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Abre alas, o pedido de passagem de 1899

Chiquinha Gonzaga compôs Ó Abre Alas para o cordão Rosa de Ouro, e o refrão do carnaval virou a ordem de dar passagem em qualquer multidão.

Rua de paralelepípedos com duas fileiras de foliões abrindo passagem no carnaval.

Duas alas abertas numa rua de carnaval

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De onde veio o abrir alas do carnaval? De uma marchinha, a canção curta de folia em ritmo de marcha: Chiquinha Gonzaga compôs Ó Abre Alas em 1899 para o Rosa de Ouro, um cordão (grupo de foliões que desfilava a pé, em fila) do bairro do Andaraí, no Rio.

Imagine uma rua estreita do Andaraí numa tarde de carnaval de 1899. As calçadas estão lotadas. Há gente de máscara de papelão, menino descalço correndo atrás do batuque e senhora de leque debruçada na janela do sobrado.

Da esquina vem o Rosa de Ouro. Na frente, o porta-estandarte, quem carrega a bandeira do grupo, ergue o pano bordado. Atrás dele, dezenas de foliões caminham em fila, batem tambor e marcam o passo pelo apito do mestre.

A rua não comporta os dois. A multidão quer ver de perto, o cordão precisa seguir caminho, e ninguém recua um passo por gentileza.

Então o coro solta um refrão em ritmo de marcha, curto, fácil de pegar já na segunda vez: “Ó abre alas, que eu quero passar.”

Na terceira repetição, a calçada canta junto. As pessoas recuam para os dois lados, formam duas fileiras e deixam um corredor livre pelo centro da rua. O cordão atravessa por ele, cantando.

A melodia era de uma vizinha do bairro, pianista de 51 anos conhecida nos teatros da cidade. O verso não trazia palavra difícil nem rima rebuscada, e por esse motivo grudou na boca de quem só estava assistindo.

O refrão saiu do carnaval e entrou na fala comum. Hoje abrir alas se diz no corredor do hospital, na porta do estádio e na cozinha cheia de parentes, sempre que alguém precisa atravessar um grupo parado.

A expressão guarda a cena de 1899 quase intacta: alguém chega, pede passagem com festa, e a multidão vira corredor.

A faixa I mostra o que abrir alas quer dizer no português de hoje, de onde saiu o substantivo abre-alas e como usar a expressão sem errar o tom.

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I  A frase de hoje

A multidão vira corredor

Abrir alas é afastar-se para os dois lados e deixar um caminho livre para alguém passar. Ala, aqui, quer dizer fileira de gente, e a imagem da frase é exata: uma multidão que se divide em duas filas e vira passagem.

O sentido literal sobrevive em toda entrada com plateia. A noiva entra na igreja entre duas alas de convidados. O time sai do vestiário entre duas fileiras de crianças. O segurança abre caminho para o cantor até o palco.

O sentido figurado é mais largo. Abrir alas também quer dizer facilitar a chegada de alguém ou de uma ideia: quem diz que um prêmio abriu alas para uma carreira está dizendo que o prêmio tirou os obstáculos da frente.

A parente mais próxima da expressão é pedir passagem, que diz o mesmo com menos festa. Pedir passagem põe o esforço em quem quer passar; abrir alas entrega o trabalho para a multidão, que se mexe toda.

Abrir alas é transformar uma multidão em corredor.

O substantivo abre-alas

Do verbo nasceu o substantivo abre-alas, com hífen, para quem ou o que vai na frente e prepara a passagem do resto. No desfile das escolas de samba, o carro abre-alas, a primeira alegoria (o carro decorado do enredo), leva o símbolo da escola e anuncia quem está chegando.

Fora da avenida, o abre-alas é a primeira faixa de um disco, o capítulo de estreia de uma série, o projeto-piloto que testa o terreno. Em todos os casos, ele chega primeiro para os outros entrarem depois.

O tom da expressão

Abrir alas carrega festa e um pouco de ordem. O imperativo (a forma do verbo que dá ordem) abram alas anuncia entrada com pompa, e quem o usa costuma sorrir, porque sabe que está imitando um cortejo de carnaval.

A expressão também serve para a ironia. “Abram alas, que o chefe chegou”, dito baixinho na sala de reunião, zomba de quem exige passagem como se fosse rei.

Como usar abre-alas sem errar

Três cuidados mantêm a expressão no lugar certo:

1. Use o verbo no plural quando falar com a multidão, abram alas, porque a ordem vai para muita gente ao mesmo tempo.

2. Escreva o substantivo com hífen, abre-alas, e deixe a palavra igual no plural: o abre-alas, os abre-alas.

3. Reserve a frase para entrada com festa ou com honra; para pedir licença no ônibus lotado, com licença resolve melhor.

O terceiro cuidado é o que mais escapa. Abrir alas promete cortejo, e usada numa situação miúda soa como piada, mesmo quando quem fala não quis brincar.

 
 

II  De onde veio

O hino do Rosa de Ouro

Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, nasceu no Rio em 1847, filha do militar José Basileu Neves Gonzaga. Aprendeu piano ainda menina, dentro de casa, e compunha desde cedo.

Aos 16 anos, em 1863, casou com Jacinto Ribeiro do Amaral, escolhido pela família. Perto de 1870 ela deixou o marido, e a família rompeu com ela. Para se sustentar, deu aula de piano e tocou em lojas de música e bailes da cidade.

O primeiro sucesso veio em 1877, com Atraente, uma polca (dança de salão de origem europeia, de passo rápido e saltado). Em 1885 ela estreou como maestrina, a regente que conduz a orquestra, na opereta A Corte na Roça, uma peça de teatro cantada, no Teatro Príncipe Imperial.

O pedido do cordão

Em 1899, Chiquinha morava no Andaraí. Os integrantes do Rosa de Ouro, cordão do bairro, foram até ela pedir um hino, uma canção própria para cantar no desfile daquele carnaval.

Os cordões da época já tinham o hábito de anunciar a própria passagem em versos cantados na rua. Chiquinha pegou esse anúncio e deu a ele melodia de marcha, no compasso do pé de quem anda em fila.

O pedido de passagem já existia na rua; a marcha deu a ele refrão.

A letra cabe numa respiração. Abre com “Ó abre alas, que eu quero passar”, repete o verso e termina com uma aposta: “Rosa de Ouro é que vai ganhar” (Chiquinha Gonzaga, Ó Abre Alas, 1899).

A aposta deu certo. O refrão ajudou o Rosa de Ouro a vencer a disputa entre os cordões naquele carnaval, e a canção saiu do Andaraí para a cidade inteira.

A marcha tinha ainda uma vantagem prática. O compasso de dois tempos acompanha o passo de quem anda, esquerda e direita, e deixa o cordão inteiro caminhar no mesmo ritmo enquanto canta.

A primeira marcha de carnaval

Ó Abre Alas é apontada como a primeira canção composta para o carnaval no Brasil e a primeira marcha carnavalesca. Até ali, o carnaval de rua cantava música emprestada de outras festas: polca de salão, modinha e verso improvisado na hora.

Entre 1901 e 1910, a marcha voltou às ruas em todos os carnavais e virou símbolo da folia carioca. O gênero que ela antecipou, a marchinha, só firmou nos carnavais dos anos 1920, duas décadas depois.

A compositora de 51 anos, rompida com a família e vivendo do próprio piano, deu ao carnaval a música de que a festa ia precisar antes de a festa saber que precisava.

 

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III  Carimbo de origem

Do Andaraí à avenida

Expressão: abrir alas

Sentido: dar passagem

Origem: marcha de carnaval

Obra: Ó Abre Alas

Ano: 1899

Autora: Chiquinha Gonzaga

Cordão: Rosa de Ouro, Andaraí

A marcha deu à ordem data e endereço, mas a palavra ala chegou ao português muito antes do carnaval.

A ala antes do carnaval

Ala vem do latim ala, que quer dizer asa. Os romanos chamavam de alae (asas, no plural latino) as tropas postas nos lados do exército, à direita e à esquerda do centro, como as asas de um pássaro.

Em português, ala virou fileira, de soldados ou de qualquer gente em linha, e também o lado de um prédio, como a ala de um hospital. O dicionário Infopédia, da Porto Editora, de Portugal, registra abrir alas como formar fileiras para deixar alguém passar.

O registro português mostra que a locução (o grupo de palavras que funciona como uma só) não ficou presa ao carnaval carioca. O que a marcha de 1899 fez no Brasil foi tirar a ordem do cortejo solene e entregar ao folião, que a canta rindo.

O que o registro não alcança

O texto mais antigo com abrir alas escrito, anterior à marcha, segue sem carimbo. Os dicionários registram ala como fileira, mas nenhum deles aponta a frase pioneira com a locução inteira, e por esse motivo a origem anterior a 1899 fica sem documento com data e autor.

O que tem data, autora e endereço é a canção do Andaraí. Foi ela que fixou abrir alas no repertório brasileiro, e é dela que vem o abre-alas da avenida.

Da rua à avenida

As escolas de samba, que começaram no Rio em 1928 com a Deixa Falar, do bairro do Estácio, herdaram do cordão o desfile em fila e a vontade de passar primeiro.

Hoje cada escola se divide em alas, os grupos de desfilantes com a mesma fantasia, como a ala das baianas. O desfile inteiro é uma sequência de fileiras pedindo passagem diante do público.

A fama de Chiquinha seguiu crescendo nos palcos. Em 1914, a primeira-dama Nair de Teffé tocou ao violão o Corta-Jaca, um maxixe (dança de salão carioca, de passo agarrado) de Chiquinha, num sarau no Palácio do Catete, e o senador Rui Barbosa criticou a escolha no Senado, por achar o maxixe vulgar demais para o palácio.

Em 1917, ela ajudou a fundar a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a SBAT, para cobrar dos teatros o direito autoral das obras encenadas. Saiu de cena aos 87 anos, em 28 de fevereiro de 1935, poucos dias antes do carnaval.

Em 2012, a Lei 12.624 transformou o aniversário dela, 17 de outubro, no Dia Nacional da Música Popular Brasileira.

O Rosa de Ouro pediu passagem numa rua estreita do Andaraí. O Brasil guardou o pedido e o canta toda vez que precisa atravessar uma multidão.

“Para quem você abriria alas hoje, se a rua inteira parasse para ouvir?”

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, o que aconteceu com o cordão Rosa de Ouro no carnaval de 1899, depois de cantar a marcha Ó Abre Alas?

ADecidiu não repetir a marcha nos carnavais seguintes
BFoi convidado a desfilar junto com um cordão rival
CVenceu a disputa entre os cordões daquele carnaval
DMudou de bairro, saindo do Andaraí

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