|
João Batista Viana Drummond loteou o terreno que virou o bairro de Vila Isabel e abriu ali um jardim zoológico em 1888. O parque tinha bichos trazidos de fora, restaurante, coreto e um público que dependia do bonde para chegar.
Com a mudança de regime no ano seguinte, o apoio oficial acabou. A visitação caiu, a manutenção continuou cara e o barão precisava de um motivo para as pessoas voltarem ao portão.
O motivo estreou em 3 de julho de 1892. Cada ingresso passou a trazer no verso a figura de um dos vinte e cinco animais do parque, e um quadro coberto guardava o bicho sorteado do dia.
A revelação acontecia no fim da tarde, diante de quem estivesse por ali. O portador do ingresso premiado levava vinte mil réis, vinte vezes o preço da entrada, pago na hora pelo próprio zoológico.
A lista era fechada e todo mundo decorou. Avestruz, águia, burro, borboleta, cachorro, cabra, carneiro, camelo, cobra, coelho, cavalo, elefante, galo, gato, jacaré, leão, macaco, porco, pavão, peru, touro, tigre, urso, veado e vaca.
Os bichos de fora do Brasil entraram sem problema. Camelo, elefante, leão, tigre e urso estão na lista desde o começo, o que derruba a explicação fácil de que a zebra ficou de fora por ser animal estrangeiro.
O sucesso passou do portão em poucos meses. Vendedores começaram a oferecer o bilhete na rua para quem não queria entrar no parque, o apostador passou a escolher o próprio bicho e o zoológico virou detalhe do negócio.
A escolha mudou tudo, menos o tamanho da lista. A partir do momento em que o apostador podia pedir o animal, pedir zebra era pedir um resultado que a banca não tinha como pagar.
Depois vieram os números. Cada bicho ganhou uma posição de 1 a 25 e quatro dezenas, de modo que as cem dezenas do sorteio couberam em vinte e cinco grupos de quatro, arranjo que continua em uso.
O verbo da casa também é da casa. O resultado do dia sempre foi anunciado no mesmo formato, deu coelho, deu galo, deu no poste, e a fórmula é a mesma que sobrou na expressão de hoje.
O jogo saiu do zoológico e virou caso de polícia antes do fim daquela década. Em 1944, um decreto federal descreveu a prática com nome próprio e a transformou em contravenção penal, artigo que segue valendo.
|
"Realizar o denominado jogo do bicho, em que um dos participantes entrega certa quantia com a indicação de combinação de algarismos ou nome de animal, a que correspondem números."
Decreto-Lei 6.259 · Artigo 58, 1944
|
Repare no que a lei precisou dizer para definir a contravenção. O nome do animal corresponde a um número, e só existe aposta onde existe correspondência, o que deixa de fora qualquer bicho sem número.
Nenhuma banca do país aceitou zebra em mais de um século. O animal não tem grupo, não tem dezena e não pode ser sorteado, e é exatamente por não poder sair que ele virou o nome do resultado que ninguém esperava.
|