidade europeia.

Na fala brasileira a expressão tem endereço exato: descreve a demonstração de tristeza de quem causou o dano, feita diante de plateia, no momento em que a conta chega. O choro é real como gesto e falso como sentimento, e serve para transferir a atenção da responsabilidade para a comoção.

A faixa a seguir mostra o que a expressão acusa hoje, o teste que separa o choro fingido do arrependimento verdadeiro e as três situações brasileiras em que ela aparece mais.

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I  A Frase de Hoje

O choro de quem causou o estrago

Lágrimas de crocodilo nomeia uma acusação, nunca um consolo. Quem usa a expressão está dizendo que o pranto diante dele foi produzido para consumo externo, e que o mesmo rosto molhado tomou, semanas antes, a decisão que gerou o estrago.

A expressão não julga o choro, julga a mão que assinou. O pranto só vira lágrima de crocodilo quando quem chora é quem causou.

O uso corrente pede três elementos ao mesmo tempo. O primeiro é a autoria: quem chora precisa ter participado da decisão que produziu o dano, por ação ou por omissão consciente. O segundo é a plateia, porque o choro de crocodilo acontece onde há quem veja, em coletiva de imprensa, reunião de condomínio, grupo de família, câmara municipal. O terceiro é a ausência de reparação: a lágrima ocupa o lugar do gesto que custaria dinheiro, cargo ou trabalho.

Existe um teste simples para saber se a expressão cabe. Pergunte o que mudou na conduta de quem chorou nas quarenta e oito horas seguintes ao choro. Se algum valor foi devolvido, corrigido, pago ou interrompido, o pranto tinha lastro e a expressão não se aplica. Se o choro é o único item da lista, a acusação está de pé.

Onde a expressão aparece hoje

O brasileiro reconhece a cena pelo formato, e os formatos se repetem:

• O gestor que lamenta a demissão que ele assinou: o comunicado emocionado sobre o corte de pessoal decidido pelo mesmo executivo que mantém intacto o próprio bônus

• A empresa que lamenta o desastre que a fiscalização dela ignorou: a nota de pesar publicada por quem tinha o laudo de risco na gaveta e escolheu adiar o reparo

• O parente que chora no velório do vínculo que ele rompeu: o choro sentido de quem passou anos sem retornar uma ligação e aparece comovido quando já não existe destinatário

A fala brasileira tem parentes próximos dessa expressão, e cada um cobre outra fatia. Fazer média descreve quem se exibe como bom sem custo nenhum. Fingir demência descreve quem simula não saber. Lágrimas de crocodilo acusa o gesto específico de chorar o prejuízo que a própria mão produziu, o que a torna a mais pesada das três.

 
 

II  De Onde Veio

Silha, no livro de Jean de Mandeville

O livro que espalhou a imagem chama-se, nas cópias mais antigas, Le Livre des merveilles du monde, o Livro das maravilhas do mundo, e circula em português como Viagens de Jean de Mandeville. O texto se apresenta como relato de um cavaleiro inglês que teria partido de Saint Albans em 1322 e percorrido Egito, Terra Santa, Pérsia, Índia e as ilhas do oriente por mais de trinta anos.

A passagem do crocodilo está no capítulo dedicado a Silha. O autor descreve serpentes de água chamadas cockodrills (crocodilos) nos manuscritos ingleses, diz que elas vivem em cavernas durante o inverno, que têm quatro pés e costas cobertas de escamas, e registra que elas comem o homem e choram enquanto o comem.

"Estas serpentes matam os homens, e os comem chorando."

Jean de Mandeville, Viagens de Jean de Mandeville, cerca de 1357

Mandeville não inventou o dado do zero. O bestiário medieval já tratava o crocodilo como animal de duas naturezas, e o enciclopedista inglês Bartolomeu Ânglico, na obra latina De proprietatibus rerum (Sobre as propriedades dos seres), escrita por volta de 1240, registra que o animal chora depois de devorar o homem. A novidade de Mandeville foi o formato: o verbete de enciclopédia em latim para clérigos deu lugar a uma cena de livro de aventura em língua vulgar, lida em voz alta, copiada à exaustão e traduzida para o alemão, o italiano, o espanhol, o tcheco e o irlandês.

O relato mais influente da Europa medieval sobre a Ásia foi provavelmente montado numa biblioteca. A viagem que o livro narra não deixou nenhum rastro documental fora do próprio livro.

O que se sabe do autor, passo a passo

1. nenhum documento inglês do século 14 registra um cavaleiro chamado Jean de Mandeville saindo de Saint Albans na data que o livro declara

2. o texto copia trechos inteiros de outros relatos, entre eles o do frade Odorico de Pordenone, que esteve na Ásia entre 1318 e 1330, e o do dominicano Guilherme de Boldensele, de 1336

3. a crítica moderna trata a obra como compilação feita na Europa, com Liège apontada como cidade provável de redação

4. o nome Jean de Mandeville aparece ligado, em documentos de Liège do século 15, a um médico chamado Jean de Bourgogne, sem prova que feche a identificação

5. nenhuma dessas lacunas reduziu a circulação do livro, que foi consultado como fonte geográfica por leitores como Cristóvão Colombo

O que a pesquisa histórica não sabe merece ser dito com todas as letras. Não há consenso sobre quem escreveu o livro, nem sobre onde ele foi escrito, e nenhum documento confirma ou desmente a existência do cavaleiro. O que se sabe com segurança é o efeito: a imagem do réptil que chora sobre a presa entrou no imaginário europeu pela mão desse texto e nunca mais saiu.

 

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III  Carimbo de Origem

Erasmo, Adagia, 1508

Carimbo: o registro que transformou a cena em provérbio culto está nos Adagia, a coleção de ditados greco-latinos comentados por Erasmo de Roterdã, cuja edição ampliada de 1508 saiu em Veneza pela oficina de Aldo Manúcio. A entrada latina crocodili lacrimae, lágrimas de crocodilo, descreve o pranto de quem se lamenta do mal que praticou.

Rota: do bestiário latino do século 13 para o livro de viagens de 1357, dali para os Adagia de 1508 e para o teatro elisabetano, e daí para as línguas modernas, incluindo o português, onde a frase chegou já pronta, com o sentido de choro falso e sem o crocodilo de carne e osso.

Ressalva: o provérbio grego sobre o choro do crocodilo circulava antes de Mandeville, com registro em autores bizantinos, e Erasmo recolheu essa tradição antiga. O livro de viagens não criou a ideia; criou a popularidade dela fora do círculo dos letrados.

No teatro inglês a imagem virou recurso pronto. Shakespeare a usa em Henrique VI, parte 2, escrita por volta de 1591, quando compara o duque de Gloucester ao crocodilo que atrai o viajante com falso pesar, e volta a ela em Otelo, de 1604, quando o protagonista chama de crocodilo a mulher que chora diante dele. Em três décadas a expressão já servia para acusar personagem em cena, sem que ninguém precisasse explicar o bicho.

As duas leituras da expressão

A leitura fácil usa a frase como xingamento. Basta discordar de quem chora para chamar o choro de falso, e o resultado é uma acusação que dispensa prova e envenena qualquer conversa sobre perda real.

A leitura útil funciona como ferramenta de verificação. Ela pede a linha do tempo: quem decidiu, quando decidiu, o que sabia na hora de decidir e o que fez depois do choro. Aplicada assim, a expressão deixa de ser insulto e vira pergunta de auditoria, respondida com datas e documentos, nunca com impressão.

A lágrima de crocodilo tem lastro biológico e nenhum lastro moral: o bicho lacrimeja por pressão de ar, e o humano que a imita lacrimeja por plateia.

O detalhe mais irônico do caso é que a ciência acabou dando razão à metade errada da história. O crocodilo chora de verdade, como Kent Vliet filmou em 2007, e continua sem sentir absolutamente nada pela presa. A expressão nasceu de uma observação correta amarrada a uma explicação falsa, e sobreviveu porque a explicação falsa descrevia com precisão um comportamento humano que nenhuma palavra melhor cobria.

Amanhã: a expressão queimar os navios, e o comandante que mandou destruir a própria frota para tirar do exército a opção de voltar.

"De quem foi a assinatura que produziu o estrago que você viu alguém chorar?"

 
 
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Quiz da edição

Segundo o estudo de Kent Vliet e Malcolm Shaner, o que realmente produz a lágrima do crocodilo enquanto ele devora a presa?

AReação alérgica à carne da presa
BGlândulas de sal liberando excesso de sódio
CAr empurrado pelos seios da face contra o canal lacrimal enquanto mastiga
DEstresse do animal diante das câmeras de filmagem

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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