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A cobra vai fumar: a piada que a FEB bordou na farda em 1944

Diziam que o Brasil só entraria na guerra quando a cobra fumasse. Os pracinhas foram à Itália com ela no ombro.

Soldado brasileiro de 1944 com o distintivo da cobra verde fumando cachimbo bordado no ombro da farda.

A cobra fumando no ombro da FEB, 1944

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De onde vem dizer que a cobra vai fumar quando a briga está pra começar? Vem de uma piada brasileira sobre a Segunda Guerra Mundial, que virou distintivo de farda e depois virou ameaça de conversa.

No começo dos anos 1940, a guerra parecia assunto da Europa. O governo de Getúlio Vargas negociava com os dois lados, vendia matéria-prima a quem pagasse e evitava escolher bandeira. Nas ruas e nos jornais, a aposta era que o Brasil ficaria só olhando.

Daí nasceu a frase que corria de boca em boca: era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra. Cobra não fuma, nunca fumou. A imagem servia pra dizer que a hipótese era absurda, do tamanho de um bicho sem mãos acendendo cachimbo.

A piada perdeu a graça em agosto de 1942. Submarinos alemães afundaram navios de passageiros na costa da Bahia e de Sergipe, com centenas de brasileiros a bordo. A multidão saiu às ruas pedindo resposta, e o governo declarou guerra à Alemanha e à Itália em 22 de agosto daquele ano.

Declarar guerra ainda não era mandar soldado. O Brasil levou quase dois anos pra montar, treinar e embarcar uma tropa. Nesse intervalo, a frase da cobra continuou viva, agora com outro tom: a dúvida mudou de se o país iria para quando iria.

Em julho de 1944, o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira desembarcou em Nápoles, no sul da Itália. No ombro esquerdo da farda, os soldados levavam um distintivo novo: uma cobra verde, enrolada, com um cachimbo aceso na boca.

A tropa tinha transformado o deboche em brasão. Se diziam que a cobra nunca ia fumar, ela estava ali, fumando, em pleno front europeu. O recado era para os de casa e para o inimigo ao mesmo tempo.

Logo abaixo, o que a frase quer dizer na conversa de hoje, como o distintivo foi parar na manga dos pracinhas e o caminho que a cobra fez do front italiano até o vocabulário do Brasil.

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I  A frase de hoje

O aviso de que a briga começou

A cobra vai fumar, no português do Brasil, é o aviso de que uma confusão séria está prestes a estourar. Quem diz a frase anuncia briga, cobrança dura ou reação forte, e quase sempre fala de algo que ainda não aconteceu, mas já está decidido.

A cobra vai fumar é a ameaça que chega antes do soco: a briga ainda não começou, e todo mundo já sabe que vem.

A frase aparece em casa, no trabalho e no futebol. A mãe que descobre a nota vermelha escondida na mochila avisa que, quando o pai chegar, a cobra vai fumar. O torcedor diz o mesmo na véspera do clássico.

Na política, a frase costuma aparecer em manchete. Quando dois partidos rompem uma aliança às vésperas da votação, o colunista avisa que a cobra vai fumar no plenário, e o leitor entende na hora que vem discurso inflamado, troca de acusação e voto apertado.

No trabalho, ela marca a reunião que promete gritaria. O gerente que vê o prejuízo do trimestre antes da diretoria já sabe que, na segunda-feira, a cobra vai fumar na sala de cima.

O tempo do verbo pesa. Vai fumar fala do futuro próximo e certo. Quando a confusão já está acontecendo, o brasileiro troca pelo presente e diz que a cobra está fumando, com a mesma ideia de briga pegando fogo.

Formas da mesma frase

A expressão circula em três versões, cada uma com um uso:

• A cobra vai fumar: a ameaça, dita antes da confusão, quando ainda dá tempo de correr

• A cobra está fumando: o relato, dito no meio da briga, quando já não dá pra segurar

• A cobra fumou: o balanço, dito depois, para contar que a confusão aconteceu e foi feia

A frase guarda uma ironia que pouca gente nota. Nasceu pra dizer que algo nunca aconteceria e hoje serve pra dizer que algo vai acontecer com certeza. O sentido virou de cabeça para baixo junto com a história do país.

Daí vem a força de ameaça. Quem a usa avisa que o improvável perdeu o prazo de validade. A paciência acabou, a tolerância acabou, e o que parecia impossível vai acontecer daqui a pouco.

 
 

II  De onde veio

A manga que respondeu à piada

A Força Expedicionária Brasileira, a FEB, foi criada em 1943 sob o comando do general João Baptista Mascarenhas de Moraes. Era a tropa que o Brasil mandaria para lutar com os Aliados, o grupo de países liderado por Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética.

Os soldados da FEB ganharam o apelido de pracinhas, diminutivo de praça, nome que o Exército dá ao militar sem patente de oficial. O apelido pegou na imprensa e ficou na memória do país como o nome carinhoso daqueles combatentes.

O distintivo da cobra fumando nasceu entre os próprios expedicionários. O desenho mostra uma serpente verde sobre fundo amarelo ou branco, conforme a versão, com cachimbo na boca e a sigla FEB no alto, tudo cercado por uma borda vermelha.

Quem desenhou primeiro a cobra não se sabe com segurança. As memórias dos veteranos atribuem a ideia a oficiais e soldados diferentes, e nenhum documento oficial da época registra um autor único. O que se sabe é que a tropa adotou o símbolo antes mesmo de chegar à Itália.

Há um motivo prático por trás do distintivo. No front, os brasileiros usavam uniformes e equipamentos fornecidos pelo Exército dos Estados Unidos, e de longe pareciam soldados americanos. A cobra no ombro marcava quem era brasileiro.

O símbolo também respondia a quem ficou em casa. Muitos expedicionários tinham ouvido a piada da cobra antes do embarque, dita por vizinhos, colegas e até parentes. Bordar o bicho fumando na manga era uma forma de dizer que a dúvida tinha acabado e que a tropa estava, de fato, a caminho da guerra.

Da piada ao front, passo a passo

1. Começo dos anos 1940: corre no Brasil a frase de que era mais fácil uma cobra fumar do que o país entrar na guerra

2. Agosto de 1942: submarinos alemães afundam navios brasileiros e o governo declara guerra à Alemanha e à Itália

3. 1943: o governo cria a Força Expedicionária Brasileira e começa a treinar a tropa

4. Julho de 1944: o primeiro escalão desembarca em Nápoles com a cobra fumando no ombro

A FEB lutou nos Apeninos, a cordilheira que corta a Itália de norte a sul, durante o inverno de 1944 para 1945. O nome mais lembrado da campanha é Monte Castello, um morro tomado pelos brasileiros em 21 de fevereiro de 1945, depois de várias tentativas fracassadas.

A tropa pegou a frase que duvidava dela e a costurou na própria roupa.

Os pracinhas também levaram o bordão para o combate. Antes de um ataque, era comum ouvir que a cobra ia fumar, e o grito virou senha de coragem. A guerra na Europa terminou em maio de 1945, e a tropa voltou ao Brasil naquele mesmo ano.

 

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III  Carimbo de origem

Do ombro do pracinha à boca do povo

Carimbo: a frase nasce como piada nos anos que antecederam a entrada do Brasil na guerra, em 1942; o distintivo da FEB a transforma em símbolo em 1944.

Rota: da conversa de rua e dos jornais para a manga da farda, da farda para o grito de ataque no front italiano, do front para os desfiles da volta e daí para a conversa brasileira.

Ressalva: não há registro impresso que fixe a data exata em que a piada da cobra começou a circular, nem consenso sobre quem desenhou o distintivo.

A volta dos pracinhas, em 1945, foi festa nas ruas do Rio de Janeiro, então capital do país. Os desfiles mostraram a cobra fumando para milhares de pessoas, e o bordão saiu do quartel junto com a tropa.

Nas décadas seguintes, a cobra ficou nos monumentos e nas associações de veteranos. O Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, no Rio, inaugurado em 1960, guarda os restos de expedicionários e mantém viva a memória da campanha.

Os veteranos fundaram associações em várias capitais, e muitas adotaram a cobra fumando como emblema. Nos encontros anuais, a frase voltava como saudação entre antigos companheiros de trincheira, o que ajudou a mantê-la em circulação muito depois do fim da guerra, já entre filhos e netos que nunca tinham vestido farda.

A frase perde a farda

Com o tempo, quem usava a expressão já não pensava na guerra. A cobra vai fumar passou a servir para qualquer briga anunciada: discussão de família, cobrança de chefe, clássico de futebol, eleição apertada.

O verbo fumar ajudou na passagem. Fumaça sugere fogo, e fogo sugere confusão. Mesmo quem nunca ouviu falar da FEB entende a imagem de algo esquentando a ponto de soltar fumaça.

O distintivo continua em uso. Unidades do Exército Brasileiro herdeiras da FEB carregam a cobra fumando nos seus símbolos, e o desenho aparece em museus militares, em selos e em camisetas de quem quer lembrar os avós que lutaram.

O resultado é uma expressão com duas camadas. Por cima, a ameaça de briga que qualquer brasileiro entende. Por baixo, a história de um país que ouviu que nunca iria e foi, com a prova costurada no ombro.

"Qual foi a última vez que você avisou que a cobra ia fumar, e ela fumou mesmo?"

 
 
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Em agosto de 1942, o que levou o governo brasileiro a declarar guerra à Alemanha e à Itália?

AUm bombardeio alemão que atingiu a capital do país, o Rio de Janeiro
BO desembarque da primeira tropa brasileira em Nápoles, no sul da Itália
CSubmarinos alemães que afundaram navios de passageiros na costa da Bahia e de Sergipe
DA tomada do Monte Castello pelos brasileiros, depois de várias tentativas fracassadas

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