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ED 011

Deu zebra nasceu no sorteio do zoológico de Vila Isabel

Em 1892, o zoológico de Vila Isabel passou a sortear um dos 25 animais impressos nos ingressos, e a zebra nunca entrou na lista.

Quadro coberto por um pano no portão do Jardim Zoológico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, ao lado do ingresso com a figura de um bicho impressa no verso.

O quadro do bicho sorteado no portão do zoológico

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No portão do Jardim Zoológico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, um quadro amanhecia coberto por um pano. Atrás do pano estava a figura de um bicho, escolhida antes da abertura, e ninguém do lado de fora sabia qual era.

O ingresso custava mil réis e trazia no verso a imagem de um dos vinte e cinco animais da casa. O visitante não escolhia nada, o bicho vinha impresso no papel, entrava com ele no parque e ficava no bolso até o fim da tarde.

O pano só saía no fim do dia, e a espera fazia parte do negócio. Quem comprava o ingresso de manhã ganhava um motivo para ficar no parque até a hora da revelação.

Quando o pano saía, o quadro mostrava o animal do dia. Quem tivesse o mesmo bicho no ingresso recebia vinte mil réis, vinte vezes o valor pago na entrada.

A ideia era do barão de Drummond, dono do terreno onde o parque tinha aberto em 1888. Com a queda do Império, o zoológico perdeu o apoio oficial, a visitação caiu e a bilheteria parou de cobrir a ração dos animais.

O primeiro sorteio saiu em 3 de julho de 1892. Em poucas semanas a fila voltou ao portão, e o parque que vendia passeio passou a vender expectativa.

A lista de bichos era fechada e nunca mudou de tamanho. Vinte e cinco animais, do avestruz à vaca, cada um com a própria figura, e todo resultado possível cabia dentro dela.

De fora ficou um bicho que o brasileiro repete todo domingo sem lembrar de onde ele veio. Quando o favorito cai, ninguém diz que deu urso, que deu peru ou que deu jacaré.

A palavra que sobrou para o resultado improvável é justamente a do animal que a banca não podia sortear, e ela continua sendo dita em mesa de bar, em apuração de eleição e em pregão de bolsa.

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I  A Frase de Hoje

O azarão que ninguém tinha na cartela

Duas palavras que nasceram de um bicho fora da lista.

O time que vinha de onze jogos sem perder entrou em campo contra o lanterna da tabela e saiu de lá com um a zero contra. No bar, o homem que tinha preenchido o bolão na véspera olhou para o papel rasurado e disse duas palavras: deu zebra.

Ele não estava reclamando do placar. Estava dizendo que o resultado ficou fora da lista de resultados que ele considerava possíveis quando preencheu o papel.

A expressão exige três coisas antes de caber na frase. Primeiro, um favorito apontado antes do apito. Segundo, um resultado fora da previsão. Terceiro, alguém que tinha apostado no óbvio, com dinheiro ou com opinião dita em voz alta.

Faltando o favorito, não existe zebra, existe apenas resultado. Um jogo entre dois times parelhos pode terminar de qualquer jeito sem que ninguém use a palavra.

A frase também não serve para qualquer decepção. Quem perde a carteira não deu zebra, quem chega atrasado não deu zebra, porque falta o favorito e falta a aposta.

Deu ruim mede o tamanho do estrago. Deu zebra mede a distância entre o que estava dado como certo e o que apareceu no placar.

As vizinhas de sentido mostram o tamanho da diferença. Virada descreve o que aconteceu dentro do jogo, com o placar invertido no segundo tempo, e nada tem a ver com quem era favorito.

Azar é a sorte contra uma pessoa. Zebra é a previsão contra o placar, e a previsão tinha dono, tinha data e às vezes tinha dinheiro em cima.

A palavra também mudou de classe com o tempo. Virou substantivo, e a zebra do campeonato é o time pequeno que derrubou o grande, rótulo que serve igual para o candidato sem partido forte e para a empresa miúda que ganhou a licitação.

O diminutivo apareceu junto. Zebrinha é o azarão que ainda não venceu, o time pequeno que cai na chave do campeão e ganha torcida de gente que não torce para ele.

O ponto de vista está embutido na frase. O mesmo resultado é zebra para quem errou e façanha para quem venceu, e por causa dessa origem ninguém chama a própria vitória de zebra sem uma ponta de ironia.

Hoje a cena tem endereços novos e o mesmo desenho. É a apuração que inverte na última urna, a licitação que a favorita perde, o concurso em que o nome cotado fica fora da lista final.

Duas palavras bastam porque a cena é reconhecível na hora: alguém apontou o vencedor antes da hora, e o que veio não estava entre as opções que a mesa aceitava.

 
 

II  De Onde Veio

O zoológico que virou casa de aposta

João Batista Viana Drummond loteou o terreno que virou o bairro de Vila Isabel e abriu ali um jardim zoológico em 1888. O parque tinha bichos trazidos de fora, restaurante, coreto e um público que dependia do bonde para chegar.

Com a mudança de regime no ano seguinte, o apoio oficial acabou. A visitação caiu, a manutenção continuou cara e o barão precisava de um motivo para as pessoas voltarem ao portão.

O motivo estreou em 3 de julho de 1892. Cada ingresso passou a trazer no verso a figura de um dos vinte e cinco animais do parque, e um quadro coberto guardava o bicho sorteado do dia.

A revelação acontecia no fim da tarde, diante de quem estivesse por ali. O portador do ingresso premiado levava vinte mil réis, vinte vezes o preço da entrada, pago na hora pelo próprio zoológico.

A lista era fechada e todo mundo decorou. Avestruz, águia, burro, borboleta, cachorro, cabra, carneiro, camelo, cobra, coelho, cavalo, elefante, galo, gato, jacaré, leão, macaco, porco, pavão, peru, touro, tigre, urso, veado e vaca.

Os bichos de fora do Brasil entraram sem problema. Camelo, elefante, leão, tigre e urso estão na lista desde o começo, o que derruba a explicação fácil de que a zebra ficou de fora por ser animal estrangeiro.

O sucesso passou do portão em poucos meses. Vendedores começaram a oferecer o bilhete na rua para quem não queria entrar no parque, o apostador passou a escolher o próprio bicho e o zoológico virou detalhe do negócio.

A escolha mudou tudo, menos o tamanho da lista. A partir do momento em que o apostador podia pedir o animal, pedir zebra era pedir um resultado que a banca não tinha como pagar.

Depois vieram os números. Cada bicho ganhou uma posição de 1 a 25 e quatro dezenas, de modo que as cem dezenas do sorteio couberam em vinte e cinco grupos de quatro, arranjo que continua em uso.

O verbo da casa também é da casa. O resultado do dia sempre foi anunciado no mesmo formato, deu coelho, deu galo, deu no poste, e a fórmula é a mesma que sobrou na expressão de hoje.

O jogo saiu do zoológico e virou caso de polícia antes do fim daquela década. Em 1944, um decreto federal descreveu a prática com nome próprio e a transformou em contravenção penal, artigo que segue valendo.

"Realizar o denominado jogo do bicho, em que um dos participantes entrega certa quantia com a indicação de combinação de algarismos ou nome de animal, a que correspondem números."

Decreto-Lei 6.259 · Artigo 58, 1944

Repare no que a lei precisou dizer para definir a contravenção. O nome do animal corresponde a um número, e só existe aposta onde existe correspondência, o que deixa de fora qualquer bicho sem número.

Nenhuma banca do país aceitou zebra em mais de um século. O animal não tem grupo, não tem dezena e não pode ser sorteado, e é exatamente por não poder sair que ele virou o nome do resultado que ninguém esperava.

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III  Carimbo de Origem

Rio de Janeiro, 1892, lista fechada de 25 bichos

Carimbo: Rio de Janeiro, 1892, sorteio de bicho no Jardim Zoológico de Vila Isabel, lista fechada de vinte e cinco animais. A expressão nasce do único resultado que a lista não comportava, e chega ao português como o nome do resultado que contraria a previsão.

Rota: de aposta de portão a jargão de arquibancada. Foi mecanismo de bilheteria, virou jogo de rua, entrou na imprensa esportiva como medida da surpresa e hoje aparece em apuração de eleição, em licitação e em pregão de bolsa.

Ressalva: nenhum documento de 1892 registra um apostador pedindo zebra na banca. A ligação entre o bicho ausente e o resultado improvável aparece por escrito só no século 20, e o salto aconteceu na fala, não no papel.

A parte verificável está no procedimento e nas datas. O zoológico, o ingresso com figura, o prêmio de vinte por um, a lista de vinte e cinco grupos e o texto do decreto existem e estão publicados.

Roberto DaMatta e Elena Soárez trataram a aposta como objeto de estudo em "Águias, burros e borboletas", de 1999, e o livro segue sendo a referência de quem quer ver o jogo como sistema, e não como folclore.

A origem concorrente é esportiva e tem nome próprio. A atribuição mais repetida entrega a frase a um técnico de futebol carioca dos anos 1960, dita na beira do campo depois da derrota de um favorito.

A cena do futebol explica a popularização, não o nascimento. Quem falou a frase primeiro precisava de um público que já soubesse de cor quais bichos podiam sair, e esse público veio da rua, não da arquibancada.

A loteria esportiva, que estreou em 1970, terminou o serviço. Com cartelas vendidas em todo o país, o brasileiro passou a chamar de zebra o resultado que quebrava o bolão da semana inteira.

O argumento mais forte a favor do jogo do bicho está na gramática. Nenhum outro assunto do português usa deu seguido de nome de animal, e a fórmula só faz sentido para quem já ouviu o resultado de um sorteio ser anunciado assim.

A segunda explicação em circulação diz que a zebra representa o exótico, o bicho que o brasileiro não vê na rua. Ela daria conta da estranheza, e a expressão não fala de estranheza, fala de resultado.

Nenhum escrivão anotou a manhã em que o bicho de fora da lista virou palavra de resultado. A frase é o único lugar do país onde a zebra pode ser sorteada.

Quando a palavra sair na próxima rodada, na próxima apuração ou na próxima licitação, o carimbo é sempre o mesmo: portão de zoológico no Rio, um quadro coberto por um pano e uma lista de vinte e cinco bichos que nunca teve zebra.

"Qual resultado você deu como certo em voz alta, antes de o placar vir de fora da sua lista?"

 
 
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No sorteio diário do Jardim Zoológico de Vila Isabel, quanto recebia quem tivesse no ingresso o bicho sorteado?

ADez mil réis, dez vezes o valor da entrada
BCinquenta mil réis, cinquenta vezes o valor da entrada
CVinte mil réis, vinte vezes o valor da entrada
DCem mil réis, cem vezes o valor da entrada

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