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Caça às bruxas: das 19 forcas de Salem ao palco de 1953

Arthur Miller pôs Salem em cena no auge do macarthismo, e a perseguição de 1692 ganhou sentido político.

Colina com forca de madeira e aldeia puritana ao fundo, sob céu cinzento.

A colina das forcas de Salem, em 1692

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Por que uma investigação no Congresso ganha o apelido de caça às bruxas? Porque um dramaturgo americano pôs Salem no palco em 1953, quando Washington perseguia comunistas, e a plateia reconheceu a semelhança na hora.

A primeira forca de Salem subiu numa colina da colônia inglesa de Massachusetts, no dia 10 de junho, em 1692. Bridget Bishop, dona de taverna, perto dos 60 anos e casada três vezes, foi levada numa carroça até o alto do morro e enforcada.

A acusação dizia que o espectro dela, uma espécie de fantasma visível só para as vítimas, beliscava e sufocava moças da vizinhança. Ela negou até o fim. O tribunal aceitou a palavra das moças como prova.

Até 22 de setembro, mais dezoito pessoas seguiram pelo mesmo caminho. Catorze mulheres e cinco homens, no total, pendurados por bruxaria numa região de lavradores puritanos, gente que lia a Bíblia em casa e via o diabo em cada colheita perdida.

Pule 261 anos. Na noite de 22 de janeiro, em 1953, Arthur Miller, 37 anos, estreou The Crucible (O Cadinho, no título original; no Brasil, As Bruxas de Salém) no Martin Beck Theatre, em Nova York.

A Broadway vivia o auge do macarthismo, a campanha do senador Joseph McCarthy contra supostos comunistas infiltrados no governo, em Hollywood e nas universidades. Atores perdiam contrato por terem assinado um manifesto quinze anos antes.

Ninguém no palco falava de Moscou. A peça mostrava juízes de roupa preta pedindo nomes e réus que salvavam a própria pele quando apontavam vizinhos. O público saiu do teatro ligando os pontos sozinho.

A expressão já circulava em inglês antes de Miller. Faltava a ela um caso concreto, com data, réus e tribunal, e a peça entregou os três de bandeja.

Nas três faixas abaixo: o sentido da expressão no português de hoje, como Salem chegou a dezenove forcas em pouco mais de três meses, e o caminho dos autos puritanos até a Broadway.

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I  A frase de hoje

Perseguição com cara de processo

Fazer uma caça às bruxas, no português do Brasil, é perseguir um grupo ou uma pessoa por suspeita, com aparência de investigação e resultado decidido antes da prova. A expressão serve para política, empresa, escola e torcida de futebol.

Caça às bruxas é processo com a sentença escrita antes da primeira testemunha.

O nome carrega três ingredientes. Há o acusado, quase sempre alguém fora do padrão do grupo. Há a acusação, difícil de provar e mais difícil ainda de desmentir. E há o caçador, que ganha prestígio a cada nome novo na lista.

Onde a expressão aparece

O uso se espalha por quatro cenários:

• Na política: a comissão que convoca adversários para depor sem crime definido

• No trabalho: a diretoria atrás de um culpado antes de entender o prejuízo

• Na internet: o perfil soterrado de comentários por uma frase antiga

• Na escola: a turma que elege o dedo-duro sem ouvir ninguém

Nos quatro casos, a defesa perde força com o tempo. Quanto mais o acusado se explica, mais parece esconder algo, e o silêncio também pesa contra ele.

Quem usa e contra quem

A expressão quase sempre sai da boca do acusado. Político investigado chama a investigação de caça às bruxas; quem investiga nunca usa o termo para descrever o próprio trabalho. Por esse motivo a frase funciona como escudo e como ataque ao mesmo tempo.

Há também um uso neutro, de historiador, para as perseguições reais a supostas feiticeiras na Europa e nas colônias entre os séculos 15 e 18. Ali a expressão volta ao sentido literal, com fogueira, forca e tribunal da Igreja.

O peso do plural

A forma fixa é sempre caça às bruxas, com crase e no plural. Ninguém fala em caça à bruxa. O plural avisa que a perseguição não para no primeiro nome: cada acusado entrega outros, e a lista engorda.

Em inglês, a forma é witch hunt (caça à bruxa, no singular). O português ficou com o plural e ganhou de brinde a ideia de multidão, o que combina com Salem, onde mais de 150 pessoas foram presas por bruxaria em 1692.

 
 

II  De onde veio

Nove meses na aldeia de Salem

O caso começou no inverno de 1692, na casa do reverendo Samuel Parris, pastor de Salem Village, a aldeia rural vizinha do porto de Salem. A filha dele, Betty Parris, de 9 anos, e a sobrinha, Abigail Williams, de 11, passaram a ter crises: gritavam, se contorciam e se escondiam debaixo dos móveis.

O médico da aldeia, William Griggs, não achou causa natural e falou em mão do diabo. Pressionadas por adultos, as meninas apontaram três mulheres: Tituba, escravizada na casa de Parris, Sarah Good, mendiga, e Sarah Osborne, viúva que faltava aos cultos.

A confissão que acendeu o resto

Tituba confessou. Falou de um homem alto vindo de Boston, de um livro assinado com sangue e de outras bruxas na região, sem dizer quantas. A confissão salvou a vida dela e condenou a aldeia: se havia outras, alguém precisava achá-las.

As acusações se espalharam pelas cidades vizinhas. Em maio, o governador William Phips criou um tribunal especial, a Court of Oyer and Terminer (corte para ouvir e decidir, em francês jurídico antigo), presidida pelo vice-governador William Stoughton.

A prova sem contestação

O tribunal aceitou a prova espectral (o relato de quem dizia ver o espírito do réu atacando alguém). O acusado podia estar em casa, diante de testemunhas, e mesmo assim ser condenado: bastava uma moça jurar que viu o espectro dele no quarto.

Em Salem, confessar salvava a vida e negar levava à forca.

Quem confessava e entregava nomes era poupado. Rebecca Nurse, 71 anos, membro respeitado da igreja, chegou a ser absolvida; o júri voltou atrás depois de gritaria na sala, e ela foi enforcada em 19 de julho.

Giles Corey, lavrador com mais de 80 anos, recusou-se a responder ao tribunal. Foi esmagado sob pedras por dois dias, em setembro, até perder a vida, sem aceitar o julgamento. Ele não está entre os dezenove enforcados, e pelo menos cinco presos morreram na cadeia.

O fim do tribunal

Em outubro, o pastor Increase Mather, presidente de Harvard, publicou um texto contra a prova espectral:

“Seria melhor que dez bruxas suspeitas escapassem do que condenar um inocente.” Increase Mather, Cases of Conscience Concerning Evil Spirits (casos de consciência sobre espíritos malignos), 1692.

Phips dissolveu o tribunal no fim de outubro. Em 1697, o juiz Samuel Sewall pediu perdão em público, numa igreja de Boston. Em 1711, Massachusetts anulou condenações e pagou indenização a famílias. A última ré só foi inocentada em 2022: Elizabeth Johnson Jr., por iniciativa de uma turma escolar de North Andover.

 

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III  Carimbo de origem

Dos autos puritanos ao Martin Beck

Carimbo: witch hunt (caça à bruxa), inglês, sentido político fixado em 1953.

Rota: dos autos de Salem à Broadway, e dali à imprensa brasileira.

Ressalva: o uso figurado já existia antes; Miller deu a ele um caso.

Arthur Miller, dramaturgo nascido em Nova York em 1915 e autor de A Morte do Caixeiro-Viajante, de 1949, viajou a Salem em 1952 para ler os autos do processo no arquivo do condado. Ele procurava um jeito de falar do presente sem nomeá-lo.

O amigo que entregou nomes

Naquele ano, o diretor Elia Kazan, parceiro de Miller no teatro, depôs no Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara (HUAC, a sigla em inglês) e citou oito ex-colegas do Partido Comunista. Kazan contou a decisão a Miller dias antes, numa visita em Connecticut; Miller saiu de lá direto para Salem.

O episódio está em Timebends (curvas do tempo), a autobiografia de Miller publicada em 1987. O comitê não queria só confissão: queria nomes. Era o mecanismo de 1692, e Miller pôs no centro da peça o lavrador John Proctor, que prefere a forca a assinar uma confissão falsa.

A peça de 1953 não citava comunista nenhum, e a plateia entendeu.

O preço da estreia

A estreia no Martin Beck Theatre teve críticas frias. A peça ganhou o Tony de melhor peça mesmo assim e logo virou leitura escolar nos Estados Unidos, onde segue entre as mais encenadas por grupos de colégio.

Em 1954, o Departamento de Estado negou passaporte a Miller para ver a montagem belga da peça. Dois anos depois, em 1956, ele próprio foi chamado ao comitê. Recusou dar nomes, foi condenado por desacato ao Congresso em 1957 e absolvido em recurso em 1958.

McCarthy caiu antes dele: o Senado americano censurou o senador em dezembro de 1954, e ele saiu da vida pública três anos depois. A peça sobreviveu ao alvo e passou a servir para qualquer perseguição com tribunal de fachada.

A chegada ao português

No Brasil, o título As Bruxas de Salém amarrou a expressão à aldeia de Massachusetts. Na imprensa, caça às bruxas passou a nomear expurgo político, demissão em massa por suspeita e investigação feita para punir.

Quem usou witch hunt em sentido político pela primeira vez continua sem resposta. Os registros em inglês dos anos 1930 já trazem o termo contra adversários, mas nenhum dicionário aponta autor, porque a metáfora apareceu em vários jornais ao mesmo tempo, sem dono.

“Você já viu alguém virar suspeito só por negar a acusação?”

★ RARO

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