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Abraço de tamanduá: o aperto com garras de 10 cm
O bicho que parece manso se ergue nas patas traseiras e aperta quem o encurrala. A língua transformou a defesa em traição.
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De pé, o tamanduá abre os braços para se defender
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Por que se chama de abraço de tamanduá o gesto de quem sorri e depois apunhala? Porque o tamanduá-bandeira, quando acuado, fica de pé, abre os braços como quem vai acolher e fecha o aperto com garras capazes de rasgar couro de onça.
A cena acontece no cerrado, no pantanal e nas beiras de estrada do Centro-Oeste. O bicho anda devagar, de cabeça baixa, farejando cupinzeiros com o focinho comprido. Parece desajeitado, quase cômico, com o rabo peludo arrastando atrás como uma vassoura. Muita gente para o carro para fotografar, achando que encontrou o bicho mais manso do cerrado.
A calma engana quem chega perto demais. Encurralado por cachorros ou por gente, o tamanduá recua até achar apoio, senta sobre as patas traseiras, apoia o peso no rabo e ergue os braços dianteiros à altura do peito do agressor.
Visto de frente, o gesto lembra um convite. Os braços abertos, o corpo inclinado para a frente, a cabeça erguida. Quem nunca viu a cena pode achar que o animal quer colo.
Não quer. As mãos da frente carregam garras curvas, a do meio bem maior que as outras, feitas para abrir cupinzeiro de terra endurecida pelo sol. O mesmo movimento que arrebenta um monte de barro seco abre a pele de uma pessoa.
Quando o agressor se aproxima, o tamanduá fecha os braços. As garras entram pelas costas ou pelas coxas, e o bicho não solta com facilidade. O abraço que parecia acolhida vira armadilha, e cada puxão para escapar aprofunda o corte.
O sertanejo e o peão de fazenda conheciam a cena de perto e deram a ela um uso fora do mato. Abraço de tamanduá passou a nomear a amizade falsa, o afago de quem prepara a rasteira.
Logo abaixo, como a expressão circula hoje, o que a ciência registrou sobre o aperto de verdade e como o bicho entrou no vocabulário.
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I A frase de hoje
O carinho que esconde a faca
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Abraço de tamanduá, no português do Brasil, é o gesto de afeto que esconde intenção hostil: o abraço, o elogio ou a ajuda de quem, logo em seguida, trai. A expressão toma emprestada a defesa do tamanduá-bandeira, animal que abre os braços antes de ferir quem o encurrala.
O abraço de tamanduá assusta porque chega pela frente, com cara de amizade, e fere pelas costas. |
O uso mais antigo vem da política do interior. O coronel abraçava o adversário no comício, posava para a foto de reconciliação e, na semana seguinte, mandava cortar a água da fazenda do rival. Nas cidades pequenas, todo mundo sabia ler o gesto.
Na política de Brasília, a imagem continua viva. Colunistas usam a expressão para o apoio público que um partido dá a um ministro na véspera de retirá-lo do cargo, ou para o aliado que elogia o candidato em entrevista enquanto negocia com o concorrente.
No trabalho, o abraço de tamanduá tem cara de reunião. O colega elogia a ideia na frente do chefe e, no corredor, conta a versão em que a ideia falhou. O gerente promete promoção e, no mês seguinte, contrata alguém de fora para a vaga.
Parentes da mesma família
A língua guarda outras imagens para a falsidade, cada uma com um tom:
• Beijo de Judas: a traição de quem se aproxima com carinho, tirada do Evangelho, em que Judas Iscariotes identifica Jesus aos guardas com um beijo
• Lágrimas de crocodilo: a tristeza fingida, da crença medieval de que o crocodilo chorava enquanto devorava a presa
• Amigo da onça: o amigo que atrapalha quando devia ajudar, nascido do personagem criado pelo cartunista Péricles Maranhão na revista O Cruzeiro, em 1943
A diferença do abraço de tamanduá está no corpo. O beijo de Judas denuncia, as lágrimas fingem, o amigo da onça atrapalha por descuido ou gosto. O tamanduá aperta de verdade, com as duas mãos, e o dano vem do contato físico que parecia carinho.
A expressão serve bem, então, para quem usa a proximidade como arma. Quem dá o abraço de tamanduá precisa chegar perto, ganhar confiança e só então fechar os braços. A distância protege; o afeto é a porta de entrada do golpe.
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II De onde veio
Um bicho sem dentes e com punhais
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O dono do abraço é o tamanduá-bandeira, Myrmecophaga tridactyla (nome científico em latim que quer dizer comedor de formigas de três dedos), maior representante da família dos tamanduás. Vive do sul do México ao norte da Argentina, e no Brasil ocupa sobretudo o cerrado e o pantanal.
O bicho não tem dentes. Come cupins e formigas com uma língua fina e pegajosa, que entra e sai do cupinzeiro dezenas de vezes por minuto. Para chegar ao alimento, precisa abrir montes de terra dura, e a ferramenta para a tarefa são as garras das mãos dianteiras.
Essas garras são tão grandes que o animal não consegue pisar com a palma da mão. Anda apoiado nos nós dos dedos, com as unhas dobradas para dentro, como quem guarda um canivete fechado no bolso. É esse andar torto que dá ao tamanduá o jeito desengonçado.
Quando ameaçado, o tamanduá prefere fugir. Só enfrenta o agressor quando não tem saída: cercado por cães, preso numa cerca ou acuado contra um barranco. Aí usa o rabo como terceira perna, levanta o tronco e golpeia com os braços.
Em 2014, o dermatologista Vidal Haddad Junior, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu, publicou com colegas um artigo na revista Wilderness & Environmental Medicine sobre dois caçadores mortos por tamanduás-bandeira no Brasil. O título do trabalho não deixa margem:
"Human deaths caused by giant anteaters (Myrmecophaga tridactyla) in Brazil." (Mortes humanas causadas por tamanduás-bandeira no Brasil.) Vidal Haddad Junior e colegas, Wilderness & Environmental Medicine, 2014 |
Nos dois casos, os homens tinham encurralado o animal durante a caça, com ajuda de cachorros. O tamanduá se ergueu, prendeu cada caçador no abraço e cravou as garras, de até 10 centímetros segundo a descrição do artigo, nas pernas e nos braços. As feridas atingiram artérias, e os dois morreram de hemorragia.
O tamanduá não ataca por fome nem por território: ele abraça quando alguém o encurrala e não deixa rota de fuga. |
Como o aperto funciona
1. O animal recua até encostar o corpo em algo firme ou firmar o rabo no chão
2. Ergue o tronco sobre as patas traseiras e abre os braços à altura do peito do agressor
3. Espera o avanço e fecha os braços, com as garras voltadas para dentro
4. Mantém o aperto enquanto o agressor se debate, e as garras rasgam mais fundo a cada puxão
A conclusão do artigo de Haddad Junior mira o comportamento humano, não o bicho. Os autores lembram que o tamanduá-bandeira é espécie ameaçada e que os acidentes graves acontecem quando alguém insiste em se aproximar de um animal que só queria ir embora.
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