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A origem da frase está num trecho curto de texto religioso que quase todo leitor conhece de ouvir falar, sem nunca ter lido a passagem específica que produziu a expressão.
O capítulo 9 do Gênesis fecha o episódio do dilúvio. Noé sai da arca, ergue um altar, e o texto descreve um acordo formal entre Deus e todos os seres vivos, com uma cláusula única: não haverá outra água que destrua a terra inteira.
Todo acordo daquele mundo antigo tinha um sinal material. Estaca fincada, pedra empilhada, animal partido ao meio, refeição partilhada: o gesto físico existia para que qualquer um dos lados pudesse apontar depois e dizer que a promessa tinha sido feita ali, diante de testemunha.
O sinal escolhido no capítulo 9 é o arco na nuvem. A palavra hebraica usada no trecho é a mesma do arco de guerra, o que fez gerações de comentaristas lerem ali um arco de combate pendurado no céu com a corda para baixo, apontando para longe da terra, na posição de quem depõe a arma.
"Ponho o meu arco nas nuvens, e será por sinal do concerto entre mim e a terra." Gênesis 9:13, tradução de João Ferreira de Almeida, edição revista e corrigida |
O vocabulário devoto português fez o resto. A aliança de Noé pertencia ao que os pregadores chamavam de lei velha, o conjunto de acordos anteriores aos evangelhos, e o arco-íris passou a ser nomeado nos sermões e nos catecismos como o arco da lei velha, com a palavra lei carregando o peso teológico da frase.
Da nuvem do dilúvio até a mesa do bar
1. o capítulo 9 do Gênesis descreve o arco posto na nuvem como sinal do acordo entre Deus e a terra
2. a pregação portuguesa chama aquele acordo de lei velha, para separá-lo da lei nova dos evangelhos
3. o arco-íris ganha o nome devoto de arco da lei velha, repetido em sermão e em ensino de doutrina
4. a fala popular encolhe a expressão, a palavra lei cai no meio do caminho e sobra arco da velha
5. o arco-íris raro vira medida do extraordinário, e a frase migra do céu para a narrativa espantosa
A perda da palavra lei abriu espaço para a lenda. Sem ela, o falante ouve uma senhora dentro da frase e inventa explicações: a velha do céu que costura o arco, a bruxa que guarda ouro na ponta colorida, a mulher do folclore que sobe pelo arco quando chove com sol.
A etimologia popular não é erro do falante, é trabalho do idioma. Quando um pedaço da frase deixa de fazer sentido, a língua fabrica uma história nova que faça, e a história nova costuma ser mais bonita que a original. |
A imagem do arco desarmado explica a força que a frase manteve. Um arco de guerra pendurado no céu, colorido e inofensivo, é a figura de um poder que decidiu não ser usado, e a expressão herdou parte desse assombro mesmo depois de perder o endereço bíblico.
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