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A carta de corso nasceu de uma necessidade dos reis europeus da Idade Média: fazer guerra no mar sem pagar uma marinha inteira. Desde o século XIII, monarcas da Inglaterra, da França e da península Ibérica concediam a particulares as cartas de marca, autorizações para recuperar à força bens tomados por estrangeiros.
A carta de marca começou como vingança privada com regra. O mercador roubado por um navio genovês, por exemplo, recebia licença para tomar de volta o valor em qualquer barco genovês que encontrasse. Com o tempo, a licença deixou de depender de roubo anterior e passou a valer para a guerra inteira.
A palavra corso
Corso vem do latim “cursus” (corrida, percurso), pelo italiano “corsa”, a corrida atrás da presa no mar. O corsário era quem fazia essa corrida com autorização. Pirata tem outra raiz: o grego “peiratés” (o que tenta, o que assalta), ligado ao verbo de tentar a sorte num ataque.
As duas palavras chegaram ao português com sentidos separados. Uma nomeava um ofício com regras e contrato; a outra, um crime punido com a forca.
Como funcionava em Portugal
Em Portugal, a carta saía em nome do rei e era registrada antes da partida. O armador apresentava o navio, a tripulação e um fiador (a pessoa que garantia pagar os danos se o corsário atacasse quem não devia). Sem fiança, sem carta.
A carta também tinha prazo e alvo. Valia enquanto durasse a guerra contra a nação nomeada no papel, e perdia o efeito no dia em que a paz fosse assinada. O capitão que seguisse atacando depois da paz já não era corsário.
No mar, o corsário só podia atacar navios das nações em guerra com o reino. Tomada a presa, ele punha a bordo uma tripulação sua e a levava ao porto. Ali, os juízes ouviam o capitão capturado, liam os papéis da carga e decidiam se a presa era boa, o termo técnico para captura legal.
Declarada boa a presa, a Coroa recebia a sua parte e o resto era repartido entre armador, capitão e marinheiros. Declarada má, o corsário devolvia o navio e pagava o prejuízo com a fiança.
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A carta transformava o saque em serviço prestado ao rei.
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O corsário que cobrou o Rio de Janeiro
Os portugueses também sofreram com corsários alheios. Em 1711, o francês René Duguay-Trouin, corsário de Saint-Malo a serviço do rei Luís XIV, entrou na baía de Guanabara com uma esquadra, ocupou o Rio de Janeiro e só partiu depois de receber um resgate em ouro, açúcar e gado.
Para a França, Duguay-Trouin era herói: o rei já o tinha feito nobre em 1709 e depois lhe deu postos de comando na marinha real. Para os moradores do Rio, era o homem que saqueou a cidade. A carta de corso decidia o título de cada lado da mesma história.
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