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Amigo da onça nasceu num cartum de 1943
Em 23 de outubro de 1943 a revista O Cruzeiro publicou um sujeito de paletó branco entregando o companheiro de viagem ao trocador por um tostão.
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A página de revista que batizou o falso amigo
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O Cruzeiro era a maior revista do Brasil e não fazia questão de disfarçar. Semanal, dos Diários Associados, criada por Assis Chateaubriand em 1928, ela punha foto-reportagem, moda, política e piada na mesma banca, na mesma semana, no país inteiro.
A tiragem cresceu década após década e passou de 700 mil exemplares por edição. Numa casa sem televisão, uma página daquela revista alcançava mais gente do que qualquer palanque, e alcançava sempre, no mesmo dia da semana, no mesmo lugar da sala.
Página inteira em cores era território caro. Quem ganhava um espaço fixo daquele tamanho precisava devolver alguma coisa que o leitor procurasse de propósito ao abrir a revista: um rosto, um bordão, um tipo reconhecível em meio segundo.
Em outubro de 1943 a direção da casa pediu exatamente esse tipo a um pernambucano de 19 anos, chegado ao Rio no ano anterior, que até então desenhava as trapalhadas de um personagem menor em revistas menores. O pedido cabia numa frase e era difícil de resolver na prancheta: um sujeito esperto, bem carioca.
O que voltou do desenho não era herói nem vilão. Era o conhecido que senta na sua mesa, ri das suas piadas, sabe a sua história inteira, e escolhe a única frase capaz de te derrubar na frente de quem decide.
O nome do personagem já existia antes do traço. Circulava numa piada de mesa de bar, sem dono, sem data e sem cara. A revista pegou a piada emprestada, pendurou um rosto nela e repetiu o mesmo rosto toda semana durante dezoito anos seguidos.
Foi o suficiente para virar língua. A anedota tinha fisionomia agora, e a fisionomia virou palavra de uso comum, dessas que o brasileiro solta na conversa sem parar para pensar de onde saiu.
Repare que a expressão não descreve uma pessoa má. Ela descreve um cargo dentro do seu círculo, e o cargo exige convivência, confiança e um público olhando.
Antes de voltar à banca de 1943, olhe a cena de hoje, na sala de reunião e no grupo de família, quando alguém de dentro abre a boca na hora exata em que o silêncio resolveria.
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I A Frase de Hoje
O nome que só cabe em quem está perto
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Três palavras que só funcionam vindas de dentro, com uma testemunha com poder olhando.
A reunião ia bem até a pergunta chegar. A diretoria quer saber por que o prazo escorregou, o silêncio dura dois segundos, e quem responde primeiro é o colega que almoça com você todo dia, com a data exata em que o arquivo saiu.
Ninguém mentiu. O atraso existiu, a data está no email, e a frase saiu com voz de quem só está ajudando a esclarecer. O estrago é integral e não dá para reclamar em voz alta sem piorar a própria situação.
A língua tem três palavras para o sujeito que faz a gentileza, e você já usou pelo menos uma vez este ano: amigo da onça.
Repare no que a expressão exige antes de funcionar. Ela não serve para inimigo declarado, não serve para desconhecido, não serve para concorrente de outra empresa. Ela só cola em quem tem acesso, senta perto e sabe o que ninguém de fora saberia.
São três ingredientes, e faltando um a frase não cola. Primeiro, intimidade real: a pessoa é amiga, colega de anos, parente. Segundo, plateia com poder: chefe, cliente, sogra, o grupo inteiro no visto. Terceiro, a embalagem inocente, a brincadeira ou a verdade dita como quem não quer nada.
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O amigo da onça quase nunca mente. Ele conta a verdade exata na frente da pessoa errada, e sai da sala de mãos limpas.
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Compare com as vizinhas de sentido, que parecem cobrir o mesmo terreno e não cobrem. "Traíra" acusa a traição direta e dispensa plateia. "Cobra criada" fala de esperteza e chega a soar elogio. "Judas" carrega tragédia, sentença e arrependimento, peso grande demais para a mesa do almoço.
"Amigo da onça" é a única que mantém a amizade dentro da acusação. A palavra amigo continua ali, inteira, e o veneno da frase vem justamente de ela continuar ali.
Hoje o gesto tem endereços novos e a mesma coreografia. É o print antigo colado no grupo de trabalho, a resposta com cópia para a diretoria, o parente que solta a pergunta sobre dinheiro na ceia com a mesa cheia, o comentário público no post de quem você conhece desde criança.
Cada um desses casos repete o mesmo desenho: alguém de dentro, uma testemunha que importa, e uma frase curta que não dá para desmentir na hora.
O brasileiro entende as três palavras sem explicação e sem contexto, porque a cena continua acontecendo em escritório, em grupo de família e em roda de bar, no país inteiro, todo dia.
E quase ninguém lembra que a expressão tem um rosto desenhado, de paletó branco e gravata borboleta, publicado numa revista de banca com data, página e legenda conferíveis.
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II De Onde Veio
O paletó branco da página 39
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A encomenda saiu da direção de O Cruzeiro. Leão Gondim de Oliveira queria um personagem fixo para a revista e já tinha o nome escolhido antes de existir o desenho.
O molde vinha de fora e não era segredo. A americana Esquire publicava a série Enemies of Man, e a argentina Patoruzú, de Buenos Aires, publicava desde fevereiro de 1938 o Enemigos del hombre, de Guillermo Divito, com o mesmo mecanismo: um tipo que existe para constranger o próximo em uma tirada só.
Faltava a mão brasileira. Ela apareceu num pernambucano nascido no Recife em 14 de agosto de 1924, que desembarcou no Rio de Janeiro em 1942 e desenhava As Aventuras de Oliveira, o Trapalhão, nas revistas A Cigarra e O Guri: Péricles de Andrade Maranhão.
A estreia saiu na edição de 23 de outubro de 1943, na página 39.
A cena é de transporte coletivo, apertada e banal. O personagem levanta o braço, aponta o companheiro de viagem e entrega o sujeito ao trocador por causa da passagem.
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"Foi esse aí mesmo, seu trocador. Só botou 'um' tostão!"
Legenda da primeira charge do Amigo da Onça · O Cruzeiro, 23 de outubro de 1943, p. 39
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Está tudo na primeira aparição, sem precisar de segunda. O dano é minúsculo, um tostão. A vítima é próxima, viaja ao lado. A autoridade está presente e ouvindo. E o delator não leva nada para casa com a denúncia, além do prazer de ter falado.
O traço fixou o tipo para sempre. Baixo, magro, bigodinho fino, cabelo penteado para trás com brilhantina, paletó branco de linho, calça preta e gravata borboleta. Roupa de quem foi convidado para a festa, não de quem entrou pela janela.
A página virou compromisso semanal do país. Péricles levou o personagem por dezoito anos e mais de mil situações, do morro ao salão, do escritório à fila do cinema, sempre com a mesma coreografia de três peças: alguém confortável, uma testemunha e uma frase.
O alcance fazia o resto do trabalho. Numa revista que passou de 700 mil exemplares, o mesmo sujeito de paletó branco chegava toda semana à sala de espera do dentista, à barbearia e à mesa da cozinha, de Belém a Porto Alegre.
Aí o nome saiu da página e caiu na rua. Deixou de ser o título de uma charge e virou classificação de gente, dita sem citar revista nenhuma: fulano é o amigo da onça.
A última charge assinada por Péricles saiu em 3 de fevereiro de 1962. Ele tinha largado a prancheta no último dia de 1961, aos 37 anos, e nunca soube o tamanho que a criatura ia alcançar.
A página não parou junto com ele. Carlos Estêvão assumiu o personagem em abril de 1962 e seguiu desenhando o mesmo sujeito até 1972, dez anos depois da despedida do criador.
O personagem sobreviveu ao desenhista por uma década. A expressão sobreviveu aos dois por mais de sessenta anos, e nem precisa mais do desenho para ser entendida.
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