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David Ronald de Mey Warren nasceu em 1925 em Groote Eylandt, ilha do norte da Austrália onde o pai era missionário. Em 1934, o pai embarcou no Miss Hobart, um avião de passageiros que sumiu sobre o estreito de Bass, entre o continente e a Tasmânia. Os destroços nunca explicaram a queda.
O menino virou químico. Nos anos 1950, trabalhava no Aeronautical Research Laboratories (Laboratórios de Pesquisa Aeronáutica), órgão do governo australiano em Melbourne, especializado em combustível de avião.
Foi aí que o Comet entrou na história. O de Havilland Comet, britânico, foi o primeiro jato comercial do mundo e começou a voar com passageiros em 1952. No começo de 1954, um Comet caiu no mar perto da ilha de Elba, na Itália. Em abril, outro caiu perto de Nápoles. Não havia sobrevivente nem testemunha.
A ideia do gravador
Warren foi chamado a uma reunião técnica sobre os acidentes, por entender de combustível. A discussão girava em hipóteses sem prova. Ele lembrou de um gravador de bolso alemão, o Minifon, que tinha visto numa feira, e pensou no óbvio: se a cabine tivesse um gravador, alguém saberia o que os pilotos viram e disseram.
Em 1954, escreveu um relatório com um título seco: A Device for Assisting Investigation into Aircraft Accidents (um aparelho para ajudar a investigar acidentes aéreos). A proposta juntava a voz da cabine às leituras dos instrumentos.
Warren queria a bordo uma testemunha que não pudesse se calar nem esquecer. |
A resposta foi fria. A força aérea australiana achou o aparelho pouco útil, e associações de pilotos rejeitaram a ideia de ter cada palavra gravada. Warren continuou quase por conta própria e, em 1958, apresentou o protótipo ARL Flight Memory Unit (unidade de memória de voo do laboratório). O aparelho gravava em fio de aço as últimas quatro horas de voz e de dados, apagando o trecho mais antigo.
O desfecho dos dois lados
O Comet teve a causa descoberta sem o gravador. O Royal Aircraft Establishment, centro de pesquisa britânico, mergulhou uma fuselagem inteira num tanque de água e pressurizou o casco milhares de vezes. Apareceu a fadiga do metal (o enfraquecimento por esforço repetido) nos cantos das aberturas da fuselagem.
O gravador achou caminho pela Inglaterra. Em 1958, Sir Robert Hardingham, secretário do Air Registration Board, o órgão britânico de certificação de aviões, visitou o laboratório, levou Warren a Londres e abriu as portas da indústria. A firma S. Davall & Sons fabricou uma versão comercial, apelidada de Red Egg (ovo vermelho).
Na Austrália, a virada veio com um acidente. Em 1960, um Fokker F27 da Trans Australia Airlines caiu no mar perto de Mackay, em Queensland, e o inquérito não achou a causa. O juiz recomendou gravadores a bordo, e o país passou a exigir o aparelho nos voos comerciais, entre os primeiros do mundo. Warren viveu até 2010 e recebeu a Ordem da Austrália em 2002.
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