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O registro mais influente da prática está num tratado persa. Ibn Sina, o Avicena das traduções latinas, terminou o Cânone da Medicina por volta de 1025 e recomendou revestir com folha de ouro ou de prata as pílulas cujo sabor o doente não suportava.
O procedimento era manual e delicado. O boticário colocava as pílulas ainda úmidas numa caixa forrada com folhas do metal, sacudia a caixa com movimento circular, e o atrito fazia a lâmina aderir à superfície pegajosa até a esfera ficar espelhada por inteiro.
O material vinha do mesmo fornecedor dos douradores de retábulo. A folha de ouro batida chega a espessuras de décimos de micrômetro, vende-se em livrinhos com dezenas de folhas separadas por papel, e uma quantidade pequena rende centenas de pílulas revestidas.
A farmácia medieval europeia recebeu a receita pelas traduções árabe-latinas feitas em Toledo e pela escola de Salerno, e o inventário das boticas passou a registrar as pilulae aureae, as pílulas douradas, ao lado das pilulae argenteae, as prateadas.
"Dourar a pílula: cobrir com palavras brandas o que se tem de dizer de desagradável." Rafael Bluteau, Vocabulario Portuguez e Latino · Coimbra, 1712 |
A metáfora nasce dessa cena e não de nenhuma outra. Quem via o boticário trabalhar entendia na hora a lógica: a superfície bonita não muda o conteúdo, e o interesse do metal está justamente em fazer passar aquilo que passaria com dificuldade.
O caminho da bancada até a frase feita
1. Avicena registra o revestimento com ouro e prata no Cânone da Medicina, por volta de 1025
2. as traduções latinas de Toledo e a escola de Salerno levam o procedimento às boticas europeias
3. a botica passa a vender pilulae aureae e pilulae argenteae como itens de catálogo
4. a língua comum pega o gesto emprestado e forma dorer la pilule, to gild the pill, dourar a pílula
5. o revestimento de açúcar e a cápsula de gelatina aposentam o metal no século 19, e só a frase continua em uso
O francês fixou o formato que a Europa copiou. Dorer la pilule entrou no vocabulário corrente com o sentido figurado, o inglês montou to gild the pill e to sugar the pill sobre o mesmo esqueleto, e o português recebeu a construção pronta, com o verbo e o objeto no lugar.
Duas invenções encerraram a carreira do metal. O farmacêutico francês Mothes patenteou em Paris, em 1834, a cápsula de gelatina que envolve o remédio numa casca sem gosto, e o americano William Warner desenvolveu na Filadélfia, na década de 1860, o revestimento de açúcar aplicado em panela giratória.
O ouro saiu da farmácia e ficou na língua. Nenhum falante que usa a expressão hoje sabe que está descrevendo um procedimento de bancada, e a frase funciona perfeitamente sem esse conhecimento.
O açúcar herdou a função e herdou também a metáfora. O inglês usa sugar-coated para descrever verdade adocicada, o português diz que alguém adoçou o recado, e a mesma lógica de revestimento continua produzindo expressão nova conforme a farmácia troca de material.
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