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A frase chega com certidão, o que é raro em provérbio popular. Quase todo ditado surge sem autor e sem data; este aparece por escrito num texto cristão do fim da Antiguidade, e o próprio autor avisa na mesma linha que a frase já era velha quando ele a pegou emprestada.
São Jerônimo passou a vida traduzindo e comentando as Escrituras, e a versão latina que ele produziu virou o texto bíblico padrão do Ocidente por mais de mil anos. Comentários e prefácios saíam de sua pena em série, muitos deles escritos para responder a quem o criticava por escrito.
Por volta do ano 400, ao abrir o comentário à Epístola aos Efésios, ele encarou logo de cara os leitores que apontavam pressa e imperfeição no trabalho. A defesa não foi técnica. Foi comercial: o comentário circulava sem cobrança, e quem recebe de graça está em outra posição para reclamar do acabamento.
A formulação que ele usou é quase a nossa, palavra por palavra. Ele chama a frase de provérbio vulgar, expressão que no latim da época significava corrente, de uso comum, sabida por qualquer pessoa da rua.
"Não olhes, como diz o provérbio vulgar, os dentes do cavalo dado." São Jerônimo, prefácio do comentário à Epístola aos Efésios, por volta do ano 400 |
A etiqueta que ele colou na própria citação muda a datação da frase. Chamar o ditado de vulgar significa admitir que ele o encontrou pronto, circulando na boca do povo, o que empurra a origem para um tempo anterior ao texto que primeiro o registrou.
Do prefácio latino até a mesa de jantar
1. o comércio de cavalos consagra o exame da boca como prova de idade do animal e ferramenta de barganha na feira
2. a frase já corre solta na fala latina comum, sem autor conhecido, antes de qualquer registro escrito
3. São Jerônimo a cita por volta do ano 400 no prefácio do comentário aos Efésios e a classifica como provérbio vulgar
4. John Heywood registra a versão inglesa em 1546, na coletânea de provérbios que reuniu para a língua inglesa
5. o ditado se acomoda nas línguas românicas e chega ao português na forma curta que a gente repete até hoje
A travessia entre as línguas conservou a cena inteira, e não apenas a moral dela. Cada idioma escolheu seu verbo para o gesto, olhar, examinar, mirar, mas todos mantiveram a boca do animal no centro da imagem, porque a boca era onde a informação ficava guardada.
A força do provérbio vem do gesto físico que ele descreve. Ninguém precisa saber latim para sentir a grosseria de abrir a boca de um animal recebido de presente na frente de quem acabou de entregar as rédeas. |
A escolha do cavalo também não foi decorativa. Cavalo era patrimônio, meio de transporte e ferramenta de trabalho ao mesmo tempo, e ganhar um de graça colocava quem recebia numa dívida social que nenhuma inspeção de dentes conseguiria quitar.
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