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Carimbo: Rubico, a forma latina do riacho, chega até nós por Suetônio, por Plutarco e pelo poeta Lucano, que narrou a travessia na Farsália, poema épico escrito por volta do ano 65.
Rota: do latim Rubico (ligado a rubeus, avermelhado, pela cor da água barrenta) pro italiano Rubicone e pro português Rubicão.
Ressalva: a primeira ocorrência escrita de cruzar o Rubicão em português não foi localizada.
O problema é que o riacho sumiu do mapa. Após a queda de Roma, a planície da Romanha passou séculos sendo drenada, canalizada e redesenhada por enchentes, e os cursos d'água entre Ravena e Rimini mudaram de leito várias vezes.
Lucano já tratava o Rubicão como fio d'água modesto, que nasce no Apenino e corre pro Adriático. A descrição servia pra vários riachos da região, e ninguém registrou um marco fixo na margem. Na Idade Média, os documentos da região citavam rios com nomes locais, sem relação com a fonte latina.
A disputa dos três riachos
Na passagem pro Renascimento, pelo menos três cursos d'água disputavam o título: o Pisciatello, o Uso e o Fiumicino. Cada um tinha cidades defensoras e eruditos com mapas antigos na mão.
Os argumentos misturavam as distâncias citadas pelos autores antigos, ruínas de pontes romanas e até a cor da água, já que a forma latina sugere um rio avermelhado.
O Fiumicino tinha a seu favor a posição. Corre junto à cidade de Savignano, na linha da Via Emília (a estrada romana que ligava Rimini a Piacenza), e conserva ali uma ponte da época romana.
Em 1933, o governo fascista de Benito Mussolini encerrou a briga por decreto. O Fiumicino ganhou oficialmente o título de Rubicone, e a cidade de Savignano di Romagna virou Savignano sul Rubicone. O regime cultivava a imagem de herdeiro de Roma, e ter o riacho de César no mapa servia à propaganda.
O decreto resolveu a placa, não a história. Arqueólogos e geógrafos continuam sem prova definitiva de qual leito César atravessou, porque o leito de 49 antes de Cristo pode nem existir mais, apagado pelas mudanças de curso. O que se sabe com segurança é o trecho: entre Ravena e Rimini, perto da costa.
Hoje o Rubicone é um curso d'água estreito, que no verão quase seca. Em Savignano, uma estátua de César perto da ponte romana marca o lugar que a cidade reivindica, e a expressão segue correndo bem mais longe que o riacho.
“Que Rubicão você ainda está olhando da margem?”
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