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Efeito borboleta: a asa no Brasil e o tornado no Texas
Em 1972, Edward Lorenz levou a Washington uma pergunta sobre uma borboleta brasileira e mudou a previsão do tempo.
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Uma asa no Brasil, uma nuvem no Texas
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A borboleta do efeito borboleta estava mesmo no Brasil? Estava, e quem a pôs aqui nem foi o cientista que ficou com a fama. O meteorologista americano Edward Lorenz, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), subiu ao palco em Washington em 29 de dezembro de 1972 com um título que outra pessoa tinha escrito por ele. O evento era o encontro anual da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência), a maior reunião científica dos Estados Unidos. Lorenz tinha aceitado falar numa sessão sobre previsão do tempo, mas deixou passar o prazo para mandar o título da palestra. O organizador da sessão, o meteorologista Philip Merilees, resolveu o atraso sozinho. Escreveu no programa impresso uma pergunta longa: se o bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas. Lorenz leu o próprio título já pronto e topou. Até ali, o bicho das palestras de Lorenz era outro. Nos textos de 1963, ele falava de uma gaivota, ave de praia, grande e barulhenta. A troca pelo inseto deixou a imagem mais delicada e mais absurda, e foi por ela que a frase grudou. O Brasil entrou de carona. Merilees nunca registrou em documento da sessão por que escolheu o país; a leitura mais aceita entre os historiadores da meteorologia é a da distância, um ponto do hemisfério sul contra um estado do norte, milhares de quilômetros de ar em movimento pelo caminho. A resposta que Lorenz deu à própria pergunta surpreende quem conhece só a frase. Ele não afirmou que a borboleta causa o tornado. Disse que, se um bater de asas pudesse gerar uma tempestade, poderia com a mesma facilidade impedir outra, e que a previsão de longo prazo fica presa nessa incerteza. A primeira faixa mostra como o brasileiro usa a expressão hoje, das conversas de bar às teorias de família, e onde o uso se afasta da ideia de Lorenz.
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I A Frase de Hoje
A asa pequena e a consequência grande
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Efeito borboleta, no português do Brasil, serve para dizer que um gesto miúdo desencadeou um desfecho enorme. A pessoa perde o ônibus, chega atrasada à entrevista, conhece no elevador quem virou sócio dela. Na hora de contar a história, ela resume em duas palavras.
A expressão liga uma causa pequena a um efeito desproporcional, com uma corrente de passos que ninguém consegue prever na largada. |
O uso preciso tem três peças. Há um ponto de partida quase invisível, há uma sequência de consequências encadeadas e há um resultado final muito maior que a origem. Tirando a corrente do meio, sobra apenas coincidência.
A língua tem vizinhas dessa ideia. Por causa de um prego perdeu-se a ferradura vem de um provérbio antigo que acaba com um reino perdido. Grão a grão a galinha enche o papo fala de acúmulo lento, sem salto. Bola de neve descreve algo que cresce rolando, mas cresce à vista de todos. Efeito borboleta é a única da família que insiste na imprevisibilidade.
Onde a expressão aparece hoje
No Brasil, ela surge em três cenários frequentes:
• A história pessoal contada de trás para frente: o casamento que começou numa carona aceita por acaso, anos antes
• A notícia econômica: a alta de juros num país distante que encarece a parcela do carro em Belo Horizonte
• O cinema: o filme americano Efeito Borboleta, de 2004, em que o personagem de Ashton Kutcher volta ao passado e cada ajuste mínimo estraga o presente
Há também o uso torto. Muita gente fala em efeito borboleta para culpar um detalhe específico por um desastre, como se desse para apontar a asa responsável. Lorenz dizia o contrário: num sistema assim, ninguém consegue isolar a asa culpada, porque milhões de outras batem ao mesmo tempo.
Outro desvio é usar a expressão como promessa de poder. Frases de autoajuda garantem que um pequeno hábito vai mudar a vida inteira. A ideia de Lorenz aponta para a direção oposta: o gesto pequeno pode mudar tudo, mas ninguém sabe para que lado.
Um teste curto separa o uso bom do exagero. Pergunte qual foi o gesto inicial, que passos o ligam ao desfecho e se alguém poderia ter previsto a sequência na largada. Se a resposta final for sim, trata-se de planejamento, e a borboleta pode voltar para o jardim.
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II De Onde Veio
Três casas decimais que sumiram
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A história começa em 1961, numa sala do MIT, diante de um computador Royal McBee LGP-30, máquina do tamanho de uma escrivaninha. Edward Norton Lorenz rodava nele um modelo simplificado da atmosfera, com doze equações que imitavam ventos e temperaturas.
Num dia de inverno, ele quis rever um trecho da simulação. Para poupar tempo, recomeçou o cálculo pelo meio, digitando os números que a impressora tinha registrado na rodada anterior. Depois saiu para tomar um café.
Quando voltou, uma hora depois, a previsão nova já não se parecia com a antiga. As duas começavam iguais, afastavam-se aos poucos e, alguns meses de tempo simulado adiante, descreviam climas sem relação nenhuma.
A diferença inteira estava em três casas decimais que a impressora tinha cortado para economizar papel. |
A memória do computador guardava seis casas, como 0,506127. A folha impressa mostrava só três, como 0,506. Lorenz tinha digitado o número arredondado, achando que um erro de um décimo de milésimo não mudaria nada. Mudou tudo.
Do café ao artigo, passo a passo
1. Lorenz roda o modelo do tempo no LGP-30 e imprime os resultados com três casas decimais
2. Recomeça a simulação pelo meio usando o número impresso, já arredondado
3. Encontra, depois do café, duas previsões que divergem até perder qualquer semelhança
4. Publica a descoberta em 1963, no Journal of the Atmospheric Sciences, com o título Deterministic Nonperiodic Flow (fluxo determinista não periódico)
O título do artigo de 1963 guarda a ideia central. Determinista quer dizer que o sistema segue regras fixas, sem sorteio. Não periódico quer dizer que ele nunca se repete. Juntas, as duas palavras descrevem o que depois ganhou o apelido de caos determinístico (comportamento imprevisível que nasce de regras perfeitamente conhecidas).
No mesmo ano, num texto para a Academia de Ciências de Nova York, Lorenz usou pela primeira vez uma ave para explicar o achado:
"One meteorologist remarked that if the theory were correct, one flap of a sea gull's wings would be enough to alter the course of the weather forever." Edward Lorenz, Transactions of the New York Academy of Sciences, 1963 |
Em português: um meteorologista comentou que, se a teoria estivesse certa, um só bater de asas de uma gaivota bastaria para alterar o curso do tempo para sempre.
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