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ED 005

Casa da mãe Joana nasceu de um estatuto em Avinhão

Em 1348 uma rainha de 22 anos chegou a Avinhão precisando de absolvição, e a casa pública da cidade tinha regulamento com o nome dela.

Uma porta de madeira entreaberta na fachada de pedra de uma casa medieval de Avinhão, com o pergaminho do regulamento pregado ao lado do batente.

A porta que o estatuto mandava manter aberta

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Em março de 1348, uma rainha de 22 anos entrou em Avinhão para ser julgada. Tinha saído de Nápoles em janeiro, com o exército húngaro atravessando o reino atrás dela, e foi parar na cidade onde o papa despachava havia quase quatro décadas.

Avinhão não era terra da Igreja por herança. A cidade pertencia aos condes de Provença, e a Provença era dela. Joana I acumulava dois títulos, rainha de Nápoles e condessa de Provença, e o chão onde a cúria trabalhava tinha dona.

O título vinha de longe na família. A Provença entrara na casa de Anjou no século 13 e passou de herdeiro em herdeiro até cair nas mãos de uma menina coroada aos 17 anos, em 1343.

A cidade que a recebeu estava em colapso. A peste tinha chegado em janeiro, os cemitérios pararam de dar conta, o papa consagrou as águas do Ródano para servir de sepultura, e as ruas continuavam cheias de peregrino, funcionário de cúria e tropa de passagem.

Em 9 de junho de 1348, a rainha assinou a venda de Avinhão ao papa Clemente VI por 80 mil florins. Ela precisava de dinheiro para retomar Nápoles, ele precisava da cidade em que já morava, e o processo contra ela terminou em absolvição no mesmo ano.

Um segundo documento leva o nome dela e teve vida muito mais longa que a escritura de venda. É o estatuto da casa pública de Avinhão, com uma abadessa no comando, vistoria semanal, fechamento na semana santa e um artigo curto sobre a porta da frente.

A porta, dizia o texto, ficava aberta a quem chegasse. Uma casa com regulamento assinado por rainha, funcionando dentro da cidade do papa, com a entrada franqueada por escrito a qualquer um que subisse os degraus.

Seis séculos depois, aquela casa reaparece em português, na boca de quem acabou de perder o controle de uma sala. E ela quase nunca é dita para descrever. É dita para negar.

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I  A Frase de Hoje

A frase que só existe no negativo

Quatro palavras que quase sempre chegam com uma negativa colada na frente.

O supervisor volta de quinze dias de férias e encontra a escala trocada. Alguém cedeu o turno da noite para o cunhado, alguém trocou a folga com o vizinho de bancada, e a planilha na parede está riscada a caneta em quatro cores.

Ele nem tira a mochila do ombro. A frase sai antes do café, ainda na altura da porta, e a fábrica inteira sabe qual é: aqui não é casa da mãe Joana.

Você já ouviu a frase este ano, provavelmente sem nunca ter parado para perguntar quem era Joana.

Repare no formato em que ela aparece. Quase sempre vem com uma negativa colada na frente, dita por quem sentiu a autoridade escorregar. Não é elogio, não é diagnóstico frio, é aviso de dono.

São três ingredientes, e faltando um a frase não fecha. Primeiro, um espaço com dono declarado: empresa, sala de aula, casa, repartição. Segundo, uma regra que deveria valer ali dentro. Terceiro, gente circulando como se a regra não existisse.

Por causa do primeiro ingrediente, praça pública nunca vira casa da mãe Joana. Sem dono, não há de quem a autoridade tenha escapado, e a frase perde o alvo.

A frase não acusa bagunça. Acusa uma porta que tinha dono e virou passagem, com o dono ainda dentro da casa.

Compare com as vizinhas de sentido, que parecem cobrir o mesmo terreno e não cobrem. Zorra descreve o estado da desordem e não diz de quem era o comando. Bagunça serve para quarto de adolescente e para plenário de congresso.

Terra de ninguém aponta um lugar sem dono nenhum, e o desenho aqui é o contrário: a casa tem dona, tem regulamento e tem porta. Casa da sogra fala de abuso de hospitalidade, não de regra descumprida.

Casa da mãe Joana é a única que nomeia um endereço no lugar de um comportamento. Um imóvel específico, com regra escrita na parede e entrada franqueada a quem aparecesse.

Hoje o endereço mudou e a planta é a mesma. É o grupo de mensagens do trabalho em que qualquer um adiciona qualquer um, a pasta compartilhada com permissão de edição para a empresa inteira, o estoque cuja chave vive no bolso de quem chegar primeiro.

Em todos os casos a sequência se repete: primeiro alguém abre a porta por conveniência, depois ninguém assume o fechamento, e no fim aparece um responsável dizendo em voz alta que ali tem dono.

O brasileiro entende as quatro palavras sem explicação porque a cena acontece em escritório, em condomínio, em escola e em repartição, no país inteiro, toda semana.

E quase ninguém lembra que a casa teve endereço real, ficou de pé dentro da cidade dos papas e recebeu regulamento com selo de rainha.

 
 

II  De Onde Veio

A rainha que vendeu a própria cidade

Avinhão era cidade pequena antes dos papas. Vivia de rio e de passagem, contava poucos milhares de moradores e não pesava quase nada na Provença, governada de longe pela casa de Anjou.

A virada veio em 1309, quando o papa Clemente V se instalou ali e a cúria foi atrás. Em meio século a população saltou para algo perto de trinta mil pessoas, com cardeal e séquito, banqueiro, copista, advogado, soldado, peregrino e requerente de processo.

Era uma cidade de homens de passagem, longe da família e com dinheiro no bolso. Nenhuma administração da época tratava a prostituição como assunto pequeno num lugar assim.

As cidades do sul da França responderam com a mesma engenharia. Em vez de proibir, cercaram: criaram casa pública de endereço fixo, com muro, horário e fiscal, e proibiram o ofício em qualquer outro ponto da cidade.

Avinhão teve a sua, e é dela que o português tirou o nome. A casa ficava em quarteirão delimitado, funcionava sob regulamento e respondia à autoridade da cidade, que naquele momento era a condessa de Provença.

O apelido de mãe não vinha de parentesco. Quem chefiava casa daquele tipo recebia tratamento de mãe, e o próprio estatuto punha uma abadessa no comando, com vocabulário de convento aplicado a um endereço bem diferente.

O texto que circula com o nome de Joana I detalha a rotina inteira. A abadessa comanda, um cirurgião faz vistoria semanal ao lado dela, a porta fecha na Sexta-feira Santa e nos dias de festa de guarda, e quem quebra a regra responde perante a cidade.

E há o artigo que atravessou os séculos. A casa teria uma porta, e a porta ficaria aberta a quem chegasse, sem escolha de rosto, de bolso nem de procedência.

"Fonte de dor, morada de ira, escola de erros e templo de heresia, outrora Roma, agora Babilônia falsa e má, por quem tanto se chora e se suspira."

Francesco Petrarca · Canzoniere, soneto 138, c. 1350

O poeta escrevia sobre a corte papal instalada na cidade, não sobre a casa da rainha, e a fama que ele ajudou a fixar acabou colando nas duas.

Em português, o endereço entrou pela porta da frente do vocabulário. Paço era palácio, e a casa regulamentada de Avinhão virou paço da mãe Joana nas conversas de Portugal, dita com o tom de quem cita lugar conhecido.

Quando a palavra paço saiu do uso diário, a frase trocou de móvel e ficou casa. No Brasil a versão com casa venceu sem disputa, e o resto do enunciado seguiu inteiro, com nome próprio e tudo.

Junto com a troca de palavra veio o alargamento do sentido. A frase deixou de nomear um imóvel de Avinhão e passou a nomear qualquer ambiente onde a entrada não é filtrada e a ordem não é cobrada de ninguém.

O que a língua guardou não foi a rainha, nem a cidade, nem o pecado. Foi a porta que o regulamento mandava deixar aberta.

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III  Carimbo de Origem

Avinhão, cidade dos papas, século 14

Carimbo: Europa medieval, Avinhão sob a corte dos papas, meados do século 14. A expressão nasce do nome de uma casa pública regulamentada na cidade que pertencia a Joana I, rainha de Nápoles e condessa de Provença, e chega ao português como apelido de lugar sem comando.

Rota: de endereço a diagnóstico. Foi nome de imóvel com estatuto, virou paço da mãe Joana em Portugal, virou casa da mãe Joana no Brasil e terminou como sentença sobre escritório, sala de aula e família, dita sem citar Avinhão nem século.

Ressalva: a assinatura da rainha no estatuto não fecha. O texto que circula está datado de 1347 e localizado em Avinhão, e em 1347 Joana ainda governava de Nápoles: ela só cruzou os portões da cidade papal em março de 1348.

O calendário não é detalhe pequeno. Quem estuda os bordéis municipais do sul da França trata o regulamento atribuído a ela como camada posterior, escrita depois e pendurada num nome forte.

A parte estrutural, ao contrário, está bem documentada. Jacques Rossiaud, em "A Prostituição na Idade Média" (Paz e Terra, 1991), descreve a política das cidades do sul da França: casa pública com endereço, muro e fiscal, mantida pela própria administração municipal.

No Brasil o registro da frase é antigo e tem endereço de biblioteca. Luís da Câmara Cascudo recolheu a locução em "Locuções Tradicionais no Brasil" (1970), com a forma portuguesa paço da mãe Joana e a atribuição à rainha de Nápoles.

Há ainda quem puxe por outro fio, sem passar por Avinhão. Joana é nome curinga do português popular, o feminino de João nas fórmulas de gente qualquer, e uma casa de ninguém batizada com nome de ninguém dispensaria rainha para existir.

Duas pontas distantes, o mesmo gesto. Dar nome de dona a um lugar que funciona como se não tivesse nenhuma.

Vale separar o que está no arquivo do que corre de boca em boca. A soberania de Joana sobre Avinhão, a venda de 1348 por 80 mil florins, o processo diante da cúria e a absolvição estão em documento, com data e valor.

A assinatura dela no regulamento da casa não está. Ela aparece em crônica, em dicionário de expressões, em coluna de jornal e em aula de história, sempre contada como coisa que todo mundo sabe e ninguém foi conferir na fonte.

A rainha pode nunca ter posto a pena naquele artigo. A frase carregou o nome dela por seis séculos e chegou inteira à sua boca.

Quando a frase sair na próxima reunião ou na sala em que ninguém decidiu quem fecha a porta, o carimbo é sempre o mesmo: cidade dos papas, casa com abadessa e vistoria, e uma rainha de 22 anos vendendo Avinhão para pagar a volta ao trono.

"Qual porta da sua rotina está aberta só porque ninguém decidiu de quem ela é?"

 
 
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