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Dar com os burros n'água: o rio levava a carga da tropa

No caminho até Sorocaba, a mula que perdia o pé no vau afogava a carga e o lucro inteiro do tropeiro.

Tropa de mulas com bruacas de couro atravessando um rio raso.

Tropa de mulas cruzando o vau

▼
 

Por que plano fracassado vira dar com os burros n'água? Porque no Brasil das tropas, o burro que caía no rio levava junto a carga, e a carga era o dinheiro da viagem inteira.

Pense na margem de um rio do planalto do Paraná, no século 18. A tropa chega em fila, dezenas de mulas uma atrás da outra, cada uma com duas bruacas (sacos de couro cru) penduradas dos dois lados do lombo.

Não havia ponte. O tropeiro procurava o vau, trecho raso onde o animal atravessa com as patas tocando o fundo. Em tempo seco, a água batia na barriga da mula. Depois de uma chuva na cabeceira, o mesmo vau virava correnteza.

O peso jogava contra o bicho. Uma carga cheia passava de cem quilos, e couro encharcado pesa ainda mais. Quando a mula perdia o pé, as bruacas molhadas puxavam para baixo, e o animal raramente conseguia se livrar delas sozinho.

À frente de tudo ia a égua madrinha, com um cincerro (sino de pescoço) que as mulas seguiam de ouvido. Se ela entrava firme, a fila vinha atrás. Se refugava na correnteza, a tropa inteira se embolava no meio do rio.

Na outra margem, o patrão contava animais e volumes. Sal, toucinho, ferragem e pano que afundavam não voltavam, e a mula afogada também não. O prejuízo caía todo sobre quem tinha bancado a viagem.

As tropas do Sul tinham destino certo: a feira de Sorocaba, no interior paulista, que rodou até 1897. Ali o tropeiro vendia os animais e acertava as contas da jornada. Um rio mal atravessado no caminho podia apagar o ganho de meses.

A frase saiu da beira do rio e chegou à conversa de escritório. A primeira faixa mostra como ela se usa hoje e o que a separa de um erro qualquer.

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I  A frase de hoje

Quando o plano afunda

Dar com os burros n'água, no português do Brasil, quer dizer fracassar num empreendimento e perder o que se investiu nele. Vale para negócio que quebra, viagem que dá errado, reforma que estoura e acordo que desanda na última hora.

Dar com os burros n'água é perder a carga inteira, não só a viagem.

Três traços sustentam a expressão. Houve um plano, houve esforço e dinheiro posto nele, e o resultado foi a perda. Sem os três, a frase soa exagerada.

Errar o caminho de casa não é dar com os burros n'água. Abrir uma loja, gastar a reserva no estoque e fechar as portas em seis meses é. A diferença está no que afundou junto: tempo, crédito e capital.

Onde a expressão aparece

O uso se espalha por quatro cenários:

• No negócio: a lanchonete aberta com a rescisão que fecha antes do primeiro aniversário

• Na política: a candidatura lançada com festa que não chega ao segundo turno

• Na casa: a obra feita sem projeto que precisa ser derrubada e refeita

• No futebol: o técnico contratado como salvador e demitido antes do returno

Nos quatro casos, a pessoa entrou confiante e saiu mais pobre do que entrou. A expressão aponta para o momento em que a perda fica visível, quando já não há como voltar à margem de partida.

Conjugação e grafia

O verbo flexiona livremente: deu com os burros n'água, demos com os burros n'água, vai dar com os burros n'água. O resto fica fixo, sempre no plural e sempre com burros, mesmo que a tropa original fosse quase toda de mulas.

A grafia n'água junta a preposição em, o artigo a e o substantivo água, com apóstrofo marcando a vogal engolida. A forma por extenso, dar com os burros na água, também é correta e aparece em textos mais formais.

Burro, no falar dos tropeiros, servia para o animal de carga em geral, macho ou fêmea, jumento ou mula. A palavra ficou na frase porque era a mais curta e a mais ouvida no pouso, o acampamento onde a tropa dormia.

Os primos da frase

O português tem outras imagens de naufrágio para o mesmo fracasso. Ir por água abaixo fala do plano levado pela correnteza. Afundar o barco pede um barco que nenhuma tropa tinha.

Bater na trave é outra família: quase deu certo, faltou pouco. Dar com os burros n'água não admite quase. A carga foi para o fundo do rio, e o tropeiro voltou de mãos vazias.

 
 

II  De onde veio

A trilha das mulas até Sorocaba

A trilha que deu origem à frase foi aberta nos anos 1730 pelo tropeiro português Cristóvão Pereira de Abreu. Ligava os campos de Viamão, perto de onde hoje fica Porto Alegre, ao planalto paulista, cortando a serra, as matas de araucária e os campos de Lages e de Curitiba.

Pelo caminho subiam as mulas criadas nos pastos do Sul e da região do rio da Prata. A mula, cruza de jumento com égua, aguentava mais peso e terreno ruim do que o cavalo, e era o único transporte capaz de vencer as serras do interior.

Por que Sorocaba

O ouro de Minas Gerais criou a demanda. As minas precisavam de animais para levar comida, ferramenta e minério por trilhas íngremes, e o mercado de mulas cresceu junto com a mineração ao longo do século 18.

Sorocaba ficava no ponto em que o caminho do Sul encontrava as estradas para São Paulo, Minas e o Rio de Janeiro. A Coroa portuguesa instalou ali, em meados do século 18, um registro para cobrar imposto sobre cada animal que passava.

Em volta do posto fiscal nasceu a feira. Compradores de várias capitanias chegavam para escolher mulas, ferreiros e seleiros abriam oficina, e a vila vivia em função da temporada das tropas.

Na feira de Sorocaba, a mula era moeda, e o rio era o cobrador do caminho.

Os rios do caminho

A rota cruzava o rio Pelotas, o rio Canoas, o rio Negro e o Iguaçu, além de dezenas de arroios sem ponte. Cada travessia exigia achar o passo, palavra que os tropeiros usavam para o vau.

O termo ficou no mapa do Sul. Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, leva o registro de uma travessia funda num rio da região, e muitos lugares da antiga rota guardam a palavra passo na placa da cidade.

As mulas xucras (ainda não domadas) desciam em manada para a venda. As tropas arreadas, já domadas e com cangalha, levavam a carga que abastecia as vilas do trajeto e trazia mercadoria na volta. Para ambas, o rio cheio era o trecho mais caro da viagem.

O que encerrou a feira

A ferrovia tirou o serviço das mulas. A Estrada de Ferro Sorocabana chegou à cidade em 1875, e os trilhos foram cobrindo os trechos em que a tropa reinava. Carga que levava semanas no lombo passou a viajar em dias no vagão.

A feira perdeu compradores ano a ano e fez sua última temporada em 1897. O tropeirismo ainda sobreviveu em rotas sem trilho, mas o grande mercado de muares do Brasil fechou as portas ali.

 

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III  Carimbo de origem

Do vau ao dicionário

Expressão: dar com os burros n'água

Sentido: fracassar e perder o investido

Origem: tropeirismo, séculos 18 e 19

Ressalva: sem primeiro registro escrito datado

A ressalva pesa. Os tropeiros eram gente de fala, não de escrita, e as frases do pouso circularam de boca em boca durante gerações antes de qualquer cronista anotar uma delas. Por esse silêncio dos papéis, ninguém sabe dizer em que ano a expressão nasceu.

A explicação concorrente

Existe uma segunda versão popular. Nela, o burro teimoso empaca no meio do rio, deita na água e molha a carga de propósito, e o dono perde a mercadoria por birra do animal.

As duas versões chegam ao mesmo lugar: a carga molhada e o prejuízo do dono. A diferença está na culpa. Na primeira, quem derruba a tropa é a correnteza; na segunda, o próprio bicho. Os dicionários registram o sentido sem escolher entre elas.

A carga molhada é o centro da frase, seja a culpa do rio ou da mula.

Da tropa ao dicionário

Os grandes dicionários brasileiros, como o Houaiss e o Aurélio, registram a locução com o sentido de fracassar ou sair-se mal num empreendimento. A forma de entrada costuma ser dar com os burros n'água, já com o apóstrofo.

O folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo dedicou a vida a frases desse tipo e reuniu dezenas delas em Locuções Tradicionais no Brasil, de 1970. O livro mostra como o vocabulário do campo e da lida com animais abastece o português falado nas cidades.

O que a tropa deixou

O tropeirismo deixou mais do que uma frase. O feijão tropeiro, misturado com farinha, toucinho e ovo, nasceu da comida que aguentava dias na bruaca sem estragar.

Cidades inteiras do Paraná e de Santa Catarina surgiram de antigos pousos de tropa. Castro, nos Campos Gerais paranaenses, mantém o Museu do Tropeiro, com cangalhas, bruacas e cincerros da época das travessias.

Sorocaba guarda a memória da feira como parte da própria identidade, e o caminho de Viamão virou roteiro turístico em trechos do Sul. A expressão segue viva onde ninguém nunca viu uma tropa: no escritório, na obra e na mesa de bar.

“Qual plano seu deu com os burros n'água, e o que afundou junto?”

★ RARO

🔒

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