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Gol de placa: o bronze que Pelé ganhou no Maracanã em 1961

Pelé driblou meio Fluminense, nenhuma câmera gravou o lance e um repórter mandou fundir uma placa. A expressão nasceu do bronze.

Pelé de camisa branca do Santos dribla um zagueiro do Fluminense no gramado do Maracanã lotado em 1961.

A placa de bronze do Maracanã, 1961

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Por que um gol bonito ganha o nome de gol de placa? Porque um deles ganhou uma placa real, de bronze, pregada na parede do Maracanã em 1961.

O jogo foi numa tarde de domingo, 5 de março de 1961, pelo Torneio Rio-São Paulo, a competição que juntava os grandes clubes das duas cidades antes de existir campeonato nacional. O Santos visitava o Fluminense no maior estádio do país.

O Santos venceu por 3 a 1. O placar ninguém guardou. Guardaram um lance só, o gol em que Pelé, então com 20 anos, pegou a bola ainda no campo de defesa do Santos e foi deixando adversários pelo caminho até tocar na saída do goleiro.

Os relatos não batem na conta dos dribles. Uns falam em seis jogadores do Fluminense, outros em sete, outros em quase o time inteiro. A diferença tem explicação: nenhuma câmera de televisão filmou o lance, e o que sobrou foi a memória de quem estava na arquibancada e na tribuna de imprensa.

Na tribuna estava Joelmir Beting, repórter de 24 anos do jornal paulista O Esporte. Ele achou que o gol merecia mais que uma linha na página do dia seguinte e teve uma ideia que nenhum jornalista tinha tido no Brasil: homenagear um gol com um objeto que durasse.

Joelmir mandou fundir uma placa de bronze com a data e a descrição do lance e conseguiu que ela fosse fixada no Maracanã. Um gol que não existia em filme passou a existir em metal.

A imprensa esportiva gostou da história e começou a usar a imagem. Todo gol fora do comum virou um gol digno de placa, depois só gol de placa. A frase saiu do Maracanã, entrou nas transmissões de rádio e chegou à conversa de quem nunca viu futebol.

Mais abaixo, o que a expressão quer dizer hoje, quem foram os dois homens por trás da placa e o caminho que levou um pedaço de bronze ao dicionário.

Continue lendo ↓

 
 

I  A frase de hoje

O elogio que vale pra qualquer ofício

Gol de placa, no português do Brasil, é o gol de rara beleza, aquele que merece ser lembrado por anos. Fora do campo, a expressão vale pra qualquer feito bem executado, que ganha aplauso de quem viu.

Gol de placa é o elogio que pede monumento: o feito foi tão bom que não basta comentar, tem que deixar registrado.

No futebol, a frase separa o gol comum do gol que entra pra história. Um chute de longe no ângulo, um drible no goleiro, uma jogada que atravessa o campo inteiro: o narrador grita gol e o comentarista completa que foi gol de placa.

Fora do estádio, a frase serve pro advogado que vence a causa com um argumento que ninguém previu, pra cozinheira que acerta o prato na primeira tentativa, pro vendedor que fecha o contrato mais difícil do ano.

O tom é quase sempre de elogio sincero. A expressão raramente aparece com ironia, porque carrega uma ideia de mérito: ninguém ganha placa por sorte. Quem diz que algo foi gol de placa reconhece trabalho e talento, e não acaso.

Como a frase aparece na conversa

A estrutura é simples e aceita poucas variações:

• Foi um gol de placa: o uso mais comum, dito sobre um lance ou um feito que acabou de acontecer

• Fez um gol de placa: com o sujeito na frente, pra dar o crédito a uma pessoa

• Digno de placa: a forma curta, que dispensa a palavra gol e serve pra qualquer assunto

A forma curta é a prova de que a expressão ganhou vida própria. Digno de placa já não precisa de bola nem de campo. Basta a ideia de um feito tão bom que alguém poderia gravar em metal.

Na fala de escritório, a expressão costuma vir com nome e sobrenome. Diz-se que a apresentação da Marina foi um gol de placa, que o acordo fechado pelo diretor foi um gol de placa. O elogio fica mais forte porque aponta quem fez.

O parente mais próximo é golaço, o aumentativo de gol. Golaço fala da beleza do lance. Gol de placa vai além: fala do lance que merece memória, do tipo que se conta pros netos.

 
 

II  De onde veio

O repórter que fundiu o próprio elogio

Joelmir Beting nasceu em Tambaú, no interior de São Paulo, em 1936, filho de família humilde. Antes do jornalismo, trabalhou na roça e como boia-fria (o trabalhador rural contratado por dia, que leva a marmita pro campo e come a comida fria).

Chegou ao jornalismo pela crônica esportiva. Em 1961 cobria futebol pro O Esporte, jornal de São Paulo dedicado só a esportes, e foi assim que estava no Maracanã naquele domingo, longe da própria cidade.

O gol de Pelé o tirou do papel de quem só descreve. Joelmir decidiu que o lance precisava de prova física e bancou a ideia: encomendou a placa de bronze, com o texto que registrava o gol mais bonito já marcado no estádio.

A placa foi aceita pela administração do Maracanã e fixada no estádio. Foi a primeira vez no Brasil que um gol ganhou monumento, e a notícia da homenagem se espalhou mais rápido que a do placar.

O texto do bronze não falava em gol de placa. A placa descrevia o lance e a data. Quem juntou as duas palavras foi a própria imprensa, nos dias seguintes, ao contar a história da homenagem.

Pelé, nascido Edson Arantes do Nascimento em Três Corações, Minas Gerais, em 1940, já era campeão do mundo pela Seleção desde a Copa da Suécia, em 1958. Mesmo assim, a placa virou parte da lenda dele, porque marcava um lance que ninguém mais podia rever.

Do lance à expressão

1. 5 de março de 1961: Pelé marca contra o Fluminense, no Maracanã, pelo Torneio Rio-São Paulo

2. Dias depois: Joelmir Beting manda fundir a placa de bronze e ela é fixada no estádio

3. Anos 1960: a imprensa esportiva passa a chamar todo gol excepcional de gol de placa

4. Décadas seguintes: a expressão sai do futebol e passa a elogiar qualquer feito bem executado

Joelmir não ficou no esporte. A partir dos anos 1970, virou o jornalista de economia mais conhecido do país, com coluna em jornal e comentário diário na televisão, explicando inflação e juros pra quem nunca tinha lido um balanço.

O homem que explicou a economia pro Brasil começou batizando um gol.

Ele trabalhou até 2012, ano em que saiu de cena aos 75 anos. Em entrevistas ao longo da carreira, contava a história da placa com orgulho, como a reportagem que mais tinha durado.

 

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III  Carimbo de origem

Do bronze do Maracanã ao dicionário

Carimbo: a expressão nasce em 1961, no Rio de Janeiro, a partir da placa de bronze que Joelmir Beting mandou fixar no Maracanã depois do gol de Pelé contra o Fluminense.

Rota: do bronze na parede do estádio pras páginas de esporte, das páginas pras narrações de rádio e televisão, e das narrações pra conversa de escritório, de cozinha e de sala de aula.

Ressalva: o lance não foi filmado, e o número exato de jogadores driblados por Pelé segue sem confirmação; as versões variam entre seis e quase o time inteiro.

A ausência de imagem é parte do motivo pelo qual a expressão pegou. Um gol filmado se revê e se discute. Um gol sem filme vira relato, e o relato cresce a cada vez que alguém o conta.

Os jogadores do Fluminense em campo naquela tarde também viraram parte do relato. Por décadas, ex-atletas do clube contaram em entrevistas que tinham sido driblados, e a lista de vítimas cresceu com o tempo, o que só reforça o quanto a memória substituiu o filme.

A placa resolvia o problema da prova. Quem duvidava do lance podia ir ao Maracanã e ler o bronze. O objeto fazia o papel que a câmera não tinha feito.

A placa que virou plural

O português adotou o termo como unidade de medida. Os jornais passaram a falar no gol de placa da rodada, e os próprios clubes copiaram a ideia: outros estádios ganharam placas pra lances memoráveis de seus jogadores.

O próprio Pelé ganhou outras homenagens em metal ao longo da carreira, mas a de 1961 ficou como a original. É dela que vem a imagem que o brasileiro usa sem pensar.

A expressão também atravessou a fronteira do esporte com facilidade porque o objeto é universal. Toda cidade tem placa de bronze em praça, em prédio público, em inauguração. O brasileiro entende de primeira que placa quer dizer algo que merece ficar.

Os dicionários brasileiros registram a locução com o sentido figurado, de feito notável em qualquer área. A entrada costuma vir marcada como uso informal do Brasil, porque nasceu de um episódio do futebol brasileiro e não tem equivalente direto no português de Portugal.

Hoje, o bronze original segue ligado à memória do Maracanã, e a frase vive longe dele. Quem diz que um colega fez um gol de placa na reunião repete, sem saber, o gesto de um repórter de 24 anos que não quis deixar um gol ser esquecido.

“Qual foi o último gol de placa que você viu alguém fazer fora do campo?”

 
 
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Qual foi o placar do jogo entre Fluminense e Santos no Maracanã, em 5 de março de 1961?

A2 a 1 para o Santos
B3 a 1 para o Santos
C3 a 1 para o Fluminense
D4 a 2 para o Santos

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