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Hesíodo conta a história duas vezes, em dois poemas diferentes, e as duas versões cabem numa fábula sobre o preço do fogo roubado. Prometeu leva o fogo aos homens, Zeus responde mandando fabricar uma mulher, e a mulher chega ao mundo dos mortais acompanhada de um recipiente.
O nome dela explica o presente. Pandora significa a que recebeu todos os dons, porque cada divindade contribuiu com uma qualidade na hora de modelá-la: a beleza, a habilidade com o tear, a fala persuasiva. O jarro veio junto, e a ordem era manter a tampa no lugar.
Em Trabalhos e Dias, a palavra que Hesíodo usa para o recipiente é pithos. O termo aparece em outros trechos do mesmo poema com sentido doméstico corriqueiro, ligado à colheita e ao vinho guardado, o que descarta qualquer leitura de objeto mágico ou de cofre.
"Mas a mulher, tirando com as mãos a grande tampa do jarro, espalhou os males e preparou aflições aos homens. Só a Esperança ficou lá dentro, na morada inquebrável, sob a borda do jarro, e não voou para fora." Hesíodo, Trabalhos e Dias · Beócia, século VIII a.C. |
A troca do objeto tem autor e data. Erasmo de Roterdã recontou o episódio em latim nos Adágios, a coletânea de provérbios comentados que ele publicou pela primeira vez em 1500 e ampliou na edição de 1508, e escreveu pyxis onde o grego trazia pithos.
Pyxis nomeava um objeto pequeno: caixinha de tampa, geralmente de madeira de buxo, usada para guardar unguento, joia e remédio. O leitor europeu do século XVI leu caixinha, imaginou caixinha, e a imagem se fixou antes que alguém checasse a fonte.
O caminho da palavra até a frase feita
1. Hesíodo escreve pithos, o jarro de armazém, em Trabalhos e Dias, na Beócia do século VIII a.C.
2. o poema circula em grego por dois milênios com o mesmo objeto na cena
3. Erasmo reconta o episódio em latim nos Adágios e escreve pyxis, a caixinha de tampa
4. a versão latina vira a fonte dos manuais escolares, da poesia e da pintura europeia
5. pintores e gravadores desenham a caixinha nas mãos de Pandora e selam a imagem no imaginário
A frase carrega um objeto que nunca existiu na história que ela conta. O sentido sobreviveu inteiro à troca, porque o que importava na cena era a tampa levantada, não o formato do recipiente embaixo dela.
A troca foi documentada por Dora Panofsky e Erwin Panofsky no livro Pandora's Box: The Changing Aspects of a Mythical Symbol, de 1956, que reconstrói a mudança do objeto na tradução e depois na arte europeia.
A caixa também mudou o que a cena sugere ao olho. Um jarro de armazém pertence ao chão e à comida guardada; uma caixinha de tampa pertence à mesa de toucador e ao segredo pessoal, e a troca empurrou a leitura do mito para o lado da vaidade feminina.
A expressão chegou ao português já com a caixa dentro. Ela veio pelo francês e pelo latim escolar, com o objeto errado colado ao nome certo, e o falante brasileiro que a usa hoje repete uma escolha lexical feita por um humanista holandês no começo do século XVI.
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