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Fazer a América: o plano que desembarcava no Brás

Italianos cruzavam o oceano pra enriquecer em São Paulo. O primeiro endereço era um casarão que registrou mais de 2,5 milhões de chegadas.

Família de imigrantes italianos com malas de madeira no pátio de um casarão de tijolo, trem parado junto ao prédio.

Recém-chegados no pátio da Hospedaria do Brás

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O que queria dizer fazer a América? Queria dizer atravessar o Atlântico pobre, juntar dinheiro no Novo Mundo e voltar pra aldeia com terra comprada e casa de pedra. Pra dezenas de milhares de famílias italianas do fim do século 19, o Novo Mundo tinha um endereço exato: São Paulo.

A viagem começava no cais de Gênova ou de Nápoles. Famílias inteiras subiam no vapor com uma mala de madeira, um colchão enrolado e o nome de um parente escrito num papel. A travessia até o porto de Santos levava semanas, a terceira classe ia apertada no porão e o enjoo não poupava criança nem avô.

Em Santos ninguém ficava. O imigrante descia do navio, passava pela alfândega e embarcava num trem que subia a serra rumo à capital. O vagão parava num ramal particular, na porta de um prédio de tijolo no bairro do Brás.

Ali funcionava a Hospedaria de Imigrantes, aberta em 1887 pelo governo da província de São Paulo. O recém-chegado ganhava cama, comida, vacina e um número de registro. Segundo o Museu da Imigração do Estado de São Paulo, que hoje ocupa o prédio, a casa recebeu mais de 2,5 milhões de pessoas antes de fechar as portas em 1978.

O plano da riqueza rápida esbarrava logo no primeiro pátio. Do lado de dentro, esperavam agentes dos fazendeiros de café, que precisavam de braço pra lavoura depois da abolição da escravatura, em 1888. O contrato era assinado ali mesmo, e a família seguia de trem pro interior.

Muitos nunca voltaram pra Itália. Uns por falta de dinheiro, outros porque o dinheiro veio em forma de sítio, de armazém ou de fábrica no próprio Brás. A América foi feita, só que em outro lugar do mapa que o plano previa.

Logo abaixo, o sentido que a expressão guarda na fala, o caminho do imigrante dentro da Hospedaria e o destino da frase depois que os navios pararam de chegar.

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I  A frase de hoje

O bilhete só de ida pra riqueza

Fazer a América, no português do Brasil, é partir pra longe atrás de fortuna, com o plano de enriquecer depressa e voltar por cima. A expressão veio no bolso dos imigrantes italianos, que diziam fare l'America (fazer a América, em italiano) pra falar da viagem que mudaria a vida da família.

Fazer a América prometia ida e volta, mas quem embarcava levava quase sempre uma passagem só.

Hoje a frase circula com um sorriso de canto. Serve pro primo que foi trabalhar em Portugal jurando voltar em dois anos, pro jogador de futebol que assina com um clube do Japão e pro amigo que largou o emprego pra abrir negócio em Miami.

O tom mudou com o tempo. Na boca do avô italiano, a frase carregava esperança e medo. Na conversa de hoje, carrega também ironia: quem diz que foi fazer a América às vezes está avisando que o plano deu errado e a volta ainda não tem data.

A expressão também virou medida de sucesso nas famílias de descendentes. Tio que fez a América é o que voltou pra visitar a aldeia de carro alugado e terno novo. Tio que não fez é o que ficou na lavoura, e ninguém toca muito no assunto no almoço de domingo.

Irmãs em outras línguas

A mesma ideia atravessou o oceano em vários idiomas, cada um com o seu sotaque:

• Fare l'America: o original italiano, dito nas aldeias do Vêneto, da Lombardia e da Calábria por quem juntava papel pra embarcar

• Hacer la América: a versão espanhola (fazer a América), usada por galegos e asturianos que partiam pra Buenos Aires, Havana e Montevidéu

• Torna-viagem: o termo português pro emigrante que voltava rico do Brasil pra Portugal, chamado lá simplesmente de brasileiro

As três falam do mesmo sonho, mas só a portuguesa nomeia quem de fato voltou. As versões italiana e espanhola ficam no verbo, no plano, na promessa. O idioma guardou a partida com mais cuidado que o retorno, talvez porque a partida era o que todo mundo via.

Quem usa a expressão hoje, então, fala de uma aposta. Fazer a América é trocar o conhecido pelo possível, com data de volta marcada e bilhete que quase nunca se usa.

 
 

II  De onde veio

O casarão com trilho na porta

A Hospedaria de Imigrantes do Brás nasceu de um problema dos cafeicultores paulistas. Com a escravidão perto do fim, eles precisavam de gente pra colher café, e o governo da província de São Paulo passou a pagar a passagem de famílias europeias que aceitassem trabalhar nas fazendas.

Em 1886, fazendeiros como Martinho Prado Júnior fundaram a Sociedade Promotora de Imigração, entidade privada que fazia propaganda na Itália e fretava navios. Um ano depois, a Hospedaria abriu na Rua Visconde de Parnaíba, colada à linha do trem, pra receber quem chegava.

O prédio foi desenhado como uma pequena cidade. Tinha dormitórios, refeitório, enfermaria, cozinha, lavanderia, posto de câmbio e agência de trabalho. O trem entrava pelo ramal e parava dentro do terreno, e o imigrante só saía pro bairro com contrato no bolso.

Os italianos eram maioria no começo, mas a casa recebeu gente de mais de 70 nacionalidades, segundo o Museu da Imigração do Estado de São Paulo: espanhóis, portugueses, japoneses, lituanos, sírios. Nas últimas décadas, recebeu também brasileiros vindos do Nordeste e de Minas Gerais atrás de emprego na capital.

A canção que embalava a travessia foi escrita no Vêneto. Angelo Giusti publicou em 1875 os versos de La Mèrica, cantados pelos emigrantes no porão dos navios e ainda hoje nas festas da Serra Gaúcha:

"Mèrica, Mèrica, Mèrica, cossa saràla 'sta Mèrica?" (América, América, América, o que será essa América?)

Angelo Giusti, La Mèrica, 1875

A pergunta da canção tinha resposta dura. Na fazenda, a família entrava no regime de colonato: cuidava de um número fixo de pés de café, recebia por eles e ganhava um pedaço de chão pra plantar milho e feijão. As dívidas com o armazém do patrão comiam boa parte do ganho.

A América que o imigrante vinha fazer era, na prática, a lavoura de café de outra pessoa.

O caminho dentro da Hospedaria

1. Desembarque no porto de Santos e inspeção dos documentos na alfândega

2. Subida da serra de trem até o ramal particular no Brás

3. Registro no livro de entrada, exame médico e vacina

4. Dias de pouso com cama e refeição, enquanto a agência de trabalho procurava fazenda

5. Assinatura do contrato e embarque no trem pro interior paulista

A estadia era curta, mas o registro ficava. Cada família ganhava uma linha no livro com nome, idade, cidade de origem, navio e fazenda de destino. Erros de grafia eram comuns, porque o funcionário escrevia o sobrenome como ouvia, e muita família paulista carrega até hoje uma letra trocada que nasceu naquele balcão.

Os livros de registro sobreviveram. Hoje estão no acervo do Museu da Imigração, e descendentes consultam os nomes dos bisavós pra montar a árvore da família e pedir a cidadania italiana.

 

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III  Carimbo de origem

Do cais de Gênova ao Museu da Mooca

Carimbo: a expressão fazer a América chegou ao português do Brasil como tradução direta de fare l'America, trazida pelos imigrantes italianos que desembarcaram a partir das décadas de 1870 e 1880.

Rota: da aldeia italiana pro porão do navio, do navio pra Hospedaria do Brás, da Hospedaria pro cafezal e do cafezal pra conversa de família nos bairros paulistanos do Brás, da Mooca e do Bexiga.

Ressalva: ninguém sabe quem disse a frase primeiro, nem em que ano ela apareceu escrita em português. Ela circulou de boca em boca entre imigrantes antes de entrar em jornal, e o primeiro registro impresso não foi identificado.

A própria Itália ajudou a frear o sonho. Em 1902, o governo italiano baixou o Decreto Prinetti, batizado com o nome do ministro Giulio Prinetti, que proibiu a viagem subsidiada pro Brasil depois de denúncias de maus-tratos nas fazendas de café. Quem quisesse vir precisava pagar a própria passagem.

A Hospedaria continuou aberta por mais de setenta anos, com outros públicos. Recebeu japoneses a partir de 1908, refugiados europeus depois da Segunda Guerra e, por fim, migrantes brasileiros. Em 1978 encerrou a função de alojamento.

O prédio que virou memória

O casarão foi tombado e, em 1993, passou a abrigar o Memorial do Imigrante. Depois de uma reforma longa, reabriu em 2014 como Museu da Imigração do Estado de São Paulo, no mesmo endereço da Rua Visconde de Parnaíba, hoje contado como parte da Mooca.

O museu preserva os dormitórios, os livros de entrada e um trecho do trilho por onde chegava o trem. Aos fins de semana, uma maria-fumaça antiga ainda faz passeios curtos pelo ramal, levando visitantes pelo mesmo caminho dos recém-chegados.

A expressão prometia riqueza do outro lado do mar; o que ficou de pé foi o prédio onde o plano mudava de rumo.

A frase sobreviveu à Hospedaria porque o desejo por trás dela nunca fechou as portas. Hoje o movimento corre no sentido contrário: netos e bisnetos dos que desembarcaram no Brás fazem fila em consulado pra tirar passaporte italiano e tentar a vida na Europa.

"Na sua família, quem embarcou pra fazer a América, e o que achou quando chegou?"

 
 
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Segundo o texto, em que ano a Hospedaria de Imigrantes abriu as portas no bairro do Brás?

A1875, ano da canção La Mèrica
B1887, ano da abertura da Hospedaria
C1886, ano da fundação da Sociedade Promotora de Imigração
D1888, ano da abolição da escravatura

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